(foto Arquivo Nacional)
Memórias
que permanecem: Ermelinda Ottoni e o sonho que atravessou gerações
por Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Algumas memórias
vivem em fotografias antigas, em cartas amareladas ou em objetos guardados ao
longo dos anos. Outras continuam vivas porque permanecem transformando pessoas.
Caminham pelos corredores de escolas, atravessam gerações e seguem produzindo
futuros. A história de Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz é uma dessas memórias.
Ermelinda nasceu
no Rio de Janeiro, em 1856, em uma família culta e influente. Desde muito jovem
conheceu diferentes lugares do mundo, viajando pela Europa, Estados Unidos e
Ásia. Aprendeu idiomas, observou culturas e descobriu que o mundo podia ser
muito maior do que os limites que a sociedade de seu tempo costumava impor às
mulheres.
Em 1880, casou-se
com Luiz Vicente de Souza Queiroz. Mais do que marido e esposa, os dois
tornaram-se companheiros de sonhos. Em uma época em que muitas mulheres
permaneciam em silêncio diante das decisões dos homens, Ermelinda caminhava ao
lado de Luiz. Participava das viagens, acompanhava projetos, compartilhava
ideias e ajudava a construir objetivos que os dois acreditavam em poder
transformar a realidade ao redor.
O casal desejava
uma cidade mais desenvolvida, humana e preparada para o futuro. Participaram de
iniciativas importantes para Piracicaba, contribuindo para melhorias que
mudariam a vida das pessoas. Mas existia um sonho ainda maior: criar uma escola
que ensinasse muito mais do que técnicas agrícolas. Queriam formar pessoas,
criar oportunidades e abrir caminhos para gerações que ainda nem haviam
nascido.
Movidos por esse
ideal, viajaram em busca de referências, estudaram modelos educacionais e
adquiriram a Fazenda São João da Montanha, local escolhido para o projeto da
futura escola agrícola. Em 1892, fizeram algo extraordinário: doaram a
propriedade ao governo com a condição de que ali surgisse uma escola dedicada
ao conhecimento e ao desenvolvimento do país.
Mas a vida nem
sempre acompanha os planos no tempo que desejamos. Em 1898, Luiz de Queiroz
faleceu antes de ver o sonho realizado. Poderia ter sido o fim daquela
história. Poderia ter sido apenas mais um projeto interrompido pelo destino.
Mas Ermelinda
escolheu continuar...
Entre a saudade e
a promessa feita ao companheiro de uma vida inteira, ela manteve acesa a chama
daquele propósito. Seguiu em frente levando consigo não apenas a memória de
Luiz, mas também a responsabilidade de proteger algo que pertencia aos dois.
Em 3 de junho de
1901, ela assistiu à inauguração da Escola Agrícola Luiz de Queiroz. Naquele
momento, não se inaugurava apenas uma instituição. Materializava-se um sonho
construído por duas pessoas que acreditaram que a educação poderia mudar vidas.
Ermelinda assinou o livro de inauguração da escola, sendo a única mulher.
Hoje a Esalq é uma
referência internacional, como centro de excelência em ensino, pesquisa e
extensão universitária.
Quem atravessa os caminhos da Escola talvez veja árvores, prédios e estudantes. Mas existe algo que não aparece imediatamente aos olhos. Em cada espaço permanece a memória silenciosa de uma mulher que recusou ocupar apenas o lugar que sua época lhe reservava. Ermelinda compreendeu algo que continua verdadeiro: sonhos podem sobreviver às pessoas e, quando cultivados com coragem e generosidade, tornam-se heranças capazes de atravessar o tempo.
O legado do casal
Queiroz se transformou em um sonho compartilhado que sobrevive por mais de cem
anos!
Ermelinda, uma mulher
especial que fez a diferença como protagonista de nossa história!
Ermelinda, uma mulher
especial que fez a diferença como protagonista de nossa história!
Ermelinda apresenta a seu esposo o
resultado de seu sonho


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