Ivana Maria França de Negri
Sempre tive
curiosidade de conhecer esse casarão imponente que desperta o fascínio das
coisas antigas, da história da nossa cidade
Às vezes passava
em frente, quando fazia caminhadas, e pelas frestas do portão, sempre fechado,
visualizava a imponente fachada em tons de rosa e branco, o pórtico rendilhado
das janelas e as paredes entremeadas de musgos.
O chafariz de dois
andares compunha o cenário de contos de fadas. E a verdejante floresta emoldurando a paisagem.
Mas eis que surge
a oportunidade de visitar esse casarão e eu não poderia perder por nada! Antiga
Vila Aretusina, o palacete foi construído para ser moradia de Luiz Vicente de
Souza Queiroz e sua esposa Ermelinda, mais tarde conhecido por "Seio de
Abraão" por sua beleza histórica, e por fim, mudaram para Palacete Boyes
quando foi vendido para a família Boyes,
que utilizou a mansão até o fechamento da fábrica, quando o imóvel ficou
abandonado por muito tempo, até que o empresário Arnold Fioravante o arrematou
num leilão e o restaurou. Recentemente foi tombado pelo CODEPAC.
Construído no
século XIX, na década de 1870, guarda a imponência do estilo neoclássico. Um casarão que se integra com a paisagem
ribeirinha e tem até uma cachoeira cantante em seu quintal, cercado de
vegetação nativa que abriga árvores centenárias gigantescas.
Graças ao projeto Village
Art Decor, do empresário Bruno Chamochumbi, que congrega um pool de arquitetos,
paisagistas, designers e decoradores, os portões se abriram para a população,
mas corram comprar seus ingressos porque é por tempo limitado!
O passeio
inicia-se pelos jardins. A cada passo, uma surpresa... Além da exuberante
floresta e da cascata, um pequeno cemitério com lápides aguça a curiosidade. São
tumbas dos inúmeros animais de estimação que por ali viveram.
Fecho os olhos e imagino
Ermelinda Ottoni e seu amado Luiz de Queiroz, de braços dados passeando pelos
jardins num final de tarde, o sol se pondo no horizonte, o perfume das flores
invadindo o ambiente, o canto dos pássaros e o borbulhar da cachoeira. Tudo
natural, sem carros passando, sem interferências, naquele paraíso particular.
Olhando para o
chão, os belíssimos mosaicos, levantando o olhar, os lustres de cristal. Ao pé da
escadaria, a adega, onde dá pra sentir a umidade geladinha ao colocar as mãos
nas paredes pétreas. Quanta magia!
Lá fora, centenas
de carros por conta da Festa do Divino, rojões ensurdecedores. Mas lá dentro, o
sagrado se perpetuando na imagem da santa numa redoma, paredes guardando
segredos, degraus que foram guardiões de histórias, de alegrias e tristezas, de
emoções que nunca ninguém saberá, só quem viveu naquele refúgio.
Muitos detalhes
como o elevador de alimentos, que levava a comida quentinha direto da cozinha
para a sala de jantar. Cristaleiras antigas que guardam louças inglesas e copos
de cristais da Alemanha.
Fico imaginando os
saraus que aconteciam, regados a vinhos importados, e as vestes elegantes das
damas, de sedas, cetins e rendas, ostentando lindas joias. E os trajes sóbrios
dos cavalheiros, casacas de tweed inglês, coletes e abotoaduras de ouro.
A mansão histórica
teve a honra de receber como hóspedes, Dom Pedro II, o presidente Washington Luís
e o famoso escritor e poeta britânico Rudyard Kipling, criador de Mogli, o
Menino Lobo, ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1990.
O sol começava a
bocejar no horizonte e a escuridão da noite desbotava as cores. Viemos embora.
Mas a magia permaneceu em mim...


























































