Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
João Umberto Nassif

Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
Ivana Maria França de Negri
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Myria Machado Botelho


Seguidores

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"PIRACICABA EM TRAÇOS E CORES" - lançamento IPPLAP/DPH

Departamento de Patrimônio Histórico - Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba

O livro é um projeto do IPPLAP e será distribuídos às escolas, instituições e bibliotecas

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, transformada em arte fica muito mais eloquente. Piracicaba é conhecida e reconhecida por suas paisagens culturais, principalmente aquela paisagem ao redor do Rio Piracicaba, retratada desde o século XIX por muitos artistas. Piracicaba em Traços e Cores procura recordar cenas, paisagens e lugares da cidade na forma de arte. Com vários traços e muitas nuances de cores, vamos conhecer e reconhecer Piracicaba, que já foi cantada em verso e prosa. O Instituto de Pesquisas e Planejamento de Piracicaba – Ipplap lança amanhã, 28, às 19h30, no Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes, o livro “Piracicaba em traços e cores” editado pela autarquia. Na oportunidade também será aberta a exposição de ilustrações de Andrei Bressan e Renata Andia Amalfi.
Antonieta Mendes, diretora do Museu Prudente de Moraes com as escritoras Ivana Negri e Carmen Pilotto que prestigiaram o lançamento do livro "PIRACICABA EM TRAÇOS E CORES"( ilustrado pelos artistas Andrei Bressan, Renata Amalfi e Salvatore Aiala) representando a Academia Piracicabana de Letras e os grupos Literários GOLP e CLIP.


Componentes da mesa apresentando o livro, Marcelo Cachioni, do Departamento de Patrimônio Histórico, To Mendes, diretora do Museu e a artista Renata Andia Amalfi.
O livro, que teve coordenação editorial do Departamento de Patrimônio Histórico - DPH do Ipplap,  foi  pensado para transformar em arte algumas imagens emblemáticas da cidade, incluindo aí lugares e prédios, muitos deles que já desapareceram da paisagem, mas que estão presentes na memória de muitas pessoas, como o Hotel Central, o Teatro Santo Estevão ou mesmo o rio Piracicaba.   “A ideia foi transformar estas imagens, que já são comuns e reconhecidas, em arte”, explica Rafael Ciriaco de Camargo, Diretor-Presidente do Ipplap. “Tivemos a intenção, para quem conheceu, de trazer uma nova memória destes lugares e, em outros casos, recuperar uma memória da cidade, da paisagem cultural de Piracicaba, principalmente para as pessoas que não conheceram estes cenários como eles eram”, complementa Marcelo Cachioni, diretor do DPH.
Para elaborar o livro, houve uma seleção de série de fotos de lugares e prédios expressivos da cidade, que foram repassados aos artistas, que utilizaram técnicas variadas (água forte, aguada de nanquim, lápis, óleo sobre tela e ilustrações digitais) para produzir as ilustrações com base em fotos antigas da cidade de várias épocas. Também são utilizadas imagens de postais colorizados. Além das ilustrações, há um texto explicativo sobre estes lugares e também frases que foram ditas e publicadas em diversas épocas e que contam alguma história sobre os prédios e os lugares.
O livro será encaminhado, após o lançamento, para escolas e colégios da cidade e, segundo Cachioni, poderá ser utilizado como livro didático. “Pretendemos que ele ensine sobre estes locais para as crianças.”
A exposição, que também será aberta amanhã, é composta pelos 26 quadros que foram desenvolvidos para o livro. Ela ficará montada até dia 30 de setembro, das 9h às 17h.
O evento de lançamento do livro e abertura da exposição é aberto ao público. O Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes está localizado na Rua Santo Antônio, 641.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Poema pobre

 Marisa F. Bueloni
Cadeira no 32 - Patrono: Thales Castanho de Andrade





Minha pobre poesia
é sem não-me-toques:
diz o que sente
sem retoques


Pois eu digo sem rodeios
poesia é coisa de muitos meios


A minha é pé no chão
taipa de fogão à lenha
leite tirado da vaca
sonho que se ordenha


É cheiro de grama orvalhada
som de trovoada
pulo do sapo na relva
vida renovada


Roupa de algodão
chinelinho rasteiro
dor no coração
pombos no viveiro


Pois saibam os senhores
versos sentem dores
e estou aqui
na voragem da vida
rimando sofrida


Minha poesia paulista
tem som de viola caipira
repica numa ciranda
roda de dança catira


Minha poesia é pobreza
é sandália franciscana
tem cheiro de café
arroubo de fé
e gosto de cana


Meu poema pobrezinho
não tem um vintém
não conhece ninguém
é sozinho


Vive de migalhas
de palavras contidas
veste-se de tralhas
das horas batidas


Meu pobre poema
não possui esquema
nem estratagema
nem do ovo a gema


Canta pequenino
as tristes cantigas
varre o chão de pedras
deita-se em urtigas


Meu poema pobre
sem linhagem nobre
não faz feio:
vai levando a vida
como ao mundo veio


Se me envergonho?
Nada! Até componho
qualquer um versinho:
vou pelo caminho
brada o meu poema
geme o meu pinho


Meu poema chora
pela vida afora


Mas percorre altivo
as frases solares
e rima festivo
solto pelos ares...




Convite - lançamento de livro e exposição


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Nossos votos de rápida recuperação ao confrade Jamil Nassif Abib

Monsenhor Jamil Nassif Abib integra a Cadeira no1 da APL- tendo como patrono João Chiarini, fundador da Academia Piracicaba de Letras
Monsenhor Jamil Nassif Abib durante a posse da presidente da Academia Piracicabana de Letras Maria Helena Corazza e lançamento do livro da professora Marly Mutschele


Os acadêmicos da Academia Piracicabana de Letras desejam ao confrade Jamil Abib rápida recuperação após atentado que o feriu durante o sermão numa missa da Catedral.

Notícia do G1

O RIO E O MAR ( Em homenagem a mais um aniversário de Piracicaba)

Leda Coletti- Cadeira no 36
Cadeira n° 36 - Patrona: Olívia Bianco

         As ondas do mar irradiavam reflexos dourados da lua cheia. Tal clarão dava incentivo às águas do rio para o batismo no mar.
Em épocas passadas, esse momento era tenebroso para o rio; significava a ausência de aconchego das plantas nos barrancos dos riachos, o desapontamento de não usufruir com crianças, jovens e adultos as paradisíacas praias fluviais. Sua vontade era permanecer por mais tempo nesses locais, porém, isso nunca foi possível, desde que as águas do rio não podem parar e não retrocedem jamais.
Contudo, nos dias de hoje, ele não mais acalenta esses desejos; ao contrário, quer sua trajetória rápida, pois a paisagem ficou triste, desoladora. As matas ciliares foram devastadas, o leito onde se deleitava com os peixes moleques, fazendo-lhe cócegas tornou-se viscoso, escuro e infunde medo e repugnância.
Está chegada a hora de ser arrebatado dessa paisagem lúgubre. Suas águas, agora aumentadas pela junção de outros rios, estão sendo arrebatadas pelo mar. A expectativa é de alegria, misto medo.
Mas, eis que de repente, uma sensação de bem-estar o invade, ao ser recebido pelo mar com mensagens de boas-vindas. É com muita emoção que o mar saúda o Rio da Prata, formado por muitos irmãos, destacando-se de modo especial o Paraná, Tietê e um de nome indígena, Piracicaba. De imediato, o mar se simpatizou com o nome deste último, e quis conhecer um pouco de sua história. Soube, que em algumas dezenas de anos passados, quando ocorriam constantes piracemas, peixes variados de pequeno, médio  e  até grande porte, tentavam subir as suas quedas d’água.
Porém, o que mais o impressionou, foi saber que no Rio Piracicaba, tanto no passado, como nos tempos atuais, sempre aparece sobre suas águas, uma jovem noiva com um véu de brumas esvoaçantes, conhecida e querida por todos que habitam a cidade. É a Noiva da Colina, que com seu alvo véu, apenas roça levemente as águas, nunca se entregando totalmente a elas. Por essa razão, muitos a chamam eterna noiva, pois ainda não desposou em definitivo o seu parceiro, o Rio Piracicaba.
 Ouvindo com atenção o relato, o mar silenciou por instantes, solidarizando-se a esse caso de amor.
Já escureceu. No céu pincelado de estrelas, a lua cheia espia e sorri para o mar, emitindo raios de luz tão intensos, que a noite parece dia! 

sábado, 18 de agosto de 2012

NÊMESIS - Tony Corazza



Tony Corazza

Vejo a presença das musas ao meu redor,
Minha mão se move sozinha.
Uma psicografia de poemas em mi-menor.
Uma linda mulher nua se aproxima,
Me abraça.
Nêmesis é o seu nome.
Ela transa comigo.
E como facadas vindas de Delfos,
Através de futuros avermelhados de vingança,
Enche-me de prazer.
E para cada mulher que um dia me odiou,
Penetro-a de novo e deixo de tremer.
Tem um gosto doce, um prato frio que me satisfaz.
Ela é a ilusão no horizonte de Jean Charles,
A própria Jangada de Medusa,
Um vazio que me completa.
E em troca da minha eternidade,
Sussurrando em meus ouvidos ela diz:
-Vamos botar fogo no mundo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Caminhando e meditando

Cássio Camilo Almeida de Negri
Cadeira n° 20 - Patrono: Benedicto Evangelista da Costa
 Cai a tarde.
São mais ou menos dezoito horas, a hora da Ave-Maria.
Estou caminhando, como quase sempre faço, para exercitar o corpo físico, e lendo, ao mesmo tempo, para exercitar o intelecto.
Agora, sento-me no teatro de arena no Parque da Rua do Porto, bem embaixo de uma amoreira carregada de frutos, e que me cede algumas de suas delícias vermelhas, quase pretas.
À  minha direita, chega um passarinho para também comer amoras e me ensina uma grande lição. Esse ser alado come as amoras bem verdes e olha para mim como a me dizer:
–“  Você come as frutas vermelhas e eu as verdes. Qual a mais gostosa?”
Apanho uma fruta verde e ele voa para não sei onde, me deixando sem resposta.
Durante a caminhada, eu vinha lendo um artigo – não importa de que religião ou de qual filosofia –  que dizia ser aquela a verdadeira sabedoria, a verdade eterna, a verdadeira amora vermelha.
Mas, o passarinho gosta da verde...
Qual a melhor? A amoreira tem frutas verdes, vermelhas, e também, olhem no chão, tem as amoras pretas, bem podres, cheias de vermes que se deliciam com elas.
Qual a melhor? A vermelha, a verde, ou a preta?
Obrigado vermes, vocês também resolveram reforçar minha lição.
Todas as amoras vêm da mesma amoreira e nenhuma é melhor do que a outra.
Para mim, a melhor é a vermelha. Para o passarinho , a melhor é a verde. Para o verme, a melhor é a podre.
Assim são as religiões, as filosofias. Todas são ótimas para a pessoa certa, no momento certo, no lugar certo. A melhor é aquela que estou seguindo neste instante, pois não existe nenhuma superior a outra. Cristianismo, Budismo, Islamismo, Induísmo, Espiritismo e outros ismos e sofias, todas são boas para a pessoa certa, no momento certo, no local certo.
Devemos ter muito cuidado de não cairmos nessa arrogância sutil que é a arrogância espiritual de achar que só nós estamos com a verdade.
Seja a amora vermelha, verde ou podre, cada uma cumpre sua função. Basta abrir os olhos da intuição e “ ver” a lição, tão clara a sua frente.
Obrigado, amoreira. Obrigado, passarinho. Obrigado, verme. Vocês me ensinaram uma grande lição pela intuição, mais do que o livro que eu lia, pelo intelecto.
Ensinaram-me que tudo é benéfico no momento certo, no tempo certo, no lugar certo.
“ Quem tem olhos para ver, que veja!”

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

LIVRO COM PEZINHOS

Artigo da presidente da Academia Piracicabana de Letras no Jornal de Piracicaba (15/08/2012) a respeito do Projeto LIVRO COM PEZINHOS das escritoras acadêmicas Ivana Negri e Carmen Pilotto.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Arquipélago da Madeira: história, cultura e tradições

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado

(O presente texto, que é aqui publicado como especial homenagem ao Acadêmico Geraldo Victorino de França, cuja família é de origem madeirense, foi escrito a partir do texto reconstituído de uma conferência proferida pelo autor no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em sessão especial de “Homenagem aos Madeirenses que ajudaram a fazer a grandeza de São Paulo”, realizada no dia 5/6/2004.)
 O Arquipélago da Madeira teve – e de certa forma ainda tem – uma enorme importância na história do Brasil e na história de São Paulo. A participação dos madeirenses em nossa história é fundamental. Disse Gilberto Freyre que a Madeira é a irmã mais velha do Brasil. Isso é verdade. O arquipélago da Madeira foi descoberto (oficialmente, pelo menos) 80 anos antes de Cabral (também oficialmente...) descobrir o Brasil. Mas – segundo o mesmo Gilberto Freyre – a Madeira nunca tratou o Brasil como uma irmã trata seu irmão. Na realidade ela nos tratou com o carinho, com os desvelos, com os sacrifícios com que uma verdadeira mãe trata seus filhos.
Se nós percorrermos o longo e glorioso itinerário histórico da Madeira, veremos que sua história foi um longo e desinteressado sacrificar-se pelo irmão maior – como também, em medida menor, pelas outras parcelas do Império luso, que são outros tantos irmãos da Madeira. O Brasil, na verdade, foi o grande beneficiário da abnegação madeirense.
Curiosamente, e injustamente, ressalte-se, essa influência enorme da Madeira na história do Brasil é esquecida, é menosprezada entre nós. E mesmo na Madeira pouca gente tem noção da amplitude desse sacrifício multissecular. Fala-se muito, entre nós, da influência açoriana, especialmente no Nordeste, em São Paulo, e sobretudo na colonização de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Realmente, foi muito grande a influência açoriana, e nunca a louvaremos suficientemente. Mas da influência madeirense quase ninguém fala...
O Arquipélago da Madeira é composto, como é sabido de todos, pela Ilha da Madeira (a maior e mais importante); pela Ilha de Porto Santo; e pelas desabitadas Ilhas Desertas e Ilhas Selvagens.
A Ilha da Madeira, que mais diretamente nos interessa nesta exposição, foi descoberta em 1420 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, escudeiros do Infante D. Henrique, o Navegador. Já no ano anterior os dois, em companhia de Bartolomeu Perestrelo, haviam chegado à Ilha de Porto Santo. Mas só no ano seguinte chegariam à Madeira. Bartolomeu Perestrelo foi nomeado capitão donatário de Porto Santo. Quanto à Madeira, ela foi dividida, mais ou menos no seu sentido longitudinal, pelos dois descobridores. Zarco ficou com a parte sul, que viria a ter como capital Funchal, e Tristão Vaz ficou com a parte norte, sediando-se em Machico.
Do ponto de vista topográfico, as duas ilhas não poderiam ser mais diferentes. Enquanto Porto Santo é seca e pouco fértil – diz-se que constitui como que um prolongamento do Saara – a Madeira é montanhosa e de solos quimicamente muito férteis, se bem que topograficamente só com grande dificuldade aproveitáveis para a agricultura.
Para se ter uma ideia dessa dificuldade, note-se que a Ilha da Madeira é cerca de 600 vezes menor que o Estado de São Paulo. Toda a ilha caberia perfeitamente dentro da área do município de São Paulo. E, no entanto, é cortada no sentido longitudinal por uma cordilheira elevadíssima, com diversos picos de mais de 1500m de altitude, e um deles, o Pico Ruivo, chega a 1861m.
O resultado é que dessa ilha, já de si pequena, apenas 20% do solo pode ser aproveitado, e mesmo assim somente à custa de esforços inimagináveis para os homens de hoje em dia. Mas foram esforços à altura dos nossos maiores madeirenses.
Quando os portugueses chegaram à Ilha, ela era revestida de densas florestas. Numa primeira fase, foi preciso desbastá-las, para se poder cultivar a terra. Velha tradição, certamente muito exagerada, diz que toda a ilha foi incendiada por ordem de João Gonçalves Zarco, num incêndio que teria durado 7 anos. Que houve incêndios, é fato. Que houve imprudência nesses incêndios, é bem possível que tenha havido. Mas dizer que toda a floresta da ilha foi incendiada, isso é certamente exagero, porque é fato que a madeira da Ilha da Madeira foi explorada durante muito tempo pelos portugueses.
Tanta lenha de qualidade, em toras grossas e compridas, foi levada para Portugal (geralmente como lastro de embarcações) que muitas casas de um ou dois andares, reforçadas com toras trazidas da Ilha, puderam receber mais um ou dois pisos. E isso chegou a modificar o aspecto arquitetônico da cidade de Lisboa, como nota Azurara, que fala das "grandes alturas das casas que se vão ao céu, que se fizeram e fazem com a madeira daquela ilha" (citado por Enzo da Silveira).
Também a madeira de lei produzida pela Ilha permitiu ao Infante D. Henrique a construção de embarcações maiores, que desbravaram os mares de todo o mundo. Zarco e Tristão chegaram à Madeira em duas barcas de apenas 9 metros de comprimento, com uma única vela redonda, que não permitia a navegação contra o vento. Em parte graças à madeira da Ilha puderam ser construídas embarcações maiores, as famosas caravelas, com um sistema de velas que lhes permitia navegar contra o vento.
Era – notem os leitores – a Madeira que iniciava o cumprimento de sua vocação histórica: despojar-se de suas riquezas e empobrecer em benefício de outras parcelas do império luso. É a vocação da irmã mais velha que se sacrifica como se fosse a mãe...
Mas, prossigamos. Desbastada a floresta, era preciso aproveitar a pouca terra disponível, para alimentar os dois donatários, suas famílias e os numerosos colonos que eles levaram, a suas custas, para povoar a nova terra. Aí apareceu um problema terrível. Na Madeira, chovia muito, chovia até torrencialmente. Mas a água caía e não era retida pelo solo, escorrendo rapidamente para o mar e arrastando consigo a camada superior da terra, num processo de erosão que poderia ser fatal.
O que fizeram os portugueses para vencer esse problema? Planejaram cuidadosamente, e executaram laboriosamente um sistema de irrigação artificial que até hoje desperta admiração nos engenheiros que o examinam: o sistema das "levadas".
As levadas são regatos artificiais feitos para distribuir a água por toda a superfície agricultável da ilha. No alto das montanhas, a 600, 800 e até 1000 metros de altitude, foram feitos grandes reservatórios apropriados para reter a água das chuvas. E essa água era, depois, distribuída por riozinhos artificiais, condutos abertos que desciam as montanhas com uma inclinação muito suave, de modo a descer vagarosamente. As levadas têm, geralmente, menos de um metro de largura, e 50 ou 60 cm de profundidade. São talhadas no flanco das montanhas, muitas vezes em pedra viva e beirando precipícios de centenas de metros. Elas vão dando voltas às montanhas, sempre com inclinação muito suave, e por vezes se estendem por mais de 50 km. Frequentemente a topografia exigia que as levadas atravessassem túneis (alguns com mais de um quilômetro de extensão) para poderem prosseguir seu rumo. Eram os chamados "furados".
Imagine-se a extrema dificuldade que isso representou, para os recursos rudimentares da época!  A maior parte das levadas, com efeito, foi realizada ainda nos séculos XV e XVI, pela iniciativa privada dos donatários e outros sesmeiros, que depois vendiam a água aos que dela faziam uso. Só no início do século XIX o Estado português principiou a fazer levadas, que até então eram obra de particulares. As levadas madeirenses foram tão bem planejadas e tão bem executadas que ainda hoje, mais de 500 anos decorridos, estão funcionando e servindo perfeitamente.
Ter assim domado as águas na Madeira foi uma obra hercúlea, uma obra ciclópica, que bem mereceria ser mais conhecida e louvada a nível mundial.
Não foi só essa a obra dos madeirenses no campo da engenharia. Outra tarefa, talvez não menor, foi domar as montanhas. De fato, as montanhas da Madeira eram tão íngremes que não se prestavam à agricultura. Mas, à custa de esforços inenarráveis, os madeirenses foram esculpindo suas montanhas de forma a constituir patamares, ou socalcos, perfeitamente planos, sustentados por sólidos contrafortes de pedra. O resultado dessa obra titânica foi que a Madeira pôde aproveitar suas terras (que pela composição química eram muito férteis, de origem vulcânica), e começar a produzir alimentos de climas diversos, conforme a diferente altitude dos terrenos: desde coqueiros, ananases e bananas, de clima tropical, até uvas e trigo, que requerem climas mais temperados. Também esses contrafortes e esses socalcos ainda servem hoje em dia, tendo resistido a mais de 500 anos de chuvas torrenciais...
Mais uma vez, permitam os leitores que eu pergunte: por que, em nível mundial, não é mais conhecida e louvada essa obra-prima do engenho humano, da persistência humana?
No início do século XVI, o grande Afonso de Albuquerque concebeu e chegou a dar os primeiros passos para realizar um imenso projeto que poderia ter dado um golpe de morte ao Islã: abrir um canal que comunicasse o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, de modo a facilitar, à Cristandade, o acesso ao Oriente sem precisar dar a imensa volta pela África. Ou seja, construir o que depois foi o Canal de Suez, em pleno século XVI! Albuquerque chegou também a realizar estudos para um projeto ainda mais audacioso: ele planejou desviar o curso do Nilo, de modo a secar o Egito e, assim, quebrar o ponto central da forte tenaz muçulmana. Pois bem, esses projetos, que pareceriam impossíveis, não eram impossíveis. Em primeiro lugar, porque para homens como Albuquerque nada é impossível. Em segundo lugar, porque existiam os madeirenses. E Albuquerque, em carta ao Rei D. Manuel, propôs que essas obras ciclópicas fossem confiadas aos madeirenses, porque estes já tinham dado provas, na sua pequena ilha, do que eram capazes.
Prossigamos. A Madeira começou a plantar açúcar e a enriquecer-se prodigiosamente, ainda em meados do século XV. Mas, por mais que atraísse forasteiros (e foram numerosos os portugueses do continente e, mesmo, estrangeiros que para lá acorreram nessa fase), a população ainda era muito reduzida.
Por volta de 1460, os habitantes da Madeira eram somente 2310. O Duque D. Fernando ─ sucessor do Infante D. Henrique na administração da Ordem de Cristo, que exercia jurisdição temporal e espiritual sobre a Madeira ─ instituiu então um imposto que deveria ser pago, em trigo, somente pelos homens solteiros, para incentivá-los a se casarem. O resultado dessa medida foi eficacíssimo. 50 anos depois, a Madeira já tinha 15 mil habitantes. O crescimento, em cinco décadas, foi da ordem de 650% – um dos maiores verificados na história. E, a partir daí, a população foi crescendo cada vez mais, pois os madeirenses habitualmente casam cedo e são muito prolíficos.
A Madeira conheceu, então, um curto período de grande riqueza e prosperidade, graças ao seu açúcar de excelente qualidade, que era vendido para a Europa inteira. Também os vinhos finos da Madeira passaram a ser consumidos na Europa, sendo muito valorizados.
Dois curiosos indícios da fama dos vinhos madeirenses: numa das peças de Shakespeare, um personagem, Sir John Falstaff, aparece vendendo sua alma ao demônio em troca de uma perna de frango e um cálice de vinho da Madeira. E quando o duque de Clarence, na Inglaterra, foi condenado à morte por se ter envolvido numa conspiração contra a coroa, teve o privilégio de escolher como seria executado. E, segundo se conta, ele teria pedido para morrer afogado num tonel de vinho Malvasia, da Ilha da Madeira... O pior é que o coitado foi realmente afogado, mas de cabeça para baixo, de modo que estragou o vinho e nem sequer pode saboreá-lo na hora da morte!
Em 1514, ainda nessa fase de grande prosperidade, foi criada a Diocese do Funchal, que foi, até 1533, a maior diocese do mundo, a maior diocese que já existiu em toda a História da Igreja Católica. O Bispo da Madeira tinha jurisdição, conferida pelo Papa, sobre todos os domínios ultramarinos portugueses. Até onde chegasse uma caravela portuguesa, lá chegava a autoridade desse Bispo: Brasil, África, Índia, Extremo Oriente. O Brasil inteiro fez parte da Diocese do Funchal até 1551, quando foi criada a Diocese da Bahia.
Ora, que fez a Madeira nesse período áureo? Guardou ciosa e egoisticamente para si suas imensas riquezas, para fruí-las como merecida recompensa pelos trabalhos colossais que já tinha realizado? Não. Mas portou-se como mãe de seus irmãos menores. Sacrificou-se por eles. Ofereceu a eles seus tesouros, sem se preocupar com a concorrência que eles mesmos lhe fariam num futuro muito próximo.
O açúcar, a maior riqueza da ilha, foi levado, por madeirenses, inicialmente para os Açores, cuja primeira ilha foi atingida pelos portugueses em 1432. Aliás, a Madeira contribuiu poderosamente para o povoamento e colonização dos Açores numa fase em que ela própria lutava contra a carência de população. Em 1473, Rui Gonçalves da Câmara, filho de João Gonçalves Zarco, adquiriu os direitos sobre a capitania de São Miguel dos Açores, e para lá foi com sua gente, dando assim início à Diáspora Madeirense.
Não foi só para os Açores que a Madeira exportou o açúcar e, com ele, a tecnologia da sua fabricação. Também para Cabo Verde, Canárias, São Tomé e, sobretudo, para o Brasil. No Brasil, as condições favoráveis permitiram que o açúcar fosse produzido em muito maior escala e a preço muito mais reduzido, o que determinou a quebra da economia madeirense. Já no final do século XVI o Brasil havia ultrapassado a Madeira na produção açucareira.
A Madeira, que havia se desgastado muito plantando quase exclusivamente cana-de-açúcar nas partes mais baixas, e uvas nos socalcos mais elevados, e que, por outro lado, ia tendo sua população cada vez mais numerosa, começou a sofrer as consequências disso.
Excetuando o período da Guerra de Pernambuco, quando caiu a produção brasileira e a madeirense teve uma relativa valorização, foi de decadência o século XVII. Em certas fases críticas, chegou a haver fome na Madeira. A base da alimentação popular era o inhame – o cará – alimento nutritivo mas de produção muito incerta, pois depende das chuvas e do clima. O resultado é que em períodos nos quais as condições climáticas eram desfavoráveis, houve fome, e fome terrível.
Os Açores produziam ótimo trigo, mas esse trigo era reservado para outras partes do Império luso que passavam por necessidades prementes. E na Madeira houve fome. O recurso dos madeirenses era apresarem navios carregados de mantimentos que por alguma razão entravam no Funchal. Era esse o recurso desesperado. Esses mantimentos eram pagos, não eram roubados, pois paradoxalmente não era dinheiro que faltava, era comida.
Em 1695, num momento de mais terrível aflição, os habitantes do Funchal, desesperados, resolveram recorrer a Nossa Senhora do Monte. A imagem da Virgem foi levada, do seu santuário para o centro da cidade, em procissão. A Virgem valeu aos madeirenses, e justamente nessa hora entraram no porto três navios, abarrotados de trigo e de farinha. Foi a partir daí que a devoção a Nossa Senhora do Monte, que já era tradicional na Madeira, teve grande incremento e se transformou na devoção marial por excelência, do madeirense.
Aonde chegaram os madeirenses, lá chegou a devoção a Nossa Senhora do Monte. Até no longínquo Havaí existe um santuário de Nossa Senhora do Monte, erigido por descendentes de madeirenses. E aqui na Casa da Ilha da Madeira de São Paulo, num altar, estão, lado a lado, duas imagens de Nossa Senhora, a do Monte e a de Fátima.
No século XVIII foi-se acentuando o regime de fomes periódicas. Um estudo de meados desse século revela que a alimentação que os madeirenses obtinham, ou da própria ilha, ou trazida de outros locais, era suficiente apenas para alimentar 20 mil pessoas. Ora, a população da ilha era, nessa altura, de 50 mil pessoas, do que deduz que, em média, o madeirense comia apenas 40% daquilo que precisava comer.
Sem dúvida, pode ser um pouco exagerado esse cálculo, pois as estatísticas desse tipo habitualmente ignoram outros meios ─ digamos, paralelos ou alternativos – de se obterem alimentos: hortas caseiras, pequenas criações etc. Ainda hoje, quem lê sem espírito crítico certos estudos da FAO ou certas publicações demagógicas acredita que, no Brasil atual, 30 ou 40 por cento dos habitantes são desnutridos!...
 Mas, exageros à parte, não deixa de ser uma triste realidade que houve fome na Madeira, e que, em consequência disso era elevada a taxa de mortalidade. Mas, graças à tradicional prolificidade dos madeirenses, a população continuava a crescer. E, portanto, a agravar o problema das fomes periódicas.
Foi então que a Coroa portuguesa resolveu realizar a transferência maciça de madeirenses (como também de açorianos) para o sul do Brasil. Foram os famosos "casais" que povoaram a ilha de Santa Catarina e a região do Porto dos Casais (atual Porto Alegre). Com isso, não somente se aliviava o problema populacional das ilhas, mas também se garantia a ocupação do sul do Brasil, disputado à Espanha. Era mais um serviço que a Madeira prestava ao império luso e ao Brasil.
Note-se um pormenor muito importante: essa transferência dos casais teve início em 1747, precisamente na fase de maior esplendor das Minas. Era pelas Minas Gerais que os imigrantes portugueses sentiam maior atração, pois lá é que o enriquecimento podia ser mais rápido. Mas foi para o sul, para o que era então a parte mais dura da tarefa que foram os madeirenses, como também os seus irmãos, os não menos heroicos açorianos.
Um outro aspecto que deve ser lembrado, ainda na linha da dedicação do Arquipélago da Madeira a seus "irmãos menores", e especialmente ao Brasil, é a participação intensíssima de madeirenses para a defesa do Império luso contra seus inimigos. Aqui no Brasil foi enorme a participação deles nas lutas contra franceses, no Rio e no Maranhão, e contra holandeses, na Bahia e em Pernambuco. Entre muitos outros, basta lembrar os nomes do João Fernandes Vieira, nascido na Madeira, e André Vidal de Negreiros, cuja mãe era natural de Porto Santo.
Houve vários madeirenses que, na fase pior da luta contra os holandeses, quando parecia definitivamente implantada a dominação holandesa em Pernambuco (a ponto de o Padre Antônio Vieira considerar fato consumado e irreversível a existência de um Brasil holandês), armaram homens, fretaram navios e vieram por conta própria fazer guerra aos invasores. No Maranhão, um madeirense encabeçou a luta contra os franceses e os expulsou definitivamente. Assumiu o governo da capitania por aclamação popular e entregou-a depois às autoridades mandadas pelo Rei. Com isso, ficou arruinado economicamente, mas cumpriu o que julgava ser o seu dever.
Ao longo dos séculos XIX e XX, ainda prosseguiu a Diáspora. Para o Brasil, e depois para a Austrália, para a África do Sul, para o Canadá, para os Estados Unidos, a Madeira foi exportando o que tinha de melhor, ou seja, precisamente seus filhos mais capazes, com mais espírito empreendedor e iniciativa.
E por toda parte se foi fixando o emigrante madeirense, levando consigo o drama e a tragédia que representa, para todo ser humano cônscio de suas origens e de suas tradições – e o madeirense é bem assim – o romper violentamente com o torrão natal, sem nunca esquecer dele e levando sempre na alma a nostalgia do lar paterno, da aldeia nativa.
Maria Lamas registra em “O Arquipélago da Madeira, maravilha atlântica” numerosos casos de emigrantes que viajavam à procura de melhores condições de vida, deixando na Madeira esposa e filhos, na esperança de mais tarde poder regressar ou, talvez, chamá-los. Frequentemente acontecia – sobretudo no passado, quando as comunicações eram mais difíceis – que a família nunca mais tinha notícias. Muitos, aliás, dos que partiam eram analfabetos e nem lhes ocorria escrever para suas esposas, também analfabetas. Havia casos de rapazes que casavam e partiam para o estrangeiro logo na semana seguinte ao casamento. A esposa esperava, paciente e fielmente, o retorno do marido, vestida de preto, como se fosse viúva, até que, 30, 40 ou 50 anos depois, se convencia de que era realmente viúva. A "viuvinha", jovem vestida de preto, acabou se tornando figura típica no folclore madeirense. São os dramas da emigração...
Curiosamente, os emigrantes madeirenses, onde quer que estejam, na hora de casar tendem a procurar moças madeirenses, ou de origem madeirense. Essa tendência é muito antiga. Os jornais da Madeira frequentemente publicam, ainda hoje, anúncios de madeirenses bem sucedidos na vida que, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, ou em qualquer outra parte, desejam casar e pedem, por anúncios, que se apresentem candidatas.
Foi muito grande a participação da Madeira no Brasil, e especificamente em São Paulo, na constituição populacional. Numerosas famílias brasileiras têm origem mais remota ou mais próxima, na Madeira. Pode-se com segurança afirmar que não há família tradicional paulista, mineira ou nordestina (para falar só nestas) que não tenha sangue madeirense nas veias.
Muito resumidamente, foi assim que se formou a alma madeirense. O caráter e a têmpera do madeirense se forjaram na luta, no enfrentamento dos obstáculos da natureza, das circunstâncias desfavoráveis da economia.
Essa a raiz das grandes qualidades do madeirense: coragem, gosto pela aventura, espírito empreendedor, amor ao trabalho, à família e ao torrão natal, lealdade, espírito independente e até desafiador, sem embargo de ser polido e delicado. Como todos os viajantes da Madeira assinalaram, o madeirense, mesmo quando rústico, é extremamente cuidadoso em tratar bem os outros.
Um viajante inglês de princípios do século XIX notou que os madeirenses tiravam o chapéu para qualquer senhora com quem cruzavam na rua, mesmo que não a conhecessem. E não tiravam o chapéu para as estrangeiras. Perguntou o porquê disso e ficou sabendo que os madeirenses gostariam de tirar os chapéus também para as estrangeiras, mas como haviam notado que os estrangeiros eram muito pouco educados e não tiravam o chapéu para as senhoras portuguesas a quem não haviam sido apresentados, os madeirenses haviam resolvido lhes pagar na mesma moeda.
Realmente, o espírito madeirense é delicado e facilmente tende para o lirismo. A poesia popular madeirense é rica e sugestiva.
Além de delicado, o madeirense é refinado. Até pessoas muito simples, por vezes analfabetas, possuem um senso artístico notável e um bom gosto que encanta os estrangeiros que visitam a Madeira. Basta lembrar a tradicional arte dos bordados e os encantadores jardins da Ilha, cobertos de flores maravilhosas.
Curiosamente, em meio a tanta luta e a tanta tragédia, o madeirense não é triste. Ele é alegre, gosta de cantar, de dançar. Seu folclore é riquíssimo. Essa é a alma madeirense. Essa a alma que desejo homenagear, por tudo quanto a Madeira, nossa irmã mais velha, fez pelo Brasil e fez por São Paulo.




sábado, 11 de agosto de 2012

Medalha de Mérito Prudente de Moraes - no IHGP

Toshio Icizuca
Patrono: Elias de Melo Ayres
Cadeira no 38

O acadêmico da APL Toshio Icizuca recebeu a Medalha de Mérito Pudente de Moraes que é concedida a pessoas que contribuem com a cidade. Além de Toshio, foram agraciados o educador, historiador e teólogo Noedi Monteiro e também o administrador de empresas Renato Leme Ferrari.
A solenidade, que também marcou os 45 anos da entidade e posse do novo presidente,  ocorreu em sessão magna nas dependências da  Biblioteca Municipal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Declaração de amor aos livros

 Gustavo Jacques Dias Alvim Cadeira n° 29 
 Patrona: Laudelina Cotrim de Castro

Desde minha tenra idade, o mundo das letras, palavras e frases fascina-me. Fui apresentado a esse empolgante universo pela minha mãe, inicialmente no lar, por meios lúdicos, folheando livros e revistas, fazendo desenhos, recortes e pinturas, e, depois, aos sete anos, por ela mesma, no Grupo Escolar “Castro Alves”, em Vera Cruz, pequena cidade paulista, onde nasci, e no qual tive a alegria de tê-la como professora do primeiro ano primário. Foi, portanto, a minha querida e saudosa genitora quem me alfabetizou, usando a “Cartilha Ativa”, cujo método era o sintético, responsável pela leitura rápida que adquiri.
A partir daí, apaixonei-me pela leitura. Estimulado pelos meus pais, também leitores contumazes, tornei-me grande amigo de livros, revistas e tudo o que fosse material impresso.  Ainda cursando o primário, pude ler os livros mais importantes para crianças então publicados. Devorei, dentre outras, as famosas obras de Monteiro Lobato, com as suas inesquecíveis personagens: Narizinho, Dona Benta, Visconde de Sabugosa, bem como “Os doze trabalhos de Hércules” correspondendo a uma dúzia de volumes, e vários outros livros de história, dos quais me lembro de: “Reinações de Narizinho”, “Caçadas de Pedrinho”, “O Pica-pau Amarelo”, “Jeca Tatu”, “A Ilha do Tesouro”, “Viagens de Gulliver”, dentre muitos outros. Além disso, minha família assinava revistas infantis, famosas e de grande circulação, que esperávamos mensalmente, vindas pelo correio, como o “Tico-tico” (com histórias do Zé Macaco e Faustina; Chiquinho; Reco-reco, Bolão e Azeitona), “Globo Juvenil”, “Gibi” e muitas outras de cunho moral, cívico, religioso ou de simples entretenimento. 
Lembro-me, também, que meu pai era assinante da “Folha da Manhã” (atualmente, “Folha de São Paulo”), jornal diário que chegava da capital paulista pelo trem do final da tarde, com notícias do dia anterior, que era lido avidamente por ele, e igualmente da” Voz de Vera Cruz”, este de circulação dominical, do qual meu progenitor era colaborador.  Eu gostava de dar uma olhada nos dois jornais e ler neles o que me parecia interessante. Foi esse contato prematuro e despretensioso com os periódicos que me propiciou o único vício: ler jornais diariamente.  Quando não posso fazê-lo parece-me que está faltando algo. Se não posso lê-los, guardo-os para dar uma repassada em outro momento, antes de me desfazer deles. Antigamente, quando a tinta dos jornais tinha um cheiro mais forte, eu dizia que era esse odor o que me atraía. Posso dizer que leio jornais desde meus dez anos de idade.
Outro fato interessante, que confirma o meu amor pela leitura e que me faz também voltar à pré-adolescência, foi a transformação da minha incipiente biblioteca, para torná-la um espaço público. Minha família havia se mudado para Piracicaba, onde, inicialmente, moramos numa casa antiga, espaçosa, com garage, grande quintal, pomar, horta, galinheiro, quartinho para despejo e pátio cimentado para jogar bola, andar de bicicleta etc. Havia também, construídos separadamente da casa, mais quatro cômodos, três dos quais usados para instalar o consultório médico do meu pai, destinando-se o que sobrava para ser o local dos brinquedos, onde jogávamos, principalmente, futebol de botão, com participação de vários amigos, meninos vizinhos de quarteirão. Nesse quarto, cujo pé-direito era bastante alto, numa estante com várias prateleiras espaçosas, que iam até o teto, a gente guardava os livros. Os meus amigos, que iam para minha casa disputar os campeonatos de futebol de botão, não resistiam ao desejo de folhear ou de ler aquelas publicações, atraentes, às quais muitos deles não tinham acesso por falta de condições econômico-financeiras. Não era incomum um ou outro pedir emprestado para levar para suas casas algum volume. Isso me deu a idéia de organizar uma biblioteca. Com a ajuda de meu irmão, encapamos todos os livros com papel pardo, numeramos os livros e revistas, colando nela algarismos recortados de outros impressos para identificá-los, fizemos o cadastro das obras, bem como dos consulentes. Para ter o direito de retirar o livro e levá-lo para casa, por prazo determinado, o interessado tinha de se associar à biblioteca e pagar uma pequena taxa mensal, que era integralmente revertida para a ampliação do acervo. A iniciativa foi um sucesso e, indubitavelmente, serviu para difundir o gosto pela leitura.
É sabido que a leitura é imprescindível e primordial na formação de um escritor. Para escrever bem é preciso ler muito; não ter preguiça de consultar dicionário, nem de reescrever muitas vezes o mesmo texto. Porque eu comecei a ler muito cedo, também iniciei meus textos poéticos aos onze anos de idade. Fiz poesia na infância e na adolescência e somente nesse período. Escrevi para jornaizinhos escolares e tive o meu primeiro trabalho impresso publicado no “Diário de Piracicaba”, aos 16 anos, por ter obtido uma menção honrosa num concurso de contos de Natal, promovido por esse jornal já extinto.
Nunca mais parei de escrever. Com 20 anos, morando e estudando em São Paulo, fui contratado como revisor de uma revista; dois anos depois eu era o seu diretor-redator. Por onde passei, escolas, empresas, igreja, eventos, clubes, eu semeei jornais. Fui fundador e sócio-proprietário de “A Província”, juntamente com Cecílio Elias Netto. Escrevi livros. Fiz a edição de muitos outros. Para onde eu vou, levo comigo algo para ler. Estimulo pessoas a lerem. Vibro quando vejo meu neto e minha neta lendo seus livros, juntando dinheiro para comprá-los ou indo ao dentista com um deles sob o braço.
Amo meus livros, adoro a minha modesta biblioteca! O mundo das letras é o meu mundo!

Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz