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Colaboração da Acadêmica Myria Machado Botelho Cadeira n° 24 - Patrona: Maria Cecília Machado Bonachela |
O viralata branco e preto embarafustava pela porta estreita, sob a desaprovação dos adultos sérios que se desviavam, comprimindo-se, para evitar-lhe o contacto. Lá ficava ele, bem à frente do altar, acompanhando os movimentos do celebrante com meneios graciosos da cabeça. Depois virava-se para as crianças, sua legítima preferência. Latia baixinho, achegando-se de quem lhe premiava a cortesia. Quando não alcançava seu intento cabriolava com o rabo. Isto era completo! Os pequenos se torciam de risos; alguns até o agradavam.
Lá, enfeitiçou-se: uma garotinha magra e serelepe, de expressão inteligente e covinhas no canto da boca, dispensou-lhe mais agrados. Acompanhou-a à saída. Ela olhava para trás, fazendo-lhe sinais¸ às escondidas da mãe. Quando chegaram à casa, foi uma festa! Ganhou carne, bolachas, até uma barra de chocolate! Brincaram de esconde-esconde pelos jardins da mansão, e que felicidade! Ninguém o acossou com berros e pontapés. Resolveu mudar de vida e fixar-se. Adeus à boemia! Seria o protetor de Cristina e seu companheiro nos folguedos. Precisava respeitar os adultos que não o admitiam dentro de casa. Civilizou-se em parte; limpo, bem tratado e vacinado, com pouso certo, não prescindia, contudo, das missas domingueiras e dos passeios habituais para as reinações e os encontros com os colegas. Era um corisco nas avenidas e que habilidade para desviar-se dos carros!
Com o nome de Hippie adquiriu respeitabilidade e protegia sua dona com dedicação exclusivista: ai de quem ousasse pôr o pé para dentro do portão! Era feliz. Cristina representava o sol, o alimento, o aconchego e a alegria, muito mais do que sua humilde condição podia aspirar! Carinhos, guloseimas, risadas e cambalhotas no gramado verdinho, sobressaltos e correrias para os calçudos implicantes.
Um dia, não conseguiu escapar do laço, atirado por homens brutais. Entretinha-se, distraído com o nascer do sol, quando tudo acorda devagarzinho, brando e bonito. Esperava Cristina... Ela aparecia lá em cima, na sacada, chamando-o e desejando-lhe um bom dia...
Jogaram-no dentro do caminhão, no meio de outros companheiros e rodaram dentro da cidade, parando de quando em quando para recolher mais um colega de infortúnio.
Ao chegar, apartaram-nos em celas estreitas, para morrer na câmara de gás ou sair, se um amigo viesse retirá-los no prazo de três dias.
Hippie esperava... Na confusão e no desespero restava a confiança em sua amiguinha. Alguém lhe diria que o vira partir para a morte. As horas escoavam lentas. Os uivos e ganidos ensurdeciam; alguns, desanimados, estendiam-se sem reação. A maioria pelejava e o barulho aumentava a cada pessoa vinda para o reconhecimento e a libertação de um felizardo.
Hippie, pertinho da grade para facilitar a identificação, estava alerta aos ruídos de fora. As horas se arrastavam impiedosas, e a esperança diminuía... Encompridava os olhos para fora, muito triste. Não enxergava nenhuma nesga do céu. Terceiro dia de suplício sem lamento. Sofria em silêncio, conformado com seu destino. À tarde, o motorista da casa parou alguns instantes diante da cela, conversando com o guarda. Não o reconheceu. Não era à toa sua aversão pelos calçudos!
No dia seguinte, na madrugada fria e cinzenta, igual, sempre igual a tantas outras, Hippie, molhadinho e gelado, foi posto num local escuro e baixo, ao lado de outros companheiros, tiritantes e angustiados. Acomodou-se, esticando as patas, entorpecendo-se com o gás... Era o fim...
... Não! Ouvira uma vozinha, melodiosa e pura como um sopro de ar puro! Cristina o chamava! Viu-se deslizando com ela pelos jardins, acompanhando-a nos passeios, de peito estufado! Sentiu o aconchego de seus bracinhos, quando se enrodilhava para um soninho que o menor ruído despertava num salto assustado, seguido de latidos agudos e furiosos. Ela cascateava um riso, puxando-lhe as orelhas...
− Hippie!.......Tentou levantar-se para atendê-la e fazer para ela uma última cabriola... Mas o mundo, ah! os homens!...
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