Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria 2025/2028

Presidente: Raquel Araujo Delvaje Vice-presidente: Vitor Pires Vencovsky Diretora de Acervo: Christina Aparecida Negro Silva 1a secretária: Elisabete Jurema Bortolin 2a secretária: Ivana Maria França de Negri 1o tesoureiro: Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto 2o tesoureiro: Edson Rontani Junior Conselho fiscal: Antonio Carlos Fusatto Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal Cássio Camilo Almeida de Negri Jornalista responsável: Evaldo Vicente Responsável pela edição da Revista: Ivana Maria França de Negri Conselho editorial: Aracy Duarte Ferrari Eliete de Fatima Guarnieri Leda Coletti Lídia Sendin Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Caminhando e meditando

Cássio Camilo Almeida de Negri
Cadeira n° 20 - Patrono: Benedicto Evangelista da Costa
 Cai a tarde.
São mais ou menos dezoito horas, a hora da Ave-Maria.
Estou caminhando, como quase sempre faço, para exercitar o corpo físico, e lendo, ao mesmo tempo, para exercitar o intelecto.
Agora, sento-me no teatro de arena no Parque da Rua do Porto, bem embaixo de uma amoreira carregada de frutos, e que me cede algumas de suas delícias vermelhas, quase pretas.
À  minha direita, chega um passarinho para também comer amoras e me ensina uma grande lição. Esse ser alado come as amoras bem verdes e olha para mim como a me dizer:
–“  Você come as frutas vermelhas e eu as verdes. Qual a mais gostosa?”
Apanho uma fruta verde e ele voa para não sei onde, me deixando sem resposta.
Durante a caminhada, eu vinha lendo um artigo – não importa de que religião ou de qual filosofia –  que dizia ser aquela a verdadeira sabedoria, a verdade eterna, a verdadeira amora vermelha.
Mas, o passarinho gosta da verde...
Qual a melhor? A amoreira tem frutas verdes, vermelhas, e também, olhem no chão, tem as amoras pretas, bem podres, cheias de vermes que se deliciam com elas.
Qual a melhor? A vermelha, a verde, ou a preta?
Obrigado vermes, vocês também resolveram reforçar minha lição.
Todas as amoras vêm da mesma amoreira e nenhuma é melhor do que a outra.
Para mim, a melhor é a vermelha. Para o passarinho , a melhor é a verde. Para o verme, a melhor é a podre.
Assim são as religiões, as filosofias. Todas são ótimas para a pessoa certa, no momento certo, no lugar certo. A melhor é aquela que estou seguindo neste instante, pois não existe nenhuma superior a outra. Cristianismo, Budismo, Islamismo, Induísmo, Espiritismo e outros ismos e sofias, todas são boas para a pessoa certa, no momento certo, no local certo.
Devemos ter muito cuidado de não cairmos nessa arrogância sutil que é a arrogância espiritual de achar que só nós estamos com a verdade.
Seja a amora vermelha, verde ou podre, cada uma cumpre sua função. Basta abrir os olhos da intuição e “ ver” a lição, tão clara a sua frente.
Obrigado, amoreira. Obrigado, passarinho. Obrigado, verme. Vocês me ensinaram uma grande lição pela intuição, mais do que o livro que eu lia, pelo intelecto.
Ensinaram-me que tudo é benéfico no momento certo, no tempo certo, no lugar certo.
“ Quem tem olhos para ver, que veja!”

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

LIVRO COM PEZINHOS

Artigo da presidente da Academia Piracicabana de Letras no Jornal de Piracicaba (15/08/2012) a respeito do Projeto LIVRO COM PEZINHOS das escritoras acadêmicas Ivana Negri e Carmen Pilotto.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Arquipélago da Madeira: história, cultura e tradições

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado

(O presente texto, que é aqui publicado como especial homenagem ao Acadêmico Geraldo Victorino de França, cuja família é de origem madeirense, foi escrito a partir do texto reconstituído de uma conferência proferida pelo autor no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em sessão especial de “Homenagem aos Madeirenses que ajudaram a fazer a grandeza de São Paulo”, realizada no dia 5/6/2004.)
 O Arquipélago da Madeira teve – e de certa forma ainda tem – uma enorme importância na história do Brasil e na história de São Paulo. A participação dos madeirenses em nossa história é fundamental. Disse Gilberto Freyre que a Madeira é a irmã mais velha do Brasil. Isso é verdade. O arquipélago da Madeira foi descoberto (oficialmente, pelo menos) 80 anos antes de Cabral (também oficialmente...) descobrir o Brasil. Mas – segundo o mesmo Gilberto Freyre – a Madeira nunca tratou o Brasil como uma irmã trata seu irmão. Na realidade ela nos tratou com o carinho, com os desvelos, com os sacrifícios com que uma verdadeira mãe trata seus filhos.
Se nós percorrermos o longo e glorioso itinerário histórico da Madeira, veremos que sua história foi um longo e desinteressado sacrificar-se pelo irmão maior – como também, em medida menor, pelas outras parcelas do Império luso, que são outros tantos irmãos da Madeira. O Brasil, na verdade, foi o grande beneficiário da abnegação madeirense.
Curiosamente, e injustamente, ressalte-se, essa influência enorme da Madeira na história do Brasil é esquecida, é menosprezada entre nós. E mesmo na Madeira pouca gente tem noção da amplitude desse sacrifício multissecular. Fala-se muito, entre nós, da influência açoriana, especialmente no Nordeste, em São Paulo, e sobretudo na colonização de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Realmente, foi muito grande a influência açoriana, e nunca a louvaremos suficientemente. Mas da influência madeirense quase ninguém fala...
O Arquipélago da Madeira é composto, como é sabido de todos, pela Ilha da Madeira (a maior e mais importante); pela Ilha de Porto Santo; e pelas desabitadas Ilhas Desertas e Ilhas Selvagens.
A Ilha da Madeira, que mais diretamente nos interessa nesta exposição, foi descoberta em 1420 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, escudeiros do Infante D. Henrique, o Navegador. Já no ano anterior os dois, em companhia de Bartolomeu Perestrelo, haviam chegado à Ilha de Porto Santo. Mas só no ano seguinte chegariam à Madeira. Bartolomeu Perestrelo foi nomeado capitão donatário de Porto Santo. Quanto à Madeira, ela foi dividida, mais ou menos no seu sentido longitudinal, pelos dois descobridores. Zarco ficou com a parte sul, que viria a ter como capital Funchal, e Tristão Vaz ficou com a parte norte, sediando-se em Machico.
Do ponto de vista topográfico, as duas ilhas não poderiam ser mais diferentes. Enquanto Porto Santo é seca e pouco fértil – diz-se que constitui como que um prolongamento do Saara – a Madeira é montanhosa e de solos quimicamente muito férteis, se bem que topograficamente só com grande dificuldade aproveitáveis para a agricultura.
Para se ter uma ideia dessa dificuldade, note-se que a Ilha da Madeira é cerca de 600 vezes menor que o Estado de São Paulo. Toda a ilha caberia perfeitamente dentro da área do município de São Paulo. E, no entanto, é cortada no sentido longitudinal por uma cordilheira elevadíssima, com diversos picos de mais de 1500m de altitude, e um deles, o Pico Ruivo, chega a 1861m.
O resultado é que dessa ilha, já de si pequena, apenas 20% do solo pode ser aproveitado, e mesmo assim somente à custa de esforços inimagináveis para os homens de hoje em dia. Mas foram esforços à altura dos nossos maiores madeirenses.
Quando os portugueses chegaram à Ilha, ela era revestida de densas florestas. Numa primeira fase, foi preciso desbastá-las, para se poder cultivar a terra. Velha tradição, certamente muito exagerada, diz que toda a ilha foi incendiada por ordem de João Gonçalves Zarco, num incêndio que teria durado 7 anos. Que houve incêndios, é fato. Que houve imprudência nesses incêndios, é bem possível que tenha havido. Mas dizer que toda a floresta da ilha foi incendiada, isso é certamente exagero, porque é fato que a madeira da Ilha da Madeira foi explorada durante muito tempo pelos portugueses.
Tanta lenha de qualidade, em toras grossas e compridas, foi levada para Portugal (geralmente como lastro de embarcações) que muitas casas de um ou dois andares, reforçadas com toras trazidas da Ilha, puderam receber mais um ou dois pisos. E isso chegou a modificar o aspecto arquitetônico da cidade de Lisboa, como nota Azurara, que fala das "grandes alturas das casas que se vão ao céu, que se fizeram e fazem com a madeira daquela ilha" (citado por Enzo da Silveira).
Também a madeira de lei produzida pela Ilha permitiu ao Infante D. Henrique a construção de embarcações maiores, que desbravaram os mares de todo o mundo. Zarco e Tristão chegaram à Madeira em duas barcas de apenas 9 metros de comprimento, com uma única vela redonda, que não permitia a navegação contra o vento. Em parte graças à madeira da Ilha puderam ser construídas embarcações maiores, as famosas caravelas, com um sistema de velas que lhes permitia navegar contra o vento.
Era – notem os leitores – a Madeira que iniciava o cumprimento de sua vocação histórica: despojar-se de suas riquezas e empobrecer em benefício de outras parcelas do império luso. É a vocação da irmã mais velha que se sacrifica como se fosse a mãe...
Mas, prossigamos. Desbastada a floresta, era preciso aproveitar a pouca terra disponível, para alimentar os dois donatários, suas famílias e os numerosos colonos que eles levaram, a suas custas, para povoar a nova terra. Aí apareceu um problema terrível. Na Madeira, chovia muito, chovia até torrencialmente. Mas a água caía e não era retida pelo solo, escorrendo rapidamente para o mar e arrastando consigo a camada superior da terra, num processo de erosão que poderia ser fatal.
O que fizeram os portugueses para vencer esse problema? Planejaram cuidadosamente, e executaram laboriosamente um sistema de irrigação artificial que até hoje desperta admiração nos engenheiros que o examinam: o sistema das "levadas".
As levadas são regatos artificiais feitos para distribuir a água por toda a superfície agricultável da ilha. No alto das montanhas, a 600, 800 e até 1000 metros de altitude, foram feitos grandes reservatórios apropriados para reter a água das chuvas. E essa água era, depois, distribuída por riozinhos artificiais, condutos abertos que desciam as montanhas com uma inclinação muito suave, de modo a descer vagarosamente. As levadas têm, geralmente, menos de um metro de largura, e 50 ou 60 cm de profundidade. São talhadas no flanco das montanhas, muitas vezes em pedra viva e beirando precipícios de centenas de metros. Elas vão dando voltas às montanhas, sempre com inclinação muito suave, e por vezes se estendem por mais de 50 km. Frequentemente a topografia exigia que as levadas atravessassem túneis (alguns com mais de um quilômetro de extensão) para poderem prosseguir seu rumo. Eram os chamados "furados".
Imagine-se a extrema dificuldade que isso representou, para os recursos rudimentares da época!  A maior parte das levadas, com efeito, foi realizada ainda nos séculos XV e XVI, pela iniciativa privada dos donatários e outros sesmeiros, que depois vendiam a água aos que dela faziam uso. Só no início do século XIX o Estado português principiou a fazer levadas, que até então eram obra de particulares. As levadas madeirenses foram tão bem planejadas e tão bem executadas que ainda hoje, mais de 500 anos decorridos, estão funcionando e servindo perfeitamente.
Ter assim domado as águas na Madeira foi uma obra hercúlea, uma obra ciclópica, que bem mereceria ser mais conhecida e louvada a nível mundial.
Não foi só essa a obra dos madeirenses no campo da engenharia. Outra tarefa, talvez não menor, foi domar as montanhas. De fato, as montanhas da Madeira eram tão íngremes que não se prestavam à agricultura. Mas, à custa de esforços inenarráveis, os madeirenses foram esculpindo suas montanhas de forma a constituir patamares, ou socalcos, perfeitamente planos, sustentados por sólidos contrafortes de pedra. O resultado dessa obra titânica foi que a Madeira pôde aproveitar suas terras (que pela composição química eram muito férteis, de origem vulcânica), e começar a produzir alimentos de climas diversos, conforme a diferente altitude dos terrenos: desde coqueiros, ananases e bananas, de clima tropical, até uvas e trigo, que requerem climas mais temperados. Também esses contrafortes e esses socalcos ainda servem hoje em dia, tendo resistido a mais de 500 anos de chuvas torrenciais...
Mais uma vez, permitam os leitores que eu pergunte: por que, em nível mundial, não é mais conhecida e louvada essa obra-prima do engenho humano, da persistência humana?
No início do século XVI, o grande Afonso de Albuquerque concebeu e chegou a dar os primeiros passos para realizar um imenso projeto que poderia ter dado um golpe de morte ao Islã: abrir um canal que comunicasse o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, de modo a facilitar, à Cristandade, o acesso ao Oriente sem precisar dar a imensa volta pela África. Ou seja, construir o que depois foi o Canal de Suez, em pleno século XVI! Albuquerque chegou também a realizar estudos para um projeto ainda mais audacioso: ele planejou desviar o curso do Nilo, de modo a secar o Egito e, assim, quebrar o ponto central da forte tenaz muçulmana. Pois bem, esses projetos, que pareceriam impossíveis, não eram impossíveis. Em primeiro lugar, porque para homens como Albuquerque nada é impossível. Em segundo lugar, porque existiam os madeirenses. E Albuquerque, em carta ao Rei D. Manuel, propôs que essas obras ciclópicas fossem confiadas aos madeirenses, porque estes já tinham dado provas, na sua pequena ilha, do que eram capazes.
Prossigamos. A Madeira começou a plantar açúcar e a enriquecer-se prodigiosamente, ainda em meados do século XV. Mas, por mais que atraísse forasteiros (e foram numerosos os portugueses do continente e, mesmo, estrangeiros que para lá acorreram nessa fase), a população ainda era muito reduzida.
Por volta de 1460, os habitantes da Madeira eram somente 2310. O Duque D. Fernando ─ sucessor do Infante D. Henrique na administração da Ordem de Cristo, que exercia jurisdição temporal e espiritual sobre a Madeira ─ instituiu então um imposto que deveria ser pago, em trigo, somente pelos homens solteiros, para incentivá-los a se casarem. O resultado dessa medida foi eficacíssimo. 50 anos depois, a Madeira já tinha 15 mil habitantes. O crescimento, em cinco décadas, foi da ordem de 650% – um dos maiores verificados na história. E, a partir daí, a população foi crescendo cada vez mais, pois os madeirenses habitualmente casam cedo e são muito prolíficos.
A Madeira conheceu, então, um curto período de grande riqueza e prosperidade, graças ao seu açúcar de excelente qualidade, que era vendido para a Europa inteira. Também os vinhos finos da Madeira passaram a ser consumidos na Europa, sendo muito valorizados.
Dois curiosos indícios da fama dos vinhos madeirenses: numa das peças de Shakespeare, um personagem, Sir John Falstaff, aparece vendendo sua alma ao demônio em troca de uma perna de frango e um cálice de vinho da Madeira. E quando o duque de Clarence, na Inglaterra, foi condenado à morte por se ter envolvido numa conspiração contra a coroa, teve o privilégio de escolher como seria executado. E, segundo se conta, ele teria pedido para morrer afogado num tonel de vinho Malvasia, da Ilha da Madeira... O pior é que o coitado foi realmente afogado, mas de cabeça para baixo, de modo que estragou o vinho e nem sequer pode saboreá-lo na hora da morte!
Em 1514, ainda nessa fase de grande prosperidade, foi criada a Diocese do Funchal, que foi, até 1533, a maior diocese do mundo, a maior diocese que já existiu em toda a História da Igreja Católica. O Bispo da Madeira tinha jurisdição, conferida pelo Papa, sobre todos os domínios ultramarinos portugueses. Até onde chegasse uma caravela portuguesa, lá chegava a autoridade desse Bispo: Brasil, África, Índia, Extremo Oriente. O Brasil inteiro fez parte da Diocese do Funchal até 1551, quando foi criada a Diocese da Bahia.
Ora, que fez a Madeira nesse período áureo? Guardou ciosa e egoisticamente para si suas imensas riquezas, para fruí-las como merecida recompensa pelos trabalhos colossais que já tinha realizado? Não. Mas portou-se como mãe de seus irmãos menores. Sacrificou-se por eles. Ofereceu a eles seus tesouros, sem se preocupar com a concorrência que eles mesmos lhe fariam num futuro muito próximo.
O açúcar, a maior riqueza da ilha, foi levado, por madeirenses, inicialmente para os Açores, cuja primeira ilha foi atingida pelos portugueses em 1432. Aliás, a Madeira contribuiu poderosamente para o povoamento e colonização dos Açores numa fase em que ela própria lutava contra a carência de população. Em 1473, Rui Gonçalves da Câmara, filho de João Gonçalves Zarco, adquiriu os direitos sobre a capitania de São Miguel dos Açores, e para lá foi com sua gente, dando assim início à Diáspora Madeirense.
Não foi só para os Açores que a Madeira exportou o açúcar e, com ele, a tecnologia da sua fabricação. Também para Cabo Verde, Canárias, São Tomé e, sobretudo, para o Brasil. No Brasil, as condições favoráveis permitiram que o açúcar fosse produzido em muito maior escala e a preço muito mais reduzido, o que determinou a quebra da economia madeirense. Já no final do século XVI o Brasil havia ultrapassado a Madeira na produção açucareira.
A Madeira, que havia se desgastado muito plantando quase exclusivamente cana-de-açúcar nas partes mais baixas, e uvas nos socalcos mais elevados, e que, por outro lado, ia tendo sua população cada vez mais numerosa, começou a sofrer as consequências disso.
Excetuando o período da Guerra de Pernambuco, quando caiu a produção brasileira e a madeirense teve uma relativa valorização, foi de decadência o século XVII. Em certas fases críticas, chegou a haver fome na Madeira. A base da alimentação popular era o inhame – o cará – alimento nutritivo mas de produção muito incerta, pois depende das chuvas e do clima. O resultado é que em períodos nos quais as condições climáticas eram desfavoráveis, houve fome, e fome terrível.
Os Açores produziam ótimo trigo, mas esse trigo era reservado para outras partes do Império luso que passavam por necessidades prementes. E na Madeira houve fome. O recurso dos madeirenses era apresarem navios carregados de mantimentos que por alguma razão entravam no Funchal. Era esse o recurso desesperado. Esses mantimentos eram pagos, não eram roubados, pois paradoxalmente não era dinheiro que faltava, era comida.
Em 1695, num momento de mais terrível aflição, os habitantes do Funchal, desesperados, resolveram recorrer a Nossa Senhora do Monte. A imagem da Virgem foi levada, do seu santuário para o centro da cidade, em procissão. A Virgem valeu aos madeirenses, e justamente nessa hora entraram no porto três navios, abarrotados de trigo e de farinha. Foi a partir daí que a devoção a Nossa Senhora do Monte, que já era tradicional na Madeira, teve grande incremento e se transformou na devoção marial por excelência, do madeirense.
Aonde chegaram os madeirenses, lá chegou a devoção a Nossa Senhora do Monte. Até no longínquo Havaí existe um santuário de Nossa Senhora do Monte, erigido por descendentes de madeirenses. E aqui na Casa da Ilha da Madeira de São Paulo, num altar, estão, lado a lado, duas imagens de Nossa Senhora, a do Monte e a de Fátima.
No século XVIII foi-se acentuando o regime de fomes periódicas. Um estudo de meados desse século revela que a alimentação que os madeirenses obtinham, ou da própria ilha, ou trazida de outros locais, era suficiente apenas para alimentar 20 mil pessoas. Ora, a população da ilha era, nessa altura, de 50 mil pessoas, do que deduz que, em média, o madeirense comia apenas 40% daquilo que precisava comer.
Sem dúvida, pode ser um pouco exagerado esse cálculo, pois as estatísticas desse tipo habitualmente ignoram outros meios ─ digamos, paralelos ou alternativos – de se obterem alimentos: hortas caseiras, pequenas criações etc. Ainda hoje, quem lê sem espírito crítico certos estudos da FAO ou certas publicações demagógicas acredita que, no Brasil atual, 30 ou 40 por cento dos habitantes são desnutridos!...
 Mas, exageros à parte, não deixa de ser uma triste realidade que houve fome na Madeira, e que, em consequência disso era elevada a taxa de mortalidade. Mas, graças à tradicional prolificidade dos madeirenses, a população continuava a crescer. E, portanto, a agravar o problema das fomes periódicas.
Foi então que a Coroa portuguesa resolveu realizar a transferência maciça de madeirenses (como também de açorianos) para o sul do Brasil. Foram os famosos "casais" que povoaram a ilha de Santa Catarina e a região do Porto dos Casais (atual Porto Alegre). Com isso, não somente se aliviava o problema populacional das ilhas, mas também se garantia a ocupação do sul do Brasil, disputado à Espanha. Era mais um serviço que a Madeira prestava ao império luso e ao Brasil.
Note-se um pormenor muito importante: essa transferência dos casais teve início em 1747, precisamente na fase de maior esplendor das Minas. Era pelas Minas Gerais que os imigrantes portugueses sentiam maior atração, pois lá é que o enriquecimento podia ser mais rápido. Mas foi para o sul, para o que era então a parte mais dura da tarefa que foram os madeirenses, como também os seus irmãos, os não menos heroicos açorianos.
Um outro aspecto que deve ser lembrado, ainda na linha da dedicação do Arquipélago da Madeira a seus "irmãos menores", e especialmente ao Brasil, é a participação intensíssima de madeirenses para a defesa do Império luso contra seus inimigos. Aqui no Brasil foi enorme a participação deles nas lutas contra franceses, no Rio e no Maranhão, e contra holandeses, na Bahia e em Pernambuco. Entre muitos outros, basta lembrar os nomes do João Fernandes Vieira, nascido na Madeira, e André Vidal de Negreiros, cuja mãe era natural de Porto Santo.
Houve vários madeirenses que, na fase pior da luta contra os holandeses, quando parecia definitivamente implantada a dominação holandesa em Pernambuco (a ponto de o Padre Antônio Vieira considerar fato consumado e irreversível a existência de um Brasil holandês), armaram homens, fretaram navios e vieram por conta própria fazer guerra aos invasores. No Maranhão, um madeirense encabeçou a luta contra os franceses e os expulsou definitivamente. Assumiu o governo da capitania por aclamação popular e entregou-a depois às autoridades mandadas pelo Rei. Com isso, ficou arruinado economicamente, mas cumpriu o que julgava ser o seu dever.
Ao longo dos séculos XIX e XX, ainda prosseguiu a Diáspora. Para o Brasil, e depois para a Austrália, para a África do Sul, para o Canadá, para os Estados Unidos, a Madeira foi exportando o que tinha de melhor, ou seja, precisamente seus filhos mais capazes, com mais espírito empreendedor e iniciativa.
E por toda parte se foi fixando o emigrante madeirense, levando consigo o drama e a tragédia que representa, para todo ser humano cônscio de suas origens e de suas tradições – e o madeirense é bem assim – o romper violentamente com o torrão natal, sem nunca esquecer dele e levando sempre na alma a nostalgia do lar paterno, da aldeia nativa.
Maria Lamas registra em “O Arquipélago da Madeira, maravilha atlântica” numerosos casos de emigrantes que viajavam à procura de melhores condições de vida, deixando na Madeira esposa e filhos, na esperança de mais tarde poder regressar ou, talvez, chamá-los. Frequentemente acontecia – sobretudo no passado, quando as comunicações eram mais difíceis – que a família nunca mais tinha notícias. Muitos, aliás, dos que partiam eram analfabetos e nem lhes ocorria escrever para suas esposas, também analfabetas. Havia casos de rapazes que casavam e partiam para o estrangeiro logo na semana seguinte ao casamento. A esposa esperava, paciente e fielmente, o retorno do marido, vestida de preto, como se fosse viúva, até que, 30, 40 ou 50 anos depois, se convencia de que era realmente viúva. A "viuvinha", jovem vestida de preto, acabou se tornando figura típica no folclore madeirense. São os dramas da emigração...
Curiosamente, os emigrantes madeirenses, onde quer que estejam, na hora de casar tendem a procurar moças madeirenses, ou de origem madeirense. Essa tendência é muito antiga. Os jornais da Madeira frequentemente publicam, ainda hoje, anúncios de madeirenses bem sucedidos na vida que, nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália, ou em qualquer outra parte, desejam casar e pedem, por anúncios, que se apresentem candidatas.
Foi muito grande a participação da Madeira no Brasil, e especificamente em São Paulo, na constituição populacional. Numerosas famílias brasileiras têm origem mais remota ou mais próxima, na Madeira. Pode-se com segurança afirmar que não há família tradicional paulista, mineira ou nordestina (para falar só nestas) que não tenha sangue madeirense nas veias.
Muito resumidamente, foi assim que se formou a alma madeirense. O caráter e a têmpera do madeirense se forjaram na luta, no enfrentamento dos obstáculos da natureza, das circunstâncias desfavoráveis da economia.
Essa a raiz das grandes qualidades do madeirense: coragem, gosto pela aventura, espírito empreendedor, amor ao trabalho, à família e ao torrão natal, lealdade, espírito independente e até desafiador, sem embargo de ser polido e delicado. Como todos os viajantes da Madeira assinalaram, o madeirense, mesmo quando rústico, é extremamente cuidadoso em tratar bem os outros.
Um viajante inglês de princípios do século XIX notou que os madeirenses tiravam o chapéu para qualquer senhora com quem cruzavam na rua, mesmo que não a conhecessem. E não tiravam o chapéu para as estrangeiras. Perguntou o porquê disso e ficou sabendo que os madeirenses gostariam de tirar os chapéus também para as estrangeiras, mas como haviam notado que os estrangeiros eram muito pouco educados e não tiravam o chapéu para as senhoras portuguesas a quem não haviam sido apresentados, os madeirenses haviam resolvido lhes pagar na mesma moeda.
Realmente, o espírito madeirense é delicado e facilmente tende para o lirismo. A poesia popular madeirense é rica e sugestiva.
Além de delicado, o madeirense é refinado. Até pessoas muito simples, por vezes analfabetas, possuem um senso artístico notável e um bom gosto que encanta os estrangeiros que visitam a Madeira. Basta lembrar a tradicional arte dos bordados e os encantadores jardins da Ilha, cobertos de flores maravilhosas.
Curiosamente, em meio a tanta luta e a tanta tragédia, o madeirense não é triste. Ele é alegre, gosta de cantar, de dançar. Seu folclore é riquíssimo. Essa é a alma madeirense. Essa a alma que desejo homenagear, por tudo quanto a Madeira, nossa irmã mais velha, fez pelo Brasil e fez por São Paulo.




sábado, 11 de agosto de 2012

Medalha de Mérito Prudente de Moraes - no IHGP

Toshio Icizuca
Patrono: Elias de Melo Ayres
Cadeira no 38

O acadêmico da APL Toshio Icizuca recebeu a Medalha de Mérito Pudente de Moraes que é concedida a pessoas que contribuem com a cidade. Além de Toshio, foram agraciados o educador, historiador e teólogo Noedi Monteiro e também o administrador de empresas Renato Leme Ferrari.
A solenidade, que também marcou os 45 anos da entidade e posse do novo presidente,  ocorreu em sessão magna nas dependências da  Biblioteca Municipal.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Declaração de amor aos livros

 Gustavo Jacques Dias Alvim Cadeira n° 29 
 Patrona: Laudelina Cotrim de Castro

Desde minha tenra idade, o mundo das letras, palavras e frases fascina-me. Fui apresentado a esse empolgante universo pela minha mãe, inicialmente no lar, por meios lúdicos, folheando livros e revistas, fazendo desenhos, recortes e pinturas, e, depois, aos sete anos, por ela mesma, no Grupo Escolar “Castro Alves”, em Vera Cruz, pequena cidade paulista, onde nasci, e no qual tive a alegria de tê-la como professora do primeiro ano primário. Foi, portanto, a minha querida e saudosa genitora quem me alfabetizou, usando a “Cartilha Ativa”, cujo método era o sintético, responsável pela leitura rápida que adquiri.
A partir daí, apaixonei-me pela leitura. Estimulado pelos meus pais, também leitores contumazes, tornei-me grande amigo de livros, revistas e tudo o que fosse material impresso.  Ainda cursando o primário, pude ler os livros mais importantes para crianças então publicados. Devorei, dentre outras, as famosas obras de Monteiro Lobato, com as suas inesquecíveis personagens: Narizinho, Dona Benta, Visconde de Sabugosa, bem como “Os doze trabalhos de Hércules” correspondendo a uma dúzia de volumes, e vários outros livros de história, dos quais me lembro de: “Reinações de Narizinho”, “Caçadas de Pedrinho”, “O Pica-pau Amarelo”, “Jeca Tatu”, “A Ilha do Tesouro”, “Viagens de Gulliver”, dentre muitos outros. Além disso, minha família assinava revistas infantis, famosas e de grande circulação, que esperávamos mensalmente, vindas pelo correio, como o “Tico-tico” (com histórias do Zé Macaco e Faustina; Chiquinho; Reco-reco, Bolão e Azeitona), “Globo Juvenil”, “Gibi” e muitas outras de cunho moral, cívico, religioso ou de simples entretenimento. 
Lembro-me, também, que meu pai era assinante da “Folha da Manhã” (atualmente, “Folha de São Paulo”), jornal diário que chegava da capital paulista pelo trem do final da tarde, com notícias do dia anterior, que era lido avidamente por ele, e igualmente da” Voz de Vera Cruz”, este de circulação dominical, do qual meu progenitor era colaborador.  Eu gostava de dar uma olhada nos dois jornais e ler neles o que me parecia interessante. Foi esse contato prematuro e despretensioso com os periódicos que me propiciou o único vício: ler jornais diariamente.  Quando não posso fazê-lo parece-me que está faltando algo. Se não posso lê-los, guardo-os para dar uma repassada em outro momento, antes de me desfazer deles. Antigamente, quando a tinta dos jornais tinha um cheiro mais forte, eu dizia que era esse odor o que me atraía. Posso dizer que leio jornais desde meus dez anos de idade.
Outro fato interessante, que confirma o meu amor pela leitura e que me faz também voltar à pré-adolescência, foi a transformação da minha incipiente biblioteca, para torná-la um espaço público. Minha família havia se mudado para Piracicaba, onde, inicialmente, moramos numa casa antiga, espaçosa, com garage, grande quintal, pomar, horta, galinheiro, quartinho para despejo e pátio cimentado para jogar bola, andar de bicicleta etc. Havia também, construídos separadamente da casa, mais quatro cômodos, três dos quais usados para instalar o consultório médico do meu pai, destinando-se o que sobrava para ser o local dos brinquedos, onde jogávamos, principalmente, futebol de botão, com participação de vários amigos, meninos vizinhos de quarteirão. Nesse quarto, cujo pé-direito era bastante alto, numa estante com várias prateleiras espaçosas, que iam até o teto, a gente guardava os livros. Os meus amigos, que iam para minha casa disputar os campeonatos de futebol de botão, não resistiam ao desejo de folhear ou de ler aquelas publicações, atraentes, às quais muitos deles não tinham acesso por falta de condições econômico-financeiras. Não era incomum um ou outro pedir emprestado para levar para suas casas algum volume. Isso me deu a idéia de organizar uma biblioteca. Com a ajuda de meu irmão, encapamos todos os livros com papel pardo, numeramos os livros e revistas, colando nela algarismos recortados de outros impressos para identificá-los, fizemos o cadastro das obras, bem como dos consulentes. Para ter o direito de retirar o livro e levá-lo para casa, por prazo determinado, o interessado tinha de se associar à biblioteca e pagar uma pequena taxa mensal, que era integralmente revertida para a ampliação do acervo. A iniciativa foi um sucesso e, indubitavelmente, serviu para difundir o gosto pela leitura.
É sabido que a leitura é imprescindível e primordial na formação de um escritor. Para escrever bem é preciso ler muito; não ter preguiça de consultar dicionário, nem de reescrever muitas vezes o mesmo texto. Porque eu comecei a ler muito cedo, também iniciei meus textos poéticos aos onze anos de idade. Fiz poesia na infância e na adolescência e somente nesse período. Escrevi para jornaizinhos escolares e tive o meu primeiro trabalho impresso publicado no “Diário de Piracicaba”, aos 16 anos, por ter obtido uma menção honrosa num concurso de contos de Natal, promovido por esse jornal já extinto.
Nunca mais parei de escrever. Com 20 anos, morando e estudando em São Paulo, fui contratado como revisor de uma revista; dois anos depois eu era o seu diretor-redator. Por onde passei, escolas, empresas, igreja, eventos, clubes, eu semeei jornais. Fui fundador e sócio-proprietário de “A Província”, juntamente com Cecílio Elias Netto. Escrevi livros. Fiz a edição de muitos outros. Para onde eu vou, levo comigo algo para ler. Estimulo pessoas a lerem. Vibro quando vejo meu neto e minha neta lendo seus livros, juntando dinheiro para comprá-los ou indo ao dentista com um deles sob o braço.
Amo meus livros, adoro a minha modesta biblioteca! O mundo das letras é o meu mundo!

Pai Saudade

Felisbino de Almeida Leme
Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Neto

Pai  saudade,
Minha gratidão.
Tanta bondade,
Enorme coração.

Músico famoso,
Soletrava melodia.
Homem carinhoso,
No saxofone comovia.

Prece de louvor,
Ao pai vivo ou falecido.
Orando com amor ,
Pelo PAI serei atendido.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

PIRACICABA, TERRA DO MEU AMOR

Maria Helena Vieira Aguiar Corazza
Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz      
            Mais um ano de existência, Piracicaba (duzentos e quarenta e cinco para ser mais exata...), terra dos meus sonhos, dos meus grandes amores e dos encantadores descobrimentos da minha vida (e dos tristes também...).  Mais um ano para enaltecer e abençoar ser sua filha e acordar todas as manhãs sob seu céu de um azul infinito e de seu sol dourado pintando os telhados que vislumbro ao abrir minha janela, que me extasiam sem me cansar uma vez sequer dando-me a certeza que aqui nasci para cada dia a mais em minha vida, me deslumbrar com a riqueza desta terra “cheia de flores, de encantos, de prados, de campos, montes e horizontes,” a se esparramarem em cada canto, em cada esquina, em cada lugar, do centro ao arrabalde, dos bairros, os mais modestos aos mais abastados, com tanta gente batalhando quer nas alegrias como nas adversidades, a magnitude que traz este ar contagiante e impregnado de tanta ternura e de tantas emoções que minha terra natal possui!
            Tudo em minha terra me dá a certeza, que mesmo neste tempo de grandes distúrbios e amarguras pelos qual o mundo passa jamais os colocarei acima do que sinto por ela, (pois é impossível deletar seu passado glorioso), as tristezas que magoam o meu cotidiano, como a violência, as lagrimas, os sofrimentos e as tragédias que teimam diariamente em querer estragar a grande sorte de ter nascido aqui, mesmo confessando que a vida assim como está anda me amedrontando e amedrontando seus habitantes, nos inesperados infortúnios que a maldade de tantos infelizes e “doentes de desamor” derramam a cada instante, sem nexo nem por que. Minha Piracicaba tão linda e tão pródiga em suas belezas me faz recusar (sem poder ignorar, porém), cada notícia desalmada, cada gesto inconseqüente, cada atitude tresloucada, cada agressão desmesurada espalhados nos mais diversos lugares deste planeta tão sofrido, para que eles não me distraiam da grande graça que recebi de Deus de estar aqui, eu que a conheço desde antigamente com suas ruas de pó, ao paralelepípedo e ao asfalto, depois às avenidas, as construções arrojadas e as pontes, seu transito pacato de antes, ao absurdo atravancamento do “rush” de agora, quando ansiamos voltar para nossos lares, nossas casas, famílias que construímos aqui torcendo e rezando para que retornem ilesos e saudáveis após mais um dia de trabalho.
            E, meu rio então? Como não amar suas paisagens pintadas do verde das vegetações por onde ele passa cantando como um amante apaixonado e incansável deixando em suas margens as marcas do tempo que não pára, mas que ele não se deixa deter em seu rumo, no propósito de continuar seu curso predestinado e majestoso...
            Mais um ano de existência Piracicaba, minha terra adorada que acolhe um povo que acredita num futuro repleto de esperanças realizáveis, uma terra abençoada que aconchega e se orgulha de seus escritores e poetas que escrevem a sua história e a declamam, os pintores que a retratam, os músicos que a compõem e as vozes que a cantam, dos trabalhadores incansáveis, responsáveis pelo seu progresso, aos que se dedicam a ensinar, apesar de tão injustiçados, aos que desejam aprender para se aprimorar e engrandecer o amanhã, dos batalhadores que lutam pelas causas sociais tão carentes, necessitadas, sofridas e desajustadas...  Essa gente que passa por mim todos os dias e que eu respeito amo e admiro... Tanto a declarar e a testemunhar, tanto a torcer, orar e desejar melhorar sempre! Terra dos meus sonhos e dos meus ideais, da minha trajetória, dos meus amores e dos meus ais... Parabéns por mais este aniversário, minha amada e linda Piracicaba, terra do meu amor! 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

À Tarde

João Baptista de Souza Negreiros Athayde 
Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira


O doce encanto da tarde calma
me alcança a alma sempre a cismar
O ameno enlevo do dia exangue
me agita o sangue, me faz poetar

Será, talvez, por que sem alarde
o fim da tarde desperta amores?
Será, talvez, que essa estranha hora
nos traz de fora tamanhas dores?

Quem sabe, enfim, donde vem um poema?
(atroz dilema que a alma assola)
Talvez do Olimpo onde as Musas cantam
e a voz levantam em barcarola

Talvez das cores, dos sons vagantes
desses instantes de inquietação
Talvez do pranto do povo inerme
que feito verme rasteja em vão

Talvez das iras da populaça
que toma a praça p´ra protestar
Talvez do grito dos que têm fome
que nem têm nome p´ra assinar

Quem sabe venha desse delírio
que só o martírio sabe plantar?
A fronte curva-se a tal enredo
Pesa o segredo, qual canitar

Entanto, eu sei que a poesia existe!
Alegre ou triste é potente voz
que vem do abismo, ou que vem do espaço
Num longo traço se estende após.

Mas, nessas horas da tarde calma
se agita a alma num tom disperso
Então descubro que, sem alarde,
na branca tarde fala o Universo. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Ameaças ao meio ambiente


Geraldo Victorino de França
Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior

      No final do século XX os cientistas chegaram à constatação da fragilidade dos ambientes, tanto terrestres como aquáticos, ameaçados pela poluição e pelo aquecimento global.
       As florestas tropicais, que fornecem a maior parte do oxigênio necessário à respiração dos seres vivos, estão sendo devastadas, principalmente na África, na América do Sul e no Sudeste da Ásia. A camada de ozônio que nos protegia contra as radiações nocivas, como os raios ultra-violeta, está ficando cada vez menor.
        Os problemas ambientais têm origem no mau uso do solo e no aumento da industrialização. A erosão do solo e a mineração a céu aberto deixaram cicatrizes na área rural. Na zona urbana, as cidades foram crescendo e as fábricas e veículos foram se multiplicando, liberando substâncias tóxicas no ar. Com a tendência de outros países também se desenvolverem,  aumentando a industrialização, a poluição poderá levar a Terra a uma catástrofe ecológica.
       A poluição do ar é causada por várias fontes: a) motores de combustão interna, que produzem dióxido de carbono, hidrocarbonetos e óxidos de nitrogênio; b) usinas elétricas movidas a carvão e outros processos industriais que liberam óxidos de enxofre e nitrogênio que, combinados à umidade atmosférica, produzem os ácidos sulfúrico e nítrico, ocasionando as chamadas "chuvas ácidas", que causam sérios danos às plantas e aos animais; c) queimadas anuais de restos de culturas e sobras de capim das pastagens, que produzem fuligem e gases tóxicos.
        A poluição da água é provocada por resíduos industriais e domésticos, bem como vazamentos de navios e tubulações, causando sérios danos às várias formas de vida aquática.
        A poluição do solo é causada principalmente pelo uso de agrotóxicos ou defensivos agrícolas – inseticidas, fungicidas, herbicidas etc.
       Em consequência da emissão de gases na atmosfera, ocorre o chamado "efeito estufa", que provoca o aquecimento global – processo lento e gradual. As temperaturas médias da Terra aumentaram cerca de 0,5 graus centígrados no último século. Os cientistas preveem que se o clima continuar a se tornar mais quente, as geleiras das calotas polares tendem a derreter-se e a liberar mais água para os oceanos, elevando o nível dos mares. A projeção para o futuro é preocupante, podendo ocorrer o desaparecimento das ilhas baixas e a inundação de cidades litorâneas, como Veneza, Rio de Janeiro, Santos, Nova York etc.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Medicina, realidade, problemas e soluções

 Antonio Carlos Neder
Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Parece haver hoje em nosso país uma política deliberada de desqualificação da medicina e dos médicos.
A despeito de ser ainda centro de excelência e referência mundial em várias especialidades, o Brasil coloca o seu sistema em xeque dia a dia, por equívocos ou falta de visão de parte dos gestores.
Atualmente, um grande vilão da desconstrução da medicina é o aparelho formador. A abertura indiscriminada de escolas de medicina não foi enfrentada com a devida seriedade e os resultados são nefastos.
Partindo da ideia de que a problemática da educação em qualquer país é consequência e não causa da situação sócio-econômica, cultural e política, deveríamos debater alguns dados para podermos compreender os rumos do ensino superior em geral, e do ensino médico, em particular.
Ao passar do tempo, verificamos que a transmissão da cultura, compromisso tradicional da Universidade, foi cedendo lugar à filosofia de preenchimento das necessidades imediatas. Substituiu-se a ética do ser pela ética do ter.
O aluno é tido como um produto para o mercado de trabalho. Os vestibulandos passam a procurar profissões cuja imagem é de sucesso no campo econômico e social.
Não se indaga se o aluno tem aptidão para determinada profissão, quais suas capacidades, tendências, indicações ou vontades.
Na saúde, existe a necessidade de generalistas, mas formam-se especialistas. Há necessidade de dar mais atenção aos problemas coletivos, mas os formandos são orientados para os problemas individuais.
Mesmo mal orientados quanto a sua formação e objetivos coletivos, os formandos não possuem em sua grande maioria mínimas condições para atendimento clínico.
Recente avaliação do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, com estudantes do sexto ano, portanto formandos, atestou que quase 50% deles não sabe interpretar radiografia ou fazer diagnóstico após receber informações dos pacientes.
Também, cerca de metade administraria tratamento impreciso para infecção na garganta, meningite e sífilis. Ainda não seria capaz de identificar febre alta como fator que eleva o risco de infecção grave em bebê.
O baixo percentual de acertos em campos essenciais da medicina, como Saúde Pública (49% de acertos), obstetrícia (54%), clínica médica (56,50%) e pediatria (50,30%) é alarmante.
Esses dados reforçam ainda mais a idéia de que é necessário que o formando realize pelo menos um ano de clínica médica antes de ingressar no atendimento da população.
Aliás, os índices de reprovação, desde que a avaliação foi criada em 2007, mostram que muitos novos médicos não estão preparados para exercer a profissão. Some-se a esses problemas de má formação profissional, a deficiência já citada da Residência Médica, onde quase 50% dos formados não conseguem por vários motivos obte-la.
De certa forma, a responsabilidade não é só dos formados que pagam mensalidades caríssimas, convictos de que receberam conhecimentos suficientes para bem servir ao próximo. É fruto da mercantilização do ensino médico.
 A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Panamericana de Saúde (OPS) concluíram que dos aproximados 15 mil médicos formados anualmente apenas 53% deles alcançam a Residência Médica 1, e 47% não o fazem por vários motivos e partem ainda assim, respaldados por Lei, a realizar atendimentos clínicos, sem o mínimo de conhecimentos. Porém, mesmo sendo apenas bacharéis em medicina são favorecidos e exercem a profissão, em detrimento da população menos favorecida.
Quando lembramos que os alunos do sexto ano, formandos, possuem baixo rendimento comprovado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, algo deve ser feito em prol da Saúde Pública, com urgência. Temos o exemplo da OAB, que graças ao enorme número de faculdades de Direito, exige uma reavaliação dos conhecimentos dos formados, através do exame da Ordem.
Algo parecido precisa urgentemente ser feito na área médica, pois o número de faculdades de medicina cresceu desordenadamente, muitas delas sem condições reais de funcionamento. Há de se encontrar uma forma para filtrar os formados, protegendo assim a população menos favorecida.
Faz tempo que as Escolas Médicas são abertas com qualidade absolutamente contestável. Além disso, existem regiões do país que estão superlotadas de Faculdades, em detrimento das regiões norte-nordeste, onde a deficiência de Faculdades é enorme.
Não discutimos a quantidade de médicos formados, mas sim a sua capacidade para atender clinicamente a população.
O excesso de médicos nas regiões sudeste e sul do país  é comprovado pela OMS e pela OPS. Segundo essas organizações, o número de pacientes por médico deveria ser de 3 mil e, no entanto, a média é de 400 pacientes, o que mostra o número elevado de médicos nessas regiões. Em contrapartida, no norte-nordeste é aproximadamente de 12 mil, o que demonstra a falta de médicos naquelas regiões.
Além do fator político, na criação de novas faculdades de medicina, predomina o fator mercantilizante, que muitas vezes é unido ao fator político. A maioria das faculdades de medicina é autorizada a funcionar sem possuir ao seu lado um hospital-escola, com corpo docente e capacitação discutível. Falhas na grade pedagógica, além de outros problemas. Em tempo, não podemos confundir a existência de um Hospital com um Hospital Escola, que é inteiramente voltado ao atendimento da Faculdade.
Dessas faculdades mambembes, saem todos os anos profissionais de formação falha. Não dá para fechar os olhos, pois isso é um risco para a vida de todos os cidadãos.
Para agravar a situação, o perigo não mora só aqui, também vem de fora. Nos últimos dias, por exemplo, foi noticiado amplamente que o Governo Federal adotará nova estratégia para facilitar a revalidação de diplomas de médicos brasileiros formados na Escola Latino Americana de Medicina de Cuba.
Com recurso de nossos impostos, eles farão estágios em hospitais públicos, recebendo bolsas, enquanto fazem cursinho de reforço para se preparar para uma prova de revalidação do diploma. Ressalto que a revalidação desses diplomas de médicos estrangeiros, e principalmente de brasileiros formados em outros países, é um processo democrático, contudo são necessárias regras rígidas para não expor os cidadãos à incompetência profissional oriunda de modelos de formação inadequada ou insuficiente.
Como se já não bastassem os nossos problemas para cuidar da formação dos nossos médicos, readequando nossas Faculdades de medicina, dando ao produto final mais qualidade para o atendimento da população, eis que temos ainda que absorver problemas que vêm do exterior para o nosso país.
Tenta-se na atual conjuntura mais um remédio para esconder a incompetência com que se concebem políticas consistentes para garantir a universalidade e integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS).
Busca-se mão de obra barata para atender regiões de fronteira de difícil acesso. Enfim, parece que se planeja oferecer medicina de segunda categoria para os carentes e desassistidos. Não podemos compactuar de forma alguma com isso.
Conclusões finais e agravante: o médico é pessimamente remunerado no serviço público, onde seus honorários são bem inferiores à sua qualificação e responsabilidades. Para agravar ainda mais essa situação, ocorre o mau atendimento e cumprimento de horários de serviços. Como a ele é determinado um número de atendimentos diários, ele cumpre essa missão, segundo os horários estabelecidos, sem se preocupar com a qualidade do atendimento.
Para finalizar: o médico deve fazer o exame anaminésico – que corresponde a exames objetivos e subjetivos – conversar com o paciente sobre seus problemas, no mínimo por 15 minutos, a fim de ter  noção dos seus problemas clínicos.
Porém, o que ocorre é o absurdo de o paciente ser atendido no exame anaminésico por no máximo dois minutos. Não é possível, humanamente, o profissional médico obter nesse curto espaço de tempo diagnóstico próximo do correto.
A defesa, feita pelos médicos para mim é inaceitável, pois eles alegam serem obrigados ao cumprimento do horário a eles estabelecido. Creio que mesmo aumentando o número de médicos na clínica, o problema continuará, pois trata-se de uma má formação cultural e médica inadequada, já relatada neste trabalho.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Canção de um menino piracicabano




Francisco de Castro Lagreca
        


Este é o valor da terra estremecida,
É o poema à glória piracicabana!
Pela Pátria a lutar, vida por vida,
Tombaram com bravura soberana!

Dor e martírio de uma raça forte,
Que a luz e o ideal de um sentimento novo!
Sobre estas pedras não existe a morte,
Porque não morre quem defende um povo!


(Estes versos ornam o monumento ao Soldado Constitucionalista,
na praça central de Piracicaba)


Galeria Acadêmica

1-Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
2- Maria Madalena t Tricanico de Carvalho Silveira- Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
3-Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
4-Marcelo Batuíra da Cunha Losso Pedroso - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
5-Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
6-Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
7-Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
8-Christina Aparecida Negro Silva - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
9-Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
10-Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
11- Antonio Filogênio de Paula Junior-Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz de Arruda Pinto
12-Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
13-Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
14-Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
15-Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
16-Lídia Varela Sendin - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
17-Shirley Brunelli Crestana- Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
18-Marcelo Pereira da Silva - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
19-Carmelina de Toledo Piza - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
20-Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
21-Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
22-João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
23-João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
24-Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
25-Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - cadeira no 26 Patrono Nelson Camponês do Brasil
26-Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
27-Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
28-Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
29-Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
30-Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
31-Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
32-Angela Maria Furlan – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
33-Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
34-Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
35- Elisabete Jurema Bortolin - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
36-Eliete de Fatima Guarnieri - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
37-Valdiza Maria Capranico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
38-Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
39-Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
40-Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz