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Acadêmica Myria Machado Botelho Cadeira n° 24 - Patrona: Maria Cecília Machado Bonachella |
Milton
Hatoum, escritor e cronista brasileiro, em sua inspirada crônica, Livros de verão e literatura de verdade
( 6ª feira/4/01/2013/ Caderno 2/Estadão),veio ao meu encontro na reflexão de
nossos tempos, tão pobres e precários de
boas leituras, aquelas que ensinam a pensar com espírito crítico e levam
o leitor a imaginar, sonhar, sobretudo elevar-se a patamares mais elevados do espírito.
Referindo-se
à Feira do Livro, realizada há poucos meses em Guadalajara, em que um escritor
espanhol, desolado, perguntava a uma mulher onde estavam os leitores, ela
apontou para uma fila de leitores que queriam comprar a edição espanhola do best-seller
Cinquenta tons de cinza. O cronista
acentua que, provavelmente, os leitores dessas historinhas de sexo e violência
não se aventuram a leituras mais profundas que mergulham na condição humana e
psicológica, no jogo social e político, nas contradições e misérias do nosso
tempo, menos ainda na linguagem em sua forma de narrativa. No Brasil, estas
baboseiras são ainda mais graves, em virtude da enorme precariedade estrutural
de nosso ensino público. Milhões de jovens se ressentem de uma formação
educacional consistente.
No
meu tempo de estudante, aprendíamos com os mestres a valorizar o vernáculo e o
conhecimento dos bons autores, tanto nacionais quanto estrangeiros, isto desde
cedo. Castro Alves, o poeta predileto de meu primeiro professor de português,
era decorado para apresentação de jograis, isto depois de preleções que
estimulavam e criavam o interesse. A poesia não era a arte de uma imensa
minoria, mas constituía um entretenimento saudável, e as redações, bem como o
manejo correto do vernáculo, uma exigência nas provas de outras disciplinas,
sem o qual as notas eram rebaixadas.
Mais
tarde, quando me aventurei na difícil arte da escrita, um professor de
literatura, escritor autodidata, redator principal do Jornal de Piracicaba por
muitos anos, apaixonado por literatura e excelente crítico literário,
conduziu-me pelos caminhos da arte que considerava a mais espinhosa de todas.Após
a leitura dos textos, passávamos para a
análise gramatical e sintática, desdobrando- os e descobrindo o porquê da
excelência ou das falhas.Tenho comigo uma lista das 10 obras-primas imprescindíveis
numa biblioteca particular: Dom Casmurro
(Machado de Assis), Vidas Secas (Graciliano Ramos), Grande Sertão, Veredas(
Guimarães Rosa), Guerra e Paz (L. Tolstoi), A Cartuxa de Parma ou O Vermelho e
o Negro (Stendhal ), Crime e Castigo (F.
Dostoievski), O velho e o Mar (E. Hemingway), Ilusões Perdidas (H. de Balzac),Lord
Jim (J. Conrad ).
Nestas
férias, num lugar de paraíso, no alto da Serra de S.Pedro, descansei com a
releitura ( hábito freqüente) de meu autor preferido na infância, Monteiro Lobato.
Desta vez, deliciei – me com A história do mundo para crianças.
Transportei-me para aquele mundo encantado, aquela forma sutil e maravilhosa de
ensinar, conduzindo e trabalhando a imaginação e a curiosidade através do
conhecimento. Sua obra é imortal.
Repetindo
o grande cronista, mencionado no início, Lobato permanece, após quase um
século, enquanto o tempo se incumbe de apagar os tons de cinza, os crepúsculos,
as cabanas e a xaropada que finge literatura para ressaltar ainda mais o valor
dos grandes imortais.
* Texto publicado na GAZETA DE PIRACICABA
* Texto publicado na GAZETA DE PIRACICABA
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