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Armando Alexandre dos Santos Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado |
O
caso de Akhenaton, faraó egípcio que viveu no século XIV a.C. e tentou
introduzir, em seu reino, o culto a um único Deus, costuma ser apresentado, por
certos críticos modernos que preferem ignorar os relatos bíblicos, como a
primeira manifestação monoteísta da história da humanidade. Por não aceitarem
os relatos bíblicos e negarem total caráter histórico a eles, apontam Akhenaton
como estando na raiz e na origem de todos os monoteísmos conhecidos, incluindo,
em ordem cronológica de aparecimento, o judaísmo, o cristianismo e o
maometismo, e ignorando crenças monoteístas difusas em numerosas partes do
mundo, inclusive entre tribos indígenas da América do Sul.
A Bíblia, entretanto, é reconhecida como fonte histórica por
inúmeros cientistas de primeira linha, ainda nos nossos tempos. Desde obras
clássicas como a célebre coletânea “La Bible, Livre d´Histoire”, do Prof.
Daniel Rops, da Academia Francesa e do Instituto de França, “The Bible is true”, do arqueólogo britânico
Sir Charles Marston, “Histoire d´Israël”, de F. Ricciotti, da Universidade
Lateranense, outro livro homônimo de Martin Noth, da Universidade de Bonn, até
obras de divulgação respeitáveis, como “E a Bíblia tinha razão”, de Werner
Keller, ou “La vie quotidienne des hommes de la Bible”, de André Chouraqui,
sustentam o valor histórico dos livros bíblicos. Inúmeras descobertas
arqueológicas igualmente confirmam afirmações históricas contidas na Bíblia.
Bem
sei que uma objeção de peso pode ser feita a isto que estou afirmando: sendo
muito difícil (para não dizer impossível) precisar, historicamente, a época em
que foram escritos os numerosos livros sagrados que compõem a Bíblia, e até
mesmo precisar a autoria individual de cada um deles, é também muito difícil
negar que tenham eles sofrido influência cultural de outros povos anteriores,
que também têm, em suas tradições orais ou mesmo escritas, referências a um
pecado original, a um lost paradise,
a um dilúvio, à promessa de um grande libertador futuro, a uma torre mítica que
estaria na origem da divisão das línguas etc. Na ótica desses objetantes, o
fato de se encontrarem documentos escritos anteriores, documentando que também
em outros locais se cultivava análoga crença, basta para provar que a Bíblia
não pode ter sido origem delas, sendo, pelo contrário, originada por elas.
Nisso incorrem no famoso paralogismo do “post hoc ergo propter hoc” (em
tradução livre: se veio depois de algo, é porque foi causado por esse algo).
Esse raciocínio é errôneo, pois não basta algo ser anterior para ser causa de algo
posterior.
A
crítica literária moderna, dos livros bíblicos, tende a acreditar que o que se
conhece da Bíblia, na sua composição atual (ignorando, para não complicar a
exposição, a vexata quaestio das
divergências entre católicos e protestantes acerca da canonicidade ou não de
alguns livros, assim como polêmicas acerca de textos apócrifos que foram, por
vezes, tomados como canônicos por alguns autores de peso e até utilizados na
Liturgia), nem sempre corresponde a uma primeira versão escrita por um único autor,
mas é muitas vezes o resultado de inúmeras gerações de copistas/redatores que
fizeram acréscimos, interpolações, censuras etc. Essa suposição, mesmo que
verdadeira, de si não desclassificaria a Bíblia como fonte histórica. Por
análogo processo de múltipla autoria e gradual composição passaram, como é
reconhecido por todos os estudiosos, obras como a Ilíada e a Odisseia, assim
como o curiosíssimo Gilgamesh (a mais antiga referência escrita, conhecida até
hoje, a um dilúvio universal), e nem por isso são sumariamente descartadas ou
deixam de ser tratadas com respeito por historiadores de todas as tendências.
Também
me parece apriorístico e preconceituoso querer excluir um autor, como
anticientífico, apenas porque tem fé e é religioso. Lembro, de passagem, a
figura do Abbé Théophile Moreux
(1867-1954), sábio egiptólogo, astrônomo e meteorologista, diretor do
observatório astronômico de Bourges, tão respeitado no meio científico que até
foi dado, oficialmente, seu nome a uma cratera da Lua. Já vi esse autor – que
tem muitas dezenas de obras científicas de incontestável valor, que escreveu,
ademais, o clássico “La science
mystérieuse des Pharaons”, que era membro destacado da Sociedade
Astronômica de Paris e, no fim da vida, foi preso pela polícia nazista por ser
opositor de Hitler – ser sumariamente descartado num debate, por um professor
universitário brasileiro de cultura geral, aliás, bastante duvidosa, sob
alegação de que um padre, ao escrever sobre tema científico, é sempre suspeito
e não deve ser tomado em consideração... Se isso não é preconceito, não sei o
que é preconceito! Então deveriam ser igualmente descartados os cientistas
ateus que escrevem sobre temas religiosos? Também eles não são suspeitos? Aonde
iríamos parar? Somente poderiam ser tomados em consideração como cientistas
confiáveis, então, os relativistas “anti-metafísicos”, que professam não haver
verdades definitivas de espécie alguma. Mas, ainda aí caberia a pergunta: essa
profissão de fé na inexistência de verdades definitivas, ela própria não é uma
“verdade definitiva” que deva, na lógica do sistema, ser banida?
Parece-me,
data venia, muito mais equilibrada e
razoável a posição de quem prefere supor, como consta da Bíblia e de mitologias
presentes em culturas de todos os continentes, uma origem comum para toda a
humanidade e vê, nas variações dessas mitologias, distorções explicáveis de um
patrimônio cultural que foi comum a todos e a certa altura se perdeu. Voltarei
ao tema no próximo artigo.
Artigo publicado na TRIBUNA PIRACICABANA
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