(Memórias afetivas)
Não tive muito contato com minha avó
materna, que faleceu quando eu contava apenas cinco anos de idade. Mas através
de minha mãe, eu e meus irmãos, ouvíamos atentos as sagas familiares que ela
ouvira desde criança.
Minha avó aportou no Brasil, recém-casada,
vinda da Itália, aos dezoito anos. Nunca mais retornou ao seu país de origem
que ficou guardado na memória e nas lembranças de infância.
Uma mulher muito bonita e determinada que
enfrentou inúmeras dificuldades num país estranho, costumes e língua bem
diferentes, e a saudade que teve de amargar pelo resto da vida da sua terra
natal.
Os filhos foram chegando. Treze ao todo,
mas vingaram dez.
Quanto trabalho, peças para cozer, tachos
de doces, compotas, roupas para lavar, engomar, num tempo de dinheiro escasso. Mesmo
com tantas crianças para cuidar, ainda sobrava-lhe tempo para bordar, tricotar
e fazer crochê
Naquela época não havia empregadas, nem
eletrodomésticos. Tudo era feito manualmente e em casa. As frutas e verduras
vinham diretamente da horta do quintal, orgulho do meu avô.
Na última gestação, que foi gemelar, teve
um parto complicado, sendo que naquela época os partos eram feitos em casa por
parteiras e sem recurso algum que não fosse a experiência delas. Devido a
complicações, por causa de uma hemorragia, ficou com as pernas fracas. E por
conta desse problema, minha avó ficava sentada a maior parte do tempo enquanto
as filhas mais velhas ajudavam a cuidar dos mais novos.
Começou a fazer rendas de crochê. Tecia
metros e metros de delicadas peças, utilizando agulhas e linhas bem fininhas.
Eram trabalhos lindíssimos que ela
produzia sem parar. Fios entrelaçados habilmente e as rendas prontas eram
enroladas em pedaços de papelão. Entre os muitos metros de rendas brancas,
havia também as azuis, cor de rosas, amarelinhas, verdes, algumas mesclando
mais de uma cor, num arco-íris de encher os olhos.
Repartia os rolos de renda entre as filhas
prestes a se casar para que aplicassem nas peças do enxoval, toalhas de mesa,
de banho, panos de pratos. E mais tarde, para enfeitar os cueiros e mantas dos
bebês que iam chegando.
Outro dia, entre os guardados de minha mãe
já falecida, encontrei uma caixa repleta de rendas que para ela, eram
verdadeiros tesouros.
As de cor branca estavam amarelecidas pela
ação do tempo e as coloridas, um tanto desbotadas. Coloquei as brancas de molho
ao sol e voltaram à brancura original, e as de cor, tiveram seus tons
reavivados.
Ainda não decidi onde vou aplicá-las.
Penso que ficarão lindas nos vestidinhos das minhas netas, a quinta geração da
família.
Enquanto admiro o trabalho perfeito, fico
imaginando no que pensava minha avó enquanto tecia as rendas. Numa época em que
não existiam distrações e nem televisão, as mãos se ocupavam enquanto os
pensamentos voavam. No que pensaria minha avó?
A cada laçada, um suspiro, e o coração
cheio de amor, apesar das dificuldades.
Momentos de dor, de felicidade, de
saudade, todas as emoções afloradas e impregnadas nas tramas de cada peça, uma
diferente da outra.
E eu revejo minha avó ora sorrindo, ora
chorando, em seus metros e metros de sonhos tecidos à mão...
Herdei parte dessas rendas e costurei
vestidinhos enfeitados com elas para minha filha. Ela cresceu, se casou, teve
suas filhas, e pude ver minhas netas gêmeas usarem os mesmos vestidinhos,
quinta geração de mulheres da família.
Gratas memórias que guardo como um tesouro
no meu coração.



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