Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
João Umberto Nassif

Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
Ivana Maria França de Negri
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Myria Machado Botelho


Seguidores

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ÉSOPO

 Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara

Pedro e o lobo
a fábula reincidente
de lama e engodo
que o povo permeia
em nossa nação.

Obstinada gente
suporta e encorpa
a cultura do roubo
a idolatria do corpo
a insistência do copo
e a cobiça do ouro.

Onde está o cerne
de nossa alma doente
contaminada pelo vírus
de um sêmen consensual
que alastra devastadoramente
com injustiça, ignorância e ignobilidade?

Desintegrados pelas mentiras
sorrimos risos de falsas almas
saudamos com palmas que entoam sons
no vazio dos imorais.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

AS TRÊS BATATAS

Cássio Camilo Almeida de Negri
Cadeira n° 20 - Patrono: Benedicto Evangelista da Costa
A cidade era quase deserta, em meio à ocupação alemã, durante a segunda guerra mundial.
Vez ou outra passavam velozes caminhões Mercedes, carregados de soldados e tanques do Führer.
O silêncio da morte era entrecortado pelo ecoar das botas, cujas solas estatelando juntas durante a marcha, causavam um frio na espinha da família judia de três pessoas, escondidas atrás da parede falsa daquela casa .
De vez em quando, na escuridão da noite, rajadas de metralhadoras faziam parar sorrateiros passos noturnos daqueles que se atreviam a sair de casa em busca de alimento no gueto de Varsóvia.
Muitas vezes, botas pretas que abrigavam pés e pernas em pata de ganso, batiam duras nos degraus de madeira da escada, encostada na parede falsa.
Então, a respiração dos ocupantes do esconderijo ficava suspensa e o tempo parava.
– Seria hoje...? Pensavam os três.
Um suspiro de alivio, os pulmões voltavam a se encher, o coração disparava, quando, pelo buraco de rato, junto à escada, lá estavam, mais uma vez, as três batatas.
Assim se passaram meses, naquela cidade semi-fantasma.
Todos os dias, três batatas grandes apareciam no buraco do rato.
Um dia, no entanto, após violento bombardeio, ouviu-se uma grande fuzilaria na escada. Algumas balas quebraram as paredes do esconderijo.
Após silêncio tumular, vozes num linguajar diferente do costumeiro.
A falsa parede é aberta e vários soldados americanos saúdam a família de judeus.
No pé da escada, no entanto, um soldado morto, com a suástica nazista no braço, tinha em suas mãos semi-abertas, três batatas grandes.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CARNAVAL

Elda Nympha Cobra Silveira
Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Na ânsia de ser feliz
ferve o samba dentro de mim!
Sacode e balança
numa constância
que mexe no meu corpo
e no meu coração.
Meu amor!
Samba comigo, meu ébano...
Venha se enredar
na serpentina,
venha colorir
com o confete
este seu corpo suado,
que eu estou a fim...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

COESÃO E COERÊNCIA

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Coesão e coerência são duas palavras de mesma origem e de significados muito próximos, mas se distinguem. A presença de ambas é indispensável para que um texto possa ser considerado bem escrito. Ambas possuem o mesmo prefixo co, significativo da nossa proposição com, e procedem do verbo latino co-haerere, que significa herdar juntamente com. As formas verbais cohaerens (o que herda com) e cohaesus (herdado com) deram origem aos vocábulos portugueses coerente/coerência e coeso/coesão.
Coesão significa a “união íntima das partes de um todo”, enquanto coerência significa, mais amplamente, “ligação ou harmonia entre situações, acontecimentos ou ideias”. Num texto escrito, coesão é o elemento de ligação que cada parte de um todo tem com outra(s) parte(s) que diretamente toca. Seria, pois, como a ligação que cada um dos elos de uma corrente tem com o elo anterior e o que lhe sucede. Já coerência diz mais respeito ao todo, ao conjunto, de tal forma que haja relação lógica entre todos os elementos, desde o primeiro até o último.
Vejo que está tudo muito teórico. Passo a dois exemplos que me ocorrem, os quais, espero, tornarão mais claro meu pensamento. O primeiro, que cito de memória, é um velho bestialógico (nome que se dava, antigamente, a composições literárias cômicas, burlescas, em que nada fazia sentido lógico; são extremamente difíceis de compor, embora possam parecer fáceis...) de Bernardo Guimarães:
“Com grande desgosto dos povos da Arábia
Vieram os bonzos das partes do Além
Comendo presuntos, empadas de trigo,
Sem ter um vintém.
E os ratos vieram, trotando depressa,
E de espada na cinta, barrete na mão,
Prostraram-se ante eles, fazendo caretas
Com grã devoção.
E o filho dos ermos, dos montes rolando,
Puxou pela faca, de grande extensão,
Caiu como um cisne, que toca trombeta,
De ventas no chão.
E eu vi Napoleão,
Enquanto um mancebo, de nobre feição,
Brincava entre as pernas, do Rei Salomão.”
Trata-se, evidentemente, de uma composição burlesca, em que o tom grandiloquente e a sonoridade épica com notas de arcaísmo se contrapõem com as brincadeiras mais desencontradas. Nessa composição os elementos de coesão estão presentes e são corretos. O que falta, de todo, é a lógica, a coerência.
Outro exemplo: lembro de ter estudado, ainda no curso colegial (nos velhos tempos em que ainda se estudava filosofia com Lógica formal), a figura do sorites, que é o raciocínio encadeado, em que se sucedem as afirmações, todas coesas entre si, mas devendo o conjunto fazer sentido, para o sorites ser verdadeiro e não sofístico.
Exemplo de sorites verdadeiro é o da raposa da fábula, que hesita em atravessar um lago cuja superfície estava endurecida pelo frio: “Este regato faz barulho; o que faz barulho move-se; o que se move não está gelado; o que não está gelado não é sólido; o que não é sólido não pode aguentar-me; logo, este regato não pode aguentar-me”. Temos, aí, um sorites perfeito, contendo uma sequência de silogismos implícitos, em que há coesão das várias partes entre si, e há coerência no conjunto.
Vejamos agora um exemplo de falso sorites, em que há coesão, mas não há coerência:
“Os espanhóis têm imaginação ardente; quem tem imaginação ardente, exagera; quem exagera, falta com a verdade; quem falta com a verdade, mente; quem mente, peca; quem peca, vai para o Inferno; logo, os espanhóis vão para o Inferno”. Esse é um sorites sofístico, porque nele, pouco a pouco, os vocábulos e as ideias expressas vão, a cada frase, sendo tomados em sentidos mais amplos ou carregados, os conceitos vão sendo ampliados, de modo a sucessivamente mudarem totalmente de figura. E o resultado final é, obviamente, um non-sense. Nesse sorites, há coesão mas falta coerência.
Creio que, com esses exemplos, fica bem clara a distinção entre as duas coisas. É claro que, num texto, deve haver coesão, ou seja, os elementos conectivos, as conjunções, as expressões de ligação, as preposições etc., devem estar adequadamente colocadas. Mas deve haver também coerência, de modo a que o conjunto faça sentido, a que não haja contradições internas dentro desse conjunto, a que os termos sejam utilizados sempre com a mesma extensão de sentido.

Artigo publicado no jornal A TRIBUNA PIRACICABANA

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Intelectuais do novo século

Carlos Morais Júnior Cadeira n° 18 - Patrona: Madalena Salatti de Almeida
Os intelectuais devem estar mudando! A cultura deve estar mudando e se tornando algo mais imediatista e rápida, alguma coisa em pílulas, como mandam os ventos do novo século; afinal, quem dispõe de tempo para ouvir coisas intermináveis, sonambúlicas e detalhadas a respeito do que quer que seja? Até os políticos têm abreviado os seus discursos! Aqueles que ainda teimam em alongamentos desnecessários, intermináveis e hipnotizantes, estão condenados a falarem para as cadeiras, ou para uma plateia sonolenta, que não para quieta, pois se levanta amiúde para esticar as pernas, fumar um cigarro e se distanciar daquela coisa maçante. Resumindo: conversa, palestra, piada, discurso, aula, seminário, solenidade, leitura de currículo, apresentação de motivos, toda essa fauna deve ser abreviada ao máximo! E não se deve esquecer o imprescindível coquetel, já que, sem ele, vai ser muito difícil ter público.
Os novos sábios já não se apresentam como velhos empertigados, de óculos grossíssimos, porte principesco, vestindo ternos de seda a tecerem considerações a respeito de tudo o que existe no mundo, em conferências ou palestras intermináveis, sem o pejo de serem interrompidos ou contestados, como se fossem os donos da verdade e os deuses das elucubrações luminosas! É impossível saber tudo a respeito de tudo, quiçá saber um pouco a respeito de tudo! Quedamo-nos, embasbacados, frente à realidade que se nos apresenta: a intelectualidade deste século, que pode ser contada nos dedos, representa apenas 3% da população brasileira! Sim, apenas alguns loucos de meia-idade, mal-vestidos para os padrões de elegância, de cabelos emaranhados, barba por fazer, com óculos escuros e porte malhado, versados infinitamente em informática, que se metem a tergiversar a respeito de pinceladas disto e daquilo. Mas não conhecem tudo sobre tudo, pelo contrário, são eternos estudiosos sobre o vastíssimo e interminável mundo do saber. A verdade é essa e ponto final. Daqui para a frente o sábio será representado por um grupo de pessoas, cada uma especialista numa área, e todos eles alavancados por um banco de dados infinito e um supercomputador.
Parece um dado pessimista, mas nos últimos três séculos subimos bastante o nosso ranking. De 0,8% no século dezoito para os ditos 3%, o que representa um número próximo das 180 milhões de pessoas! Mas, será que vale a pena estar entre estes verdadeiros escolhidos? Será que vale a pena gastar a vida na leitura, cultuando valores altíssimos, e deixar o profano, o prosaico e as banalidades para trás? Onde quer que se vá o fio das conversas é sempre o jocoso, a fofoca e a maledicência. De que adianta, por exemplo, saber que o nome científico do abacate é Persea americana, que o nome científico do leão é Panthera leo, de que adianta saber o nome de todos os elementos químicos de cor ou ter milhares de informações a respeito de Geografia, História, Economia, Biologia, Medicina, Ecologia e os cambaus, se a maioria das pessoas com quem temos contato nem consegue entender as palavras mais simples que dizemos!?
Isso me faz lembrar o curto espaço de tempo em que fui responsável por um jornal semanal de uma cidade pequena. Escrevia meus editoriais sem me preocupar com o purismo da língua, usando termos bem conhecidos, justamente por estar escrevendo para um público leigo. Mesmo assim, fui advertido pela direção do semanário de que deveria escrever mais fácil, pois os meus artigos causavam muita polêmica porque todo mundo era obrigado a recorrer ao dicionário para saber o significado de palavras complicadas como: discorrer, melancólico, celeuma, perspicaz e muitas outras. Não pensei duas vezes e pedi demissão do jornal!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Prefiro olhar os ipês

Maria Helena Vieira Aguiar Corazza
Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Sem exagero, mas é verdade! Abrir os noticiários e a cada dia ouvir, saber ou enxergar mais desgraças e desumanidades? Para quê? Para me entristecer a cada instante e fazer da vida um mar de tensões, descrenças e desesperanças? Não! Para mim, não está dando mais! Quero me ater a mais amanheceres de dias enquanto tiver tempo, quero sentir o perfume e o novo das manhãs, e colher quantos pores de sol estiverem ao meu dispor e ao meu alcance ainda... Quero agarrar tudo isso, e não desperdiçar um segundo sequer da esperança, minúscula que seja, mas que ainda trago dentro do meu coração e do meu ser, e de cada hora que me atinge gritando as paisagens que não desprezo por nada deste mundo, nem a diversidade de flores e de plantas que me encantam em cada desabrochar... Prefiro olhar os ipês que me comovem, promovendo em mim uma ternura estonteante que, se pudesse, me faria ajoelhar sempre, num agradecimento fantástico e enternecedor ao Criador, por tanta maravilha recebida!
Para mim chega de tanto sangue e de crimes hediondos, inexplicáveis e indescritíveis em se tratando de seres humanos atacando, maltratando, roubando ou destruindo, e desiludindo a vida, mesmo porque é o homem quem mata e maltrata! O animal irracional apenas cumpre sua missão natural de sobrevivência. É a sua natureza! No entanto, o comportamento animalesco do homem se torna dia a dia tão desordenado, chegando ao ponto de tirar a alegria da vida de muitos! Por isso resolvi olhar os ipês e, se fosse possível, não lembrar de tanta tristeza dos atingidos! Pelo menos, gostaria de “inventar truques” para me envolver e me conscientizar da impossibilidade de desprezar a beleza que, mesmo sendo tão agredida, ainda assim não se cansa de se revelar em tantos momentos inebriantes e inesquecíveis...
Quero, sim, mais do que nunca esquecer olhares tristes e desconsolados dos que choram a perda de seus entes queridos ou de seus amores, pela violenta insensatez indesculpável de desalmados, que colherão pelos seus desatinos e crueldades, e lembrar-me mais “dos olhos de Deus que enxugam as lágrimas humanas”... Quero olhar os ipês, repito, sobretudo nesta estação que é deles, e, quando sua explosão majestosa de cores, formatos e tamanhos, ainda nos conta histórias de emoção e dignidade, apesar deste mar de horrores em que o mundo se afunda incessantemente!
Culpados, culpa e revolta, desalinhamento social ou comportamental de cabeças doentes ou mal formadas, não é mais questão de avaliações ou desculpas. Onde encontrar tanta compreensão ou perdão para dar? Importa agora o mal além das forças e dos limites que este desequilíbrio desumano anda proporcionando, não só nos prejuízos materiais das vítimas, mas, no medo e no terror que machucam muito, e, pior de tudo, na destruição de sonhos, mutilando física e mentalmente, e, afinal ceifando tantas vidas!
Não quero, nem acredito mais em explicações de “quem de direito” que nada resolvme, nem consertam coisa alguma, nos tempos em que se acumulam sofrimentos, e não ouvem os gritos de socorro que se perdem por não serem jamais atendidos.
Prefiro olhar os ipês!...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Silêncios que curam

 Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara

Noite límpida
de lua esplendorosa
acalenta minha mente
sedenta de contemplações

Lá fora, o ruído contemporâneo
ensurdece o homem urbano
que negou a sua própria alma
a possibilidade de sonhar...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

PAIXÃO POR CARROS

 Gustavo Jacques Dias Alvim Cadeira n° 29 - Patrona: Laudelina Cotrim de Castro
Sempre fui apaixonado por carros. Quando criança gostava de brincar com automóveis, caminhões, peruas, tudo feito de madeira ou caixas de papelão. Montava também meus veículos de “fazer de conta” com cadeiras, bancos, caixotes e quejandos de maneira que, com meu irmão e amigos, pudéssemos imitar a vida real. Com cabos de vassoura e tampa da famosa cera “Parquetina” fazíamos o volante e o câmbio. Com outras improvisações tínhamos a embreagem, o freio, o acelerador, o local da chave, o botão de partida (alguém ainda lembra-se disso também chamado de ignição?), o afogador (e disso?), os faróis, a buzina, enfim tudo que fosse possível construir para simular um veículo automotor. E neles a gente passava horas se divertindo.
Em 1938, meu pai comprou um carro, o que não era comum. Poucas famílias podiam se dar a esse luxo. Durante minha infância e início da adolescência, ele teve esse automóvel, um Ford 1934, preto, duas portas, muito conservado, que ficou sobre cavaletes, guardado numa garagem por causa do racionamento da gasolina, provocado pela II Grande Guerra Mundial. Alguns proprietários de veículos automotores instalaram gasogênios (cujo combustível era o carvão vegetal e bastante perigoso por causa do fogo e do oxigênio) para poderem continuar rodando. Era uma solução trabalhosa, suja, cuja tecnologia meu pai recusou utilizar, preferindo comprar um cavalo para fazer suas visitas domiciliares no exercício da medicina, sua profissão. Durante meses, o carro ficou guardado, sem ser usado, numa garagem, no fundo do quintal; era um local que eu frequentava quase todo santo dia. Gostava de admirar o carro, sentar no banco do motorista e fingir que o estava dirigindo. Sonhava acordado.
Quando o conflito mundial terminou e meu pai recolocou o automóvel para rodar, eu me deliciava quando podia sair com ele para fazer curtos trajetos, uma vez que a cidade, onde vivíamos, era muito pequena. Ficava fascinado vendo-o dirigir. Não perdia nada e perguntava tudo. Para que serve esse pedal? E essa alavanca? E olhando para o velocímetro indagava: esse “relógio” pra que serve? Prestava muita atenção nos movimentos do motorista, para depois imitá-lo quando estava nos meus brinquedos.
Não via o dia e a hora de poder dirigir um carro de verdade. A oportunidade chegou quando eu tinha uns 15 anos. O carro do meu pai já era outro, mas também Ford e mais novo. Sua cor era o cinza e o ano de fabricação, 1948. Um automóvel mais bonito com suas linhas curvas, bem maior (acomodava seis pessoas), com muitas novidades, dentre elas o câmbio junto ao volante (quatro marchas manuais: 1ª, 2ª, 3ª e ré), buzina mais sonora, quatro portas, porta-malas e tantas outras novidades. A chance de guiar o “possante” chegou quando, saindo, num domingo à tarde, com meu tio Jamil, muito querido, ele me perguntou:
— Você sabe dirigir?
E eu, na ânsia de fazê-lo, respondi, sem hesitar:
— Nunca dirigi, mas eu acho que sou capaz de guiá-lo.
E completei: — de tanto brincar de motorista, de tanto observar o meu pai, eu aprendi.
Meu tio foi muito pronto e corajoso:
— Então sente aqui e saia com o carro.
Não pensei duas vezes. Não podia perder a oportunidade, mesmo estando um pouco temeroso. Tomei o lugar dele, que deixara o motor funcionando e o câmbio em ponto morto, apertei a embreagem, engatei a primeira marcha, soltei o freio de mão e, cautelosamente, na rua plana, fui fazendo o que vira meu pai fazer tantas vezes: aliviar a embreagem e acelerar suavemente. Quando a máquina possante começou a se mover, senti-me vitorioso, ri nervosamente e fui em frente com os incentivos de meu tio.
E ele me dizia:
— Você estava querendo me enganar quando disse que nunca havia dirigido um carro.
Ele não acreditava em mim; mal sabia que eu também não estava totalmente seguro de que fosse capaz. Lembro-me de que estávamos próximos da ESALQ e ele me propôs que levasse o carro de volta à casa de meus avós, onde estavam meus pais, precisamente, na rua do Vergueiro, entre a Prudente e a São José, fazendo, contudo, um trajeto que não cortasse o centro, para evitar o movimento, que, na realidade, era mínimo, ou, então, o encontro com algum fiscal de trânsito da Prefeitura, pois era esta e não a Polícia que cuidava dessa área.
O fato é que cheguei vitorioso. Meu tio adiantou-se para contar ao meu pai que “o menino sabia dirigir e que tinha trazido o carro da ESALQ até ali”. Ele não acreditou; pensou que meu tio estivesse brincando, porém, com a insistência deste, me quis ver dando uma volta no quarteirão. E lá fui eu fazer a demonstração. Felizmente, tudo deu certo. Daí, para frente, sempre que surgia uma oportunidade, meu pai me deixava dirigir um pouquinho ou então fazer algumas manobras . Depois dos dezesseis eu saía, sem habilitação, sozinho ou com minha mãe ou meu avô, que não dirigiam, mas solicitavam os meus préstimos, como motorista, para levá-los, quando queriam comprar verduras no Mercado ou farinha de milho numa fábrica perto da Ponte do Mirante. Para dizer a verdade, até viagens a Rio Claro, Limeira e outras localidades próximas eu fiz, para levar meus pais à estação da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, pois costumavam pegar o trem para viajar à Alta Paulista, onde tinham um sítio com plantação de café.
Houve um fato muito interessante. Às vésperas de completar meus dezoito anos, tanto minha mãe como meu avô me chamaram, separadamente, para dizerem, em sigilo, que me dariam de presente a importância para pagar a minha carteira de motorista. Meu avô raramente presenteava os netos por ocasião do aniversário, fazia-o, sim, quando a gente menos esperava. Eu queria ganhar presente dos dois. Então, combinei com minha mãe o seguinte: aceitaria o presente dele, enquanto ela, me daria uma outra coisa. Assim, garanti os dois.
Não é preciso dizer que dei entrada nos papéis para tirar a carta de motorista na Seção de Trânsito da Delegacia de Polícia, no dia seguinte, daquele em que completei meus 18 anos, uma vez que não havia obrigatoriedade de se fazer o curso, aliás, nem auto-escola havia. Menos de 20 dias depois, eu já era motorista habilitado e documentado.
A partir daí o sonho já era outro: comprar o meu próprio carro. Mas essa é outra história, que vou deixar para outro dia!

Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz