Elisabete Jurema Bortolin
Minha Experiência Vivida
na 197ª Festa do Divino Espirito Santo de Piracicaba
Os fogos de hoje, mesmo
que sem estampidos, são para lembrar as fogueiras do passado. Lembrando que foi
o então prefeito Viegas Muniz que instituiu o encontro dos barcos no Rio
Piracicaba, pela primeira vez, na festa de 1826.
Quando
a Bandeira escolhe seus guardiões
Ao lado do professor
Adolpho Queiroz, passamos a ser festeiros do Divino. E, sem que eu pudesse
imaginar, iniciava-se uma das mais profundas peregrinações da minha própria
vida.
Foi
a Bandeira quem me ensinou.
Levamos a bandeira a 70
lugares que conduziu meus passos por ruas antigas, bairros, igrejas, casas
simples, estabelecimentos comerciais e lugares onde a fé permanecia silenciosa,
mas viva. Em cada porta aberta, um olhar emocionado. Em cada abraço, uma
história. Em cada oração, a certeza de que o Espírito Santo continua
encontrando morada onde existe esperança.
Neste ano, a grande
atração do leilão foi uma Imagem de Nossa Senhora Aparecida, doada pelo cantor
Daniel, aliás José Daniel Camilo, que saiu de Brotas para encantar o Brasil, que
foi o maior arremate já conhecido na história da festa. Superando, em muito, os
lances dados para a compra das leitoas e outras prendas ofertadas.
O
encontro dos barcos
A experiência de ter ido
no Barco dos Irmãos do Rio de Cima, para encontrarmo-nos com os barcos dos
remadores, representando os Irmãos de Baixo, foi inesquecível.
Quando embarquei levando
a Bandeira-Mãe, compreendi que algumas experiências não cabem nas palavras.
O Rio Piracicaba parecia
guardar, em suas águas, a memória de quase duzentos anos de fé. Das pontes, das
margens e das embarcações surgiam aplausos, orações, lágrimas e sorrisos. A
cidade inteira parecia respirar no mesmo compasso.
No barco seguiam três
bandeiras. A tradição dizia que apenas a Bandeira-Mãe deveria navegar. Naquele
dia, porém, duas outras a acompanhavam.
Enquanto as observava
balançando ao vento, uma compreensão silenciosa tomou conta de mim. Não
procurei explicações. Apenas senti.
Ali estavam, para meu
coração, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
A Trindade navegava sobre
as águas do velho Piracicaba, restando apenas uma paz profunda.
No
ritmo da Congada
Após a missa da passagem
da bandeira para o próximo casal festeiro, acontece a Congada. Ver as
senhorinhas e senhorzinhos vestidos com traje oficial da festa. Roupa Branca,
com fitas vermelhas, gravatas cheias de medalhinhas, boina branca com o símbolo
da Irmandade, sapatos brancos e meias brancas. Um cuidado nas vestes que demonstram
o carinho, o amor pela festa de fé e tradição.
Nos passos
compassados dos congadeiros, nos bastões marcando o ritmo e, sobretudo, na
alegria serena estampada no rosto de homens e mulheres que mantêm viva uma
tradição secular.
Participei junto com o
pessoal quando foi aberta a roda para todos participarem. Ritmo suave, gostoso,
batida forte e firme.
Ser festeira
do Divino foi, para mim, muito mais do que uma honra. Foi uma convocação da
própria história de Piracicaba para que eu pudesse compreender, enfim, que a fé
também se escreve também se canta e também se navega.
Desde então,
a Festa do Divino deixou de ser um acontecimento do calendário.
Passou a habitar,
definitivamente, a memória e o coração.


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