Rio Piracicaba

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

As rendas de minha avó


(Memórias afetivas) 

 Ivana Maria França de Negri

 

Não tive muito contato com minha avó materna, que faleceu quando eu contava apenas cinco anos de idade. Mas através de minha mãe, eu e meus irmãos, ouvíamos atentos as sagas familiares que ela ouvira desde criança.

Minha avó aportou no Brasil, recém-casada, vinda da Itália, aos dezoito anos. Nunca mais retornou ao seu país de origem que ficou guardado na memória e nas lembranças de infância.

Uma mulher muito bonita e determinada que enfrentou inúmeras dificuldades num país estranho, costumes e língua bem diferentes, e a saudade que teve de amargar pelo resto da vida da sua terra natal.

Os filhos foram chegando. Treze ao todo, mas vingaram dez.

Quanto trabalho, peças para cozer, tachos de doces, compotas, roupas para lavar, engomar, num tempo de dinheiro escasso. Mesmo com tantas crianças para cuidar, ainda sobrava-lhe tempo para bordar, tricotar e fazer crochê

Naquela época não havia empregadas, nem eletrodomésticos. Tudo era feito manualmente e em casa. As frutas e verduras vinham diretamente da horta do quintal, orgulho do meu avô.

Na última gestação, que foi gemelar, teve um parto complicado, sendo que naquela época os partos eram feitos em casa por parteiras e sem recurso algum que não fosse a experiência delas. Devido a complicações, por causa de uma hemorragia, ficou com as pernas fracas. E por conta desse problema, minha avó ficava sentada a maior parte do tempo enquanto as filhas mais velhas ajudavam a cuidar dos mais novos.

Começou a fazer rendas de crochê. Tecia metros e metros de delicadas peças, utilizando agulhas e linhas bem fininhas.

Eram trabalhos lindíssimos que ela produzia sem parar. Fios entrelaçados habilmente e as rendas prontas eram enroladas em pedaços de papelão. Entre os muitos metros de rendas brancas, havia também as azuis, cor de rosas, amarelinhas, verdes, algumas mesclando mais de uma cor, num arco-íris de encher os olhos.

Repartia os rolos de renda entre as filhas prestes a se casar para que aplicassem nas peças do enxoval, toalhas de mesa, de banho, panos de pratos. E mais tarde, para enfeitar os cueiros e mantas dos bebês que iam chegando.

Outro dia, entre os guardados de minha mãe já falecida, encontrei uma caixa repleta de rendas que para ela, eram verdadeiros tesouros.

As de cor branca estavam amarelecidas pela ação do tempo e as coloridas, um tanto desbotadas. Coloquei as brancas de molho ao sol e voltaram à brancura original, e as de cor, tiveram seus tons reavivados.

Ainda não decidi onde vou aplicá-las. Penso que ficarão lindas nos vestidinhos das minhas netas, a quinta geração da família.

Enquanto admiro o trabalho perfeito, fico imaginando no que pensava minha avó enquanto tecia as rendas. Numa época em que não existiam distrações e nem televisão, as mãos se ocupavam enquanto os pensamentos voavam. No que pensaria minha avó?

A cada laçada, um suspiro, e o coração cheio de amor, apesar das dificuldades. 

Momentos de dor, de felicidade, de saudade, todas as emoções afloradas e impregnadas nas tramas de cada peça, uma diferente da outra.

E eu revejo minha avó ora sorrindo, ora chorando, em seus metros e metros de sonhos tecidos à mão...

 


 

 

Herdei parte dessas rendas e costurei vestidinhos enfeitados com elas para minha filha. Ela cresceu, se casou, teve suas filhas, e pude ver minhas netas gêmeas usarem os mesmos vestidinhos, quinta geração de mulheres da família.  

Gratas memórias que guardo como um tesouro no meu coração.

 

 

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