Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria 2025/2028

Presidente: Raquel Araujo Delvaje Vice-presidente: Vitor Pires Vencovsky Diretora de Acervo: Christina Aparecida Negro Silva 1a secretária: Elisabete Jurema Bortolin 2a secretária: Ivana Maria França de Negri 1o tesoureiro: Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto 2o tesoureiro: Edson Rontani Junior Conselho fiscal: Antonio Carlos Fusatto Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal Cássio Camilo Almeida de Negri Jornalista responsável: Evaldo Vicente Responsável pela edição da Revista: Ivana Maria França de Negri Conselho editorial: Aracy Duarte Ferrari Eliete de Fatima Guarnieri Leda Coletti Lídia Sendin Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

E a Palavra já tem Casa!

 


Ivana Maria França de Negri

Escrevi no início deste ano um artigo com o título "Um Cantinho para a APL". A Academia Piracicabana de Letras completava 54 anos de existência sem um cantinho pra chamar de seu.

A Ângela, editora da Gazeta, sugeriu iniciar uma grande campanha para conseguir um local. E os três jornais, Gazeta de Piracicaba, Jornal de Piracicaba e Tribuna Piracicabana se uniram pela causa, até porque, os três editores dos respectivos jornais são acadêmicos.

A campanha ganhou um nome pomposo: "Uma Casa para a Palavra". E foi se expandindo, ganhando adesões de outros jornais, rádios, imprensa até de outras cidades, foi crescendo, até escritores de renome apoiaram a campanha como Raquel Alves e Augusto Cury.

Acadêmicos, escritores, amigos, davam depoimentos, escreviam textos em prosa e muitas poesias também, inundando a mídia de recadinhos pedindo uma sede para abrigar a Palavra.

E o nobre vereador Pedro Kawai, grande incentivador das Letras, se colocou como importante intermediário entre prefeito e secretários.

Abaixo-assinados eram passados nos saraus, oficinas, eventos literários, onde se colhiam centenas de assinaturas.

Lembro de ter escrito naquele primeiro artigo, que num primeiro momento, não precisaria ser um templo grego como o da Academia Campinense, nem um Palácio Trianon como o da Academia Brasileira de Letras com sede no Rio de Janeiro, tampouco um casarão Art Déco, como a sede da Academia Paulista de Letras. Apenas um cantinho aconchegante para reuniões, lançamentos de livros, confraternizações e para abrigar o acervo já estaria de bom tamanho! 


E descrevi também um pouco do trabalho que a Academia realiza, como incentivo aos novos escritores em oficinas que existem há mais de 30 anos, presença nas escolas realizando palestras, divulgando lendas e personagens famosos de Piracicaba, sempre voluntariamente, também citei os vários projetos como o Viajando na Leitura que dispõe de geladeirotecas espalhadas pela cidade, sempre abastecidas, onde as pessoas podem retirar, trocar ou doar livros. Também o Projeto Livro com Pezinhos que incentiva a circulação de livros infantis e já distribuiu milhares de exemplares ao longo de quinze anos de existência, assessoria para montagem de bibliotecas escolares, a edição anual da  Revista da Academia Piracicabana de Letras, com produção dos acadêmicos, sendo que a de número 23 já está quase concluída. Além da organização de saraus, oficinas e palestras.

A campanha extrapolou as expectativas.  Após alguns meses, a APL recebeu a boa notícia: a Palavra já tem uma Casa que será utilizada em parceria com a OSP - Orquestra Sinfônica de Piracicaba que já tinha a cessão do imóvel, mas estava parado faz muito tempo, necessitando de reformas.

Que notícia boa! Unir Música e Letras, uma parceria perfeita, fadada ao sucesso!

Áreas comuns para as duas entidades e salinhas separadas para cada uma abrigar seus  instrumentos musicais e acervo literário.

Não dá para citar todos os nomes das pessoas que ajudaram,  que indicaram locais, que escreveram, até chegar na etapa final, com o prefeito Hélio Zanatta convocando as duas entidades para dar a boa notícia!

“Habemus Domus”! A APL deixou de ser uma entidade sem-teto e terá a tão sonhada casa da palavra, que será denominada de “Casa da Música e das Letras”.

Gratidão, gratidão, gratidão!

Um presente para o futuro



Lídia Sendin

A ansiedade por algo tão pequeno, mas tão significativo, ao mesmo tempo que acelerava, fazia doer o seu coração. Não tinha certeza se merecia o que desejava. Dia após dia esperava em silêncio, tinha medo de verbalizar o que queria. Quando ele chegou, ela esperou um gesto, uma palavra, mas só recebeu decepção. A caixinha de veludo tão esperada não veio, o pequeno aro dourado ficaria para o futuro, no presente ainda seria chamada de a outra.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Saudades do Colégio Assunção...

 

                                                          (desconheço a autoria da foto, se alguém souber, favor informar para dar os devidos créditos)

Ivana Maria França de Negri 

Há alguns dias houve a comemoração dos 100 anos da Igreja Nossa Senhora da Assunção. E uma onda nostálgica invadiu meu coração ao relembrar velhos tempos ...

Fecho os olhos e transporto-me ao final dos anos sessenta. Era a época áurea da minissaia, e nós, alunas do Colégio Nossa Senhora da Assunção, seguíamos os ditames da moda enrolando o cós da saia azul marinho pregueada, até que ficasse um palmo mais ou menos acima do joelho.

Quando a Madre Superiora ou alguma outra Irmã se aproximava, desenrolávamos o cós rapidamente, para que o comprimento da saia descesse novamente à altura do joelho. Hoje, fico imaginando que as freiras sabiam de tudo, mas fingiam não ver, a fim de não ficar chamando a atenção das alunas a todo momento.

              Era obrigatório o uso da gravata e de meias brancas três quartos, daquelas que vão até o joelho. Quantas de nós não esquecíamos algumas vezes a gravata e levávamos aquela bronca...

Nesse colégio aprendemos as mais belas lições de vida, de amor e de religiosidade. As sementes do conhecimento que foram plantadas e orvalhadas pelo amor à Senhora do Assunção, brotaram generosas.

Era o auge da Jovem Guarda, e reinava na música dos adolescentes, o rei Roberto Carlos. Tempo dos Beatles, da cuba-libre, das brincadeiras dançantes, dos bailes de debutantes e das idas semanais aos cines Politeama e Palácio.

Com que orgulho cantávamos o hino do colégio! Éramos as “Meninas do Assunção!”.

Recordo-me especialmente das aulas de geografia do Professor Lineu Cardoso, e do inesquecível saquinho de tômbolas, onde eram sorteadas as “vítimas” da temida chamada oral!

Tínhamos aulas de francês com a Irmã Ismênia, que sempre eram iniciadas com a Ave Maria recitada em francês, e nas aulas de inglês da Irmã Elizabete, eram rezávamos  em língua inglesa.

As frondosas mangueiras, eram nosso refúgio. Lá, conversávamos sobre nossos sonhos adolescentes, e fazíamos confidências sobre as descobertas do amor. Os recreios eram doces, assim como a visita obrigatória à gruta. A capela era o local sagrado, onde íamos silentes orar e pedir graças à Maria.

O passado intangível é uma dimensão mágica que visitamos quando estamos em estado de torpor, entre a vigília e o sono, e volta nítido e real, trazendo personagens que marcaram nossa vida. Uns já passaram para a outra vida, e outros, misteriosamente “desapareceram” de nosso convívio.

Em meio às recordações, vultos familiares saltam do passado e adquirem vida: A Madre Superiora Maria Hortência, Irmã Cesta, Irmã Paulina, Irmã Inocência, Irmã Geralda, Irmã Luísa Maria, Irmã Maria Nastasie, Irmã Maria da Penha, Irmã São Francisco de Assis, Irmã Anésia, que mais tarde mudou o nome para Irmã Margarida. Por onde andarão? Certamente já estão naquele céu que descreviam para nós com tanta fé.

Gerações vão se sucedendo, mas o vulto imponente, e a cúpula majestosa da Igreja no alto da “Boa Morte”, são avistados de longe. Torre inspirada, pelo seu construtor Miguelzinho Dutra,  nos contornos da Igreja de Santa Maria Del Fiore de Florença.

Meus três filhos também passaram por seus bancos acolhedores. E por isso, meu vínculo com o colégio continuou por muitos anos. E quando as Irmãs de São José deixaram o estabelecimento aos cuidados dos Padres Salesianos, eles tiveram o cuidado e a delicadeza de manter o antigo nome. As velhas mangueiras deram lugar às modernas quadras esportivas, e o laboratório de ciências, onde a Irmã Anésia fazia experiências mirabolantes, deu lugar às salas de informática.

          Muitas reformas foram feitas para acompanhar o progresso e a informatização do ensino. Mas... a magia continua, na memória das centenas de alunos que por lá passaram.

E duas das minhas netas também estudaram nesse colégio. Foram três gerações. Um ciclo se fecha, outro se inicia, na eterna roda da vida.



E duas das minhas netas também estudaram nesse colégio. Foram três gerações. Um ciclo se fecha, outro se inicia, na eterna roda da vida.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Recanto dos Pássaros - Piracicaba

Ivana Maria França de Negri

              Um recanto mágico dentro da área de lazer da rua do Porto chama a atenção de quem caminha pelo circuito.

Como gosto de fazer caminhadas, acompanhei desde o início o andamento desse projeto. Eu sempre via um homem solitário de botas e chapéu, munido de pá e enxada, plantando mudas. Ele as trazia, fazia a cova e ia plantando. Havia uma nascente e um pequeno córrego ali. Podia ser um dia lindo de sol, ou nublado, ventando, frio ou calor, e até chuviscando, mas ele estava lá.

Com o tempo eu via o espaço crescendo, cada dia mais plantas, muitas se transformando em árvores, pedras formando caminhos, e um comedouro foi instalado para atrair pássaros.

            Descobri que o idealizador se chamava Luís Osório Bonassi Filho, buscando  transformar seus sonhos em realidade. Sei que sempre fez esse trabalho voluntário, por amor à Natureza.

            Lembrei de Walt Disney, um incorrigível sonhador visionário, que conseguiu criar um reino mágico gigantesco, concretizando seus devaneios. E hoje, milhares de pessoas do mundo todo podem vivenciar a fantasia de Disney indo visitar esse lugar encantado.

             No Recanto dos Pássaros, cada muda, cada flor, antes de ser plantada, foi alvo de estudos. Foram plantadas as que atraem diferentes espécies de pássaros e para isso, Luís teve vários colaboradores, que por não os conhecer, não posso citar nomes. Até a prefeitura está apoiando, pois um projeto desses é digno de louvor.

            Como nada nesta vida se faz sem recursos financeiros, os amigos, os admiradores da proposta, os que amam a natureza e alguns empresários, colaboram para que o projeto seja ampliado. Já tem bancos e um cantinho instagramável onde as pessoas podem tirar fotos e postar em suas redes sociais.

Na semana passada, eu e minha irmã, sentamos num dos bancos enquanto admirávamos as flores, e começamos a conversar. Minha irmã se encantou com uma árvore e pediu uma mudinha, o que prontamente foi atendida pelo Bonassi. Ficamos conhecendo o projeto mais a fundo e a necessidade de expansão para que se torne um ponto turístico dentro do parque.

Os olhos do sonhador brilhavam enquanto ele discorria sobre as inovações que ainda pretende instalar lá. Canalizar a água que escorre para formar um laguinho e colocar peixes. Criar um ambiente para leitura, trazer livros para que as pessoas descansem no oásis verdejante ao som dos gorjeios e trinados e das águas canoras.

          Adquirimos canecas lindas que são vendidas para obter fundos e prosseguir com as ideias que jorram fartas, mas para colocá-las em prática precisa de recursos.

Quem quiser colaborar, é só passar no Recanto e conversar com o Luís. E além das canecas tem camisetas, sacolas e outros itens à venda.

Cada um que passa por ali se torna um admirador e também um colaborador, como a Eliana, fotógrafa, que identificou 114 espécies de aves e cedeu fotos para colocar nos expositores que são educativos para as crianças e ficam bem próximos do parquinho infantil.

As pessoas são convidadas a deixar frutas frescas na bancada para servir de chamariz para as aves. Vi outro dia até um saruê se deliciando com as frutas também.

Por mais sonhadores milagreiros para embelezar nossa cidade, enriquecer nossa cultura, e zelar pela nossa fauna e nossa flora!

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Angústia



Elda Nympha Cobra Silveira

 

Eu vi! Sim, eu vi

a rosa vermelha desfolhada,

tão triste e solta,

varrida pelo vento,

arrancada de um bucólico jardim.

 

Ela não poderia mais

ser o pouso das belas borboletas,

nem dar o néctar

para os sedutores colibris,

pois até seu perfume se diluiu

e se perdeu pelo ar.

 

Aí! Por que, meu Deus,

é tudo tão efêmero?

A beleza é o momento.

E ela passa, é tão fugaz!

domingo, 26 de julho de 2026

Náufrago

 



Lídia Sendin

 

Você se joga

Quase se afoga num mar de esperança.

Mas de que adianta,

Se vem o resgate que salva você!

Por que me puxaram?

Estava engolindo as bolhas-promessas,

Estava curtindo no sal do devir.

 

Dia do Escritor 2026 - Deixe um livro por aí!

 



Ivana Maria França de Negri

No Brasil, o Dia do Escritor é celebrado em 25 de julho, quando ocorreu, em 1960, o Primeiro Festival Brasileiro de Escritores, patrocinado pela UBE – União Nacional de Escritores, que tinha Jorge Amado como vice-presidente. A data foi sancionada pelo então Ministro da Cultura Pedro Paulo Penido e, desde então, é usada para celebrar a Literatura Nacional. João Chiarini, fundador da Academia Piracicabana de Letras, esteve presente no evento.

Todos os anos, os grupos literários de Piracicaba promovem algum tipo de ação  para comemorar o Dia do Escritor.

Já foram feitas palestras, distribuição de textos, eventos no Casarão do Turismo, na Praça José Bonifácio, na área de lazer da rua do Porto, no Recanto dos Livros, e em muitos outros lugares.

Em outras ocasiões, foram homenageados escritores piracicabanos já falecidos, que fizeram história e deixaram seu rico legado que continua a nos encantar. As  famílias eram convidadas a ler poemas e textos dos entes que já partiram e o clima era de pura emoção. 

Neste ano, a ideia é fazer uma ação interessante, largar um livro em algum lugar. Pode ser numa padaria, no banco da praça, no shopping, em banheiros públicos, lanchonetes, em cafés, clubes, academias, salas de espera de consultórios médicos, cabeleireiros, no ambiente de trabalho, enfim, onde alguém possa encontrar o livro e levá-lo para casa para ler e depois, passá-lo adiante.

Aqui em Piracicaba, o projeto idealizado por mim e Carmen Pilotto,  o  “Livro com Pezinhos”, já atua na distribuição de livros infantis, incentivo à leitura, assessoria para montagem de bibliotecas e também, estimula as pessoas a passarem adiante os livros que já leram.

Livros são como as pessoas, se não caminharem, se exercitarem e tomarem ar fresco, adoecem. E se não forem folheados constantemente, ficando só esquecidos numa estante, adquirem fungos, traças, mofo, ficam empoeirados e obsoletos, perdendo a função primordial que é levar cultura aos leitores. Já o livro caminhante, fica saudável durante toda a sua vida útil, cumprindo exemplarmente sua função.

Uma amiga do Rio Grande do Sul tem um projeto semelhante que se chama “Livros com Asas”, porque os livros precisam voar, diz ela!

Já vi na internet o chamamento “Esqueça um Livro”, estimulando o desapego literário, deixando livros em bom estado em vários locais.

Seria interessante deixar bilhetinhos grampeados explicando do que se trata, detalhando os motivos da ação e dizendo que os livros podem ser levados para casa, mas com o compromisso das pessoas que os levarem, de passarem adiante depois de lidos. Podem ser repassados para alguém, doados para bibliotecas de bairros, ou mesmo serem deixados em outros locais, sempre com o bilhete explicativo.

O convite para participar do projeto se estende a todos os piracicabanos, não só escritores. É só a pessoa escrever um bilhetinho, grampear nos livros e deixá-los onde for mais fácil, em algum local perto de suas casas, onde haja boa circulação de pessoas.

Um livro parado, esquecido numa estante, não traz cultura, nem alegria, nem diversão e nem sabedoria para ninguém! Mas o livro caminhante, cumpre sua função de entreter, instruir, encantar e promover mudanças! Não quebre a corrente da leitura!

                                                                                          





                     

















sexta-feira, 17 de julho de 2026

As rendas de minha avó


(Memórias afetivas) 

 Ivana Maria França de Negri

 

Não tive muito contato com minha avó materna, que faleceu quando eu contava apenas cinco anos de idade. Mas através de minha mãe, eu e meus irmãos, ouvíamos atentos as sagas familiares que ela ouvira desde criança.

Minha avó aportou no Brasil, recém-casada, vinda da Itália, aos dezoito anos. Nunca mais retornou ao seu país de origem que ficou guardado na memória e nas lembranças de infância.

Uma mulher muito bonita e determinada que enfrentou inúmeras dificuldades num país estranho, costumes e língua bem diferentes, e a saudade que teve de amargar pelo resto da vida da sua terra natal.

Os filhos foram chegando. Treze ao todo, mas vingaram dez.

Quanto trabalho, peças para cozer, tachos de doces, compotas, roupas para lavar, engomar, num tempo de dinheiro escasso. Mesmo com tantas crianças para cuidar, ainda sobrava-lhe tempo para bordar, tricotar e fazer crochê

Naquela época não havia empregadas, nem eletrodomésticos. Tudo era feito manualmente e em casa. As frutas e verduras vinham diretamente da horta do quintal, orgulho do meu avô.

Na última gestação, que foi gemelar, teve um parto complicado, sendo que naquela época os partos eram feitos em casa por parteiras e sem recurso algum que não fosse a experiência delas. Devido a complicações, por causa de uma hemorragia, ficou com as pernas fracas. E por conta desse problema, minha avó ficava sentada a maior parte do tempo enquanto as filhas mais velhas ajudavam a cuidar dos mais novos.

Começou a fazer rendas de crochê. Tecia metros e metros de delicadas peças, utilizando agulhas e linhas bem fininhas.

Eram trabalhos lindíssimos que ela produzia sem parar. Fios entrelaçados habilmente e as rendas prontas eram enroladas em pedaços de papelão. Entre os muitos metros de rendas brancas, havia também as azuis, cor de rosas, amarelinhas, verdes, algumas mesclando mais de uma cor, num arco-íris de encher os olhos.

Repartia os rolos de renda entre as filhas prestes a se casar para que aplicassem nas peças do enxoval, toalhas de mesa, de banho, panos de pratos. E mais tarde, para enfeitar os cueiros e mantas dos bebês que iam chegando.

Outro dia, entre os guardados de minha mãe já falecida, encontrei uma caixa repleta de rendas que para ela, eram verdadeiros tesouros.

As de cor branca estavam amarelecidas pela ação do tempo e as coloridas, um tanto desbotadas. Coloquei as brancas de molho ao sol e voltaram à brancura original, e as de cor, tiveram seus tons reavivados.

Ainda não decidi onde vou aplicá-las. Penso que ficarão lindas nos vestidinhos das minhas netas, a quinta geração da família.

Enquanto admiro o trabalho perfeito, fico imaginando no que pensava minha avó enquanto tecia as rendas. Numa época em que não existiam distrações e nem televisão, as mãos se ocupavam enquanto os pensamentos voavam. No que pensaria minha avó?

A cada laçada, um suspiro, e o coração cheio de amor, apesar das dificuldades. 

Momentos de dor, de felicidade, de saudade, todas as emoções afloradas e impregnadas nas tramas de cada peça, uma diferente da outra.

E eu revejo minha avó ora sorrindo, ora chorando, em seus metros e metros de sonhos tecidos à mão...

 


 

 

Herdei parte dessas rendas e costurei vestidinhos enfeitados com elas para minha filha. Ela cresceu, se casou, teve suas filhas, e pude ver minhas netas gêmeas usarem os mesmos vestidinhos, quinta geração de mulheres da família.  

Gratas memórias que guardo como um tesouro no meu coração.

 

 

Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz

 

                                                                                                                         (foto Arquivo Nacional)


 

Memórias que permanecem: Ermelinda Ottoni e o sonho que atravessou gerações

por Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto

Algumas memórias vivem em fotografias antigas, em cartas amareladas ou em objetos guardados ao longo dos anos. Outras continuam vivas porque permanecem transformando pessoas. Caminham pelos corredores de escolas, atravessam gerações e seguem produzindo futuros. A história de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz é uma dessas memórias.

Ermelinda nasceu no Rio de Janeiro, em 1856, em uma família culta e influente. Desde muito jovem conheceu diferentes lugares do mundo, viajando pela Europa, Estados Unidos e Ásia. Aprendeu idiomas, observou culturas e descobriu que o mundo podia ser muito maior do que os limites que a sociedade de seu tempo costumava impor às mulheres.

Em 1880, casou-se com Luiz Vicente de Souza Queiroz. Mais do que marido e esposa, os dois tornaram-se companheiros de sonhos. Em uma época em que muitas mulheres permaneciam em silêncio diante das decisões dos homens, Ermelinda caminhava ao lado de Luiz. Participava das viagens, acompanhava projetos, compartilhava ideias e ajudava a construir objetivos que os dois acreditavam em poder transformar a realidade ao redor.

O casal desejava uma cidade mais desenvolvida, humana e preparada para o futuro. Participaram de iniciativas importantes para Piracicaba, contribuindo para melhorias que mudariam a vida das pessoas. Mas existia um sonho ainda maior: criar uma escola que ensinasse muito mais do que técnicas agrícolas. Queriam formar pessoas, criar oportunidades e abrir caminhos para gerações que ainda nem haviam nascido.

Movidos por esse ideal, viajaram em busca de referências, estudaram modelos educacionais e adquiriram a Fazenda São João da Montanha, local escolhido para o projeto da futura escola agrícola. Em 1892, fizeram algo extraordinário: doaram a propriedade ao governo com a condição de que ali surgisse uma escola dedicada ao conhecimento e ao desenvolvimento do país.

Mas a vida nem sempre acompanha os planos no tempo que desejamos. Em 1898, Luiz de Queiroz faleceu antes de ver o sonho realizado. Poderia ter sido o fim daquela história. Poderia ter sido apenas mais um projeto interrompido pelo destino.

Mas Ermelinda escolheu continuar...

Entre a saudade e a promessa feita ao companheiro de uma vida inteira, ela manteve acesa a chama daquele propósito. Seguiu em frente levando consigo não apenas a memória de Luiz, mas também a responsabilidade de proteger algo que pertencia aos dois.

Em 3 de junho de 1901, ela assistiu à inauguração da Escola Agrícola Luiz de Queiroz. Naquele momento, não se inaugurava apenas uma instituição. Materializava-se um sonho construído por duas pessoas que acreditaram que a educação poderia mudar vidas. Ermelinda assinou o livro de inauguração da escola, sendo a única mulher.

Hoje a Esalq é uma referência internacional, como centro de excelência em ensino, pesquisa e extensão universitária.

Quem atravessa os caminhos da Escola talvez veja árvores, prédios e estudantes. Mas existe algo que não aparece imediatamente aos olhos. Em cada espaço permanece a memória silenciosa de uma mulher que recusou ocupar apenas o lugar que sua época lhe reservava. Ermelinda compreendeu algo que continua verdadeiro: sonhos podem sobreviver às pessoas e, quando cultivados com coragem e generosidade, tornam-se heranças capazes de atravessar o tempo.

O legado do casal Queiroz se transformou em um sonho compartilhado que sobrevive por mais de cem anos!

Ermelinda, uma mulher especial que fez a diferença como protagonista de nossa história!

                                            (imagem de IA)


Ermelinda, uma mulher especial que fez a diferença como protagonista de nossa história!

Ermelinda apresenta a seu esposo o resultado de seu sonho

POETISAS QUE SE DESTACARAM EM PIRACICABA (In Memoriam)

 

      POETISAS QUE SE DESTACARAM EM PIRACICABA (In Memoriam)

Raquel Delvaje

 

              Piracicaba recebeu o apelido de "Florença Brasileira" e também "Ateneu Paulista", devido à sua rica herança artística, efervescência cultural e por ter sido o berço e refúgio de grandes nomes das artes. O título faz referência à cidade italiana de Florença, um dos maiores berços culturais do mundo. O principal motivo dessa comparação é o grande número de artistas plásticos, escritores, poetas, pensadores, desenhistas, cartunistas, músicos, cantores, atores, contadores de histórias que emergem nessa terra. O apelido foi eternizado no livro Piracicaba, a Florença Brasileira do jornalista e escritor Cecílio Elias Netto, que documenta a riqueza das artes piracicabanas.

              A cidade destacou-se no cenário nacional desde cedo. O renomado pintor Almeida Júnior, um dos maiores nomes da pintura brasileira, viveu e produziu obras marcantes no município. Outros artistas locais, como Alfredo Volpi e também as poetisas:

Marina Tricânico , Maria Cecília Machado Bonachella, Dulce Ana da Silva Fernandez e Virginia Pratta Gregolin, todas “in memoriam”.  Vou citar um poema de cada, que dentre tantos outros, fizeram delas grandes poetisas. Elas nasceram e/ou se destacaram em Piracicaba com suas obras, reforçando o título de berço das artes, que muito honra nossa cidade.

                                                                                (foto álbum de formatura Sud Mennucci colorizada por Ivana Negri)

MARINA TRICÂNICO

AQUELA MESA...

Aquela escrivaninha onde eu sonhava,
Aquela mesa amada e pequenina.
Era só nela em que me refugiava
Para compor meus versos de menina.

 

E, debruçada sobre ela, eu ficava
Envolta pela noite peregrina.
Cheia de sonho, ingênua, acreditava
Na cigana que lera a minha sina...

 

Ah! Se eu pudesse achar aquela mesa,
— Minha ternura— tenho bem certeza,
Ao começo da vida voltaria...

E chorando qual tímida criança,
Eu dela cobraria uma esperança,
E a volta dos meus sonhos, pediria...

 

 

MARIA CECÍLIA MACHADO BONACHELLA


DECISÃO

 

Não vou mais escrever, é minha escolha.

Hei de deixar os meus papéis em branco.

- tirem da minha frente – agora! – a folha

Ou eu mesma a rasgo, ou então, a arranco.

 

Qual garrafa ao mar tendo presa a rolha

Ou caramujo enrolado, eu me tranco.

Esta mágoa não mais meu peito molha

Estou sendo sincera, o gesto é franco.

 

Já nem mais quero rimas, ser poetisa;

O verso se despede e agoniza

Sem remorso. É o que a alma determina.

 

Não tem lugar no peito, nada inspira.

Não, nada existe: amor, ódio ou ira.

Apenas se extinguiu, secou a mina.

 

DULCE ANA DA SILVA FERNANDEZ

 

Quando?

 

Já não sei

Quando sou:

A mulher vaidosa,

Mãe carinhosa,

Vovó coruja,

Esposa-amante,

Ou uma simples poetisa.

 

Já não me importa saber

Qual delas eu sou,

As vantagens de ter mais

De oitenta anos de idade,

É poder ser todas

Ao mesmo tempo.

 

É não ter medo

De num triste dia nublado,

Ouvir cantos gregorianos,

Olhar ao espelho

E não enxergar mais,

Nenhuma delas.

 

VIRGINIA PRATTA GREGOLIN

 

PREMEDITAÇÃO

 

Se tudo fosse premeditação,

Nada aconteceria por acaso,

Nós não teríamos tanta intuição

Para elaborar o nosso próprio vaso.

 

Fazer valer nossa predileção

No cultivo da flor, se for o caso.

Quem premedita terá o seu quinhão,

Felicidade sem nenhum atraso!

 

Vai longe o pensamento comandando,

Do coração a rédea, já sem freios,

Como as ondas do mar se vão rolando.

 

Se tantas causas justificam os meios,

A premeditação vai é somando

Fatos e atos nos seus entremeios.

Galeria Acadêmica

1-Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
2- Maria Madalena t Tricanico de Carvalho Silveira- Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
3-Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
4-Marcelo Batuíra da Cunha Losso Pedroso - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
5-Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
6-Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
7-Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
8-Christina Aparecida Negro Silva - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
9-Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
10-Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
11- Antonio Filogênio de Paula Junior-Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz de Arruda Pinto
12-Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
13-Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
14-Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
15-Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
16-Lídia Varela Sendin - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
17-Shirley Brunelli Crestana- Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
18-Marcelo Pereira da Silva - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
19-Carmelina de Toledo Piza - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
20-Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
21-Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
22-João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
23-João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
24-Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
25-Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - cadeira no 26 Patrono Nelson Camponês do Brasil
26-Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
27-Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
28-Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
29-Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
30-Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
31-Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
32-Angela Maria Furlan – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
33-Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
34-Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
35- Elisabete Jurema Bortolin - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
36-Eliete de Fatima Guarnieri - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
37-Valdiza Maria Capranico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
38-Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
39-Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
40-Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz