![]() |
Elda Nympha Cobra Silveira Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior |
O ar estava carregado de nuvens escuras e tudo parecia sem esperanças, sem ilusão, como se um abismo abrisse em frente de Nori, uma jovem oriental muito bonita, de gestos suaves, tez clara como lótus e uma boquinha vermelha parecida com um coraçãozinho, ou com um bico de pomba.
Sufocada, sem saída, por não ter uma vida própria, nem liberdade, almejava ser como qualquer outra moça daquela vila incrustada entre altas montanhas. Sentada à beira de um lago, onde as carpas vermelhas pareciam chamá-la para ficar com elas, sentia a cada momento com mais força um desejo que ia se transformando numa atração incontrolável. Era como se algo a chamasse de dentro daquela água translúcida e a incitasse a colocar um fim na sua vida. Sempre se sentia assim quando rememorava o dia em que se tornou uma entidade celestial. Mas o que mais a importunava e a fazia sofrer, era lembrar como seu ego se inflou de satisfação ao ser comparada a uma deusa.
Nori começou a relembrar horrorizada como se deixou levar por tanto orgulho e avidez, mancomunada com seu pai, usufruindo da ingenuidade daquele povo simples e crédulo, a tal ponto que era preciso duas pessoas para segurar seus braços, quando eles estavam abertos, pois as mangas tecidas a ouro e pérolas desciam até ao chão.
− Que falta de humildade, − pensava ela, − não considerar aquelas pessoas que se ajoelhavam aos meus pés como seres humanos. Que orgulhosa eu me tornei!
E assim, Nori foi se lembrando, detalhe por detalhe, de toda aquela situação e sabia que não dava mais para recuar. Teria de prosseguir fazendo-se passar por Deusa do Sol? Teria o feitiço se virado contra a feiticeira? Como poderia desobedecer ao pai no cumprimento dessa “missão”?
− Como enfrentarei meu pai para resolver essa situação? Vou ser desmascarada, tirarei a ilusão de um povo crédulo?
Ela sabia que sua mãe não concordava com nada daquilo e queria que a filha tivesse uma vida normal, como a de qualquer outra moça daquela vila. Por isso, vivia entristecida, deplorando das atitudes negativas. Outra coisa que a mãe de Nori deplorava eram os pretendentes, que apareciam de todas as partes, entusiasmados pela beleza e pela fortuna da moça. Mas entusiasmados também pela riqueza, pois quem viesse a se casar com ela ganharia, além do sobrenome cunhado num brasão, terras e posses. Sua taça transbordou quando, transtornada com a infelicidade da filha e com o rumo dos acontecimentos foi definhando, definhando e morreu nos braços de Nori pedindo-lhe:
− Minha filha! Tome uma atitude! Não desperdice sua vida... Enfrente seu pai, fuja aqui da vila e procure a sua felicidade com quem possa lhe dar muito amor!
Os pais daquela jovem tinham título de nobreza e terras, e sempre agradeciam em suas orações por terem uma filha tão bela, que para eles se assemelhava a uma deusa. Muito religiosos frequentavam o templo duas ou três vezes por semana, porque Masu era um dos muitos que emprestavam grande parte de seu tempo ajudando os monges em seus afazeres rituais. Certo dia Nori foi levada às pressas para o templo, pois não estava se sentindo bem. Os monges estranharam o comportamento da jovem, que, muito contrita, abriu longamente seus braços para orar, de tal maneira que as mangas do quimono, tecidas com fios de ouro e seda, pareciam asas de borboleta.
A expressão e a postura da moça deixaram os que estavam presentes extasiados, e foi nesse momento que, vindo das alturas, um raio de luz se filtrou por entre um dos vitrais do templo e Nori, toda vestida de cetim amarelo, parecia para o povo humilde a própria deusa do sol.
Seu pai ficou desconcertado com a atitude dos moradores da vila, e sinceramente acreditou que ela poderia ser mesmo uma deusa, por isso disse para a filha com voz tremida:
− Abençoe o povo, levante os braços e permaneça assim até quando você agüentar!
Masu lembrava-se muito bem da satisfação que sempre sentiu e do orgulho que tomou seu ser por inteiro, desde àquela época. O povo do lugar achava que toda vez que a moça fazia no templo, durante as cerimônias, aquele movimento de levantar, e depois abaixar vagarosamente os braços, ela estava abençoando e que tudo se transformaria, se naquele momento se fizessem os pedidos para que tudo melhorasse. Isso porque, na verdade, desde que o raio luminoso tocou o corpo da moça, a prosperidade veio morar em todos os lares, e todos os pedidos feitos sempre eram atendidos, e assim todos esses eventos maravilhosos eram atribuídos a ela.
Incentivada pelo pai, que acabou vendo Nori como um investimento, pois oferendas de valor incalculável, ornadas de pedras preciosas, ouro, prata, pérolas e madrepérola, vinham de terras distantes, para serem colocadas aos pés da moça, depois que o mundo ficou conhecendo os seus prodígios.
Nori, que estranhava e tinha muito medo de tudo que acontecia, enfim começou a gostar desse seu desempenho, pois sentiu que o pai se orgulhava dela, a fazia se vestir com muito apuro e suntuosidade para se apresentar no templo. Os quimonos que ela usava eram bordados com pérolas, ouro e pedras preciosas, ofertadas de bom-grado por alguns aldeões mais abastados, animados com a proteção que, tinham certeza, recebiam da deusa do sol. A moça usava ainda uma tiara de brilhantes considerada a jóia mais rara de todas, pois era encimada com pérolas negras, e reluzente como um halo de luz, que contrastava com seus cabelos, penteados como os de uma gueixa, negros como o charão e brilhantes, parecendo impregnados de laca.
Depois da morte da mãe, Nori ficou tão triste que não tinha mais ânimo para se apresentar no templo. Incentivada pelo pai e pelos amigos mais próximos, resolveu participar, mas sempre que abria os braços, pensava na mãe e chorava. Os seus seguidores, sem saberem a razão da tristeza da Deusa do Sol, choravam junto com ela, prestando-lhe solidariedade.
Por coincidência ou não, naqueles dias começou a chover e cada dia a chuva aumentava levando pontes, inundando o vale e as plantações de arroz e cereais. Era o caos, a pobreza! Toda prosperidade foi literalmente por água abaixo.
Os comentários que corriam pela comunidade responsabilizavam Nori por toda aquela desgraça; pois se dizia que foram as suas lágrimas, tão copiosas como a enchente, que contribuíram para que toda a vila fosse inundada. Os comentários tinham fundamento na idéia de que se a Deusa do Sol, quando alegre, trazia a fartura, a ruína dependia da sua tristeza, que poderia desencadear os piores castigos.
Nori não conseguia mais raciocinar... Olhando para aquele lago que a atraia para ele, entrou bem devagar e a água gelada foi congelando seu corpo branco como a flor de lótus, as maçãs do rosto, que de rosadas, agora eram brancas como a neve. Tiritando de frio, soltou um grito:
− Ah! Deus! Meu Deus! Aceita-me contigo, perdoa-me e perdoa o meu pai!
E foi afundando naquele lago, onde só as carpas vermelhas eram suas companheiras, só as algas verdes eram as tiaras dos seus cabelos e os caules dos juncos escoravam seus braços inanimados. Suas vestes longas, largas e muito pesadas, ajudaram a afundar aquela moça infeliz.
As algas iam tecendo como que uma rede para aprisioná-la e enrodilhando sua cabeleira negra como o charão e lustrosa como a laca. Sua beleza agora ficaria enfeitando aquele lago, onde a luz do sol um dia iria penetrar.
Nori nada mais sentia a não ser sossego, mansidão e paz! As ondas do lago embalavam seu corpo inerte, numa dança macabra. Suas vestes colavam naquele corpo escultural e sem vida, que as carpas vermelhas começavam a beijar.
O lago agora era o seu Templo de Paz.
Nisso, boiando, arrastada por um vento vindo do norte, por sobre o seu cadáver, bailou uma flor de lótus branca com bordas vermelhas e raízes negras como os maravilhosos cabelos da Deusa do Sol...
Nenhum comentário:
Postar um comentário