Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
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Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
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segunda-feira, 18 de julho de 2011

SER CIDADÃO É...

André Bueno Oliveira
Cadeira n° 14 - Patrona: Branca Motta de Toledo Sachs




“Casas entre bananeiras,
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham”.
..............................................
(Carlos Drummond de Andrade)


Missão cumprida! Dois anos de labuta e finalmente mais um Certificado nas mãos. Não sei explicar o porquê, mas sempre tive um certo receio da Pós-Graduação. Quando chegamos aqui em Wooster, a “Ohio State University” (OSU) parecia uma íngreme montanha. Intransponível! Mas com a paciência de todo e qualquer alpinista, eu a fui conquistando. Palmo a palmo, passo a passo, metro por metro. E orgulhosamente, levo meu troféu para casa. A prova da escalada! Amanhã mesmo embarcamos em Chicago, com escala em Miami e daí...Brasil à vista!!! Graças a Deus! Não aguento mais o frio desta região centro-norte. Marisa adora. Eu detesto. Ela diz que é um clima maravilhoso para degustar os bons vinhos. Eu já prefiro o calorzão do Brasil e as loiras geladas. Karina não diz nada. Também, com três aninhos apenas, ainda não está em condições de opinar. O importante é que amanhã partimos, e depois de amanhã, antevéspera do Natal, estaremos lá com nossos familiares, em minha cidade. Sim! Minha cidade grande! Digo minha, porque foi nela que passei minha infância, minha juventude. Minha, porque nela fixei residência e lá está a maioria de meus amigos. É nela que moram meus pais e os de Marisa. Me conduziu ao caminho da sabedoria, dando-me um diploma de Curso Universitário. Minha, porque me ofertou Marisa por esposa, e também por ter sido o palco de um presépio vivo, onde vi nascer nossa pequerrucha Karina! Não que eu esteja menosprezando minha cidade natal! Nada disso. Absolutamente, não! Mairinque é um docinho! De vez em quando ainda passo por lá para visitar vovó Zumira que já está velhinha. E também para rever a casa onde mamãe enterrou meu umbigo. Ela gostaria que ficássemos lá eternamente, enquanto vivêssemos. Papai trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana. A casa onde morávamos era grande. Tinha três quartos enormes. Vovó e vovô moravam com a gente. Aliás, a ideia de enterrar meu umbigo no quintal, segundo mamãe, foi justamente de vovô. Seo Zé Bigode! Grande José! Metido a cururueiro. Nada me lembro dele, mas papai me conta que era um bom cantador. Bom perante os concorrentes de Mairinque, lógico, pois nas redondezas, alguns nomes famosos o amedrontavam. Jamais arriscaria uma disputa com eles. Seu palco era mesmo nos botecos, nos churrascos com os amigos, na cancha de bocha e até, de vez em quando, nas quermesses da Igreja Matriz de São José. Também era apaixonado pela dupla Tonico e Tinoco. Segundo papai, ele conhecia quase todo o repertório deles. Dedilhava razoavelmente bem sua violinha caipira, e nos duetos fazia sempre a segunda voz. Qualquer um lhe servia de parceiro, desde que tivesse voz aguda para fazer a primeira. Porém, sua satisfação maior era ser acompanhado pelo violeiro Tião Canário. Esse era o melhor de todos. E o apelido Canário, não era porque cantasse, mas sim por ser passarinheiro. Melhor amigo de vovô, que também tinha uma predileção por canários-da-terra, curiós e pintassilgos. Sem resultados, vovó  que era uma defensora ferrenha da Flora e da Fauna  persistia em discutir com ele por causa disso. “Sorta os bichinho, Zé! Sorta eles lá na capoeira do corgo Tijuco. Dá liberdade pros coitadinho!” Mas que nada! Seo Zé Bigode ganhava uns bons trocados em suas negociatas. Imagina que iria soltá-los! Jamais! E sempre encontrava um bom argumento. “Larga de falá bestera, muié. Se eu sortá, os coitado morre tudo de fome! Eles não sabe mais procurá comida ”!!! Até hoje papai se empolga ao narrar as façanhas do vovô Bigode.
Quando saímos de Mairinque eu tinha apenas quatro anos. Papai recebeu uma promoção da Sorocabana, que exigia também uma transferência de cidade. Foi quando deixamos nossa “village” para encarar a “Cidade Grande”. Vovó e vovô ainda ficaram lá. No ano seguinte, porém, ele veio a falecer. Enfarte do miocárdio. Fulminante! Papai dizia que era chegado a uma gordurinha. Principalmente aquela que enfeita as picanhas. Coitado! Era daquele tipo de pessoas que só ia a médicos, caso sentisse alguma dor insuportável, ou visse muito sangue escorrendo. Como aparentemente tinha uma saúde de aço, nunca fora a médico algum. Talvez pela pouca idade que eu tinha, não consigo puxar dos arquivos de minha mente algum acontecimento, algum fato, ou algo que tivesse ressaltado o convívio dele comigo. Não consigo. Apenas o vejo em fotos, mas nada de lembranças. De vovó, sim! Depois que ficou viúva, tia Marta, tio Chico, mais as filhas Lurdinha e Miriam, (ah! que primas lindas!!! crianças inocentes, brincávamos de namorados...) foram morar com ela. E nós íamos frequentemente passear na casa de vovó. Principalmente durante a safra de milho verde. Ninguém fazia um curau ou pamonha como vovó. Ninguém! Sou suspeito para dizer isso, mas a vizinhança toda elogiava dona Zumira por esse dom especial. E o bolo de milho, então? Sem comentários! Também pudera! Ela o fazia no fogão a lenha, que ficava dentro da própria cozinha! Às vezes fazia uma fumaceira danada!
Por tudo isso, ou pelo pouco que isso represente, não posso esquecer Mairinque. É minha terra-mãe-biológica, mas não me criou, não me viu crescer, não me viu viver! Nada me deu, além de uma Certidão de Nascimento e estas saudosas reminiscências.
Mas não é para lá que vou retornar. A “village” ficou para trás. Vou voltar à minha “cidade grande”. Minha grande cidade! Onde o asfalto se prostra nas ruas e avenidas, oferecendo-se como tapetes negros àquela enorme quantidade de veículos que desfila incansavelmente, ao som das buzinas, que desafinam num descompasso insuportável com os chiados agudos das freadas bruscas. É para lá que voltarei! Onde prédios de apartamentos brotam da terra como sementes plantadas durante a noite, e no dia seguinte, como por milagre, lá estão: eretos, imponentes, coloridos, contemplando os céus e querendo apalpar as nuvens baixas. Lá, onde a busca pelo saber acorda de manhãzinha juntamente com os pássaros, e a algazarra e o vozerio agudo das crianças (também em bando) ecoam pelas praças e ruas circunvizinhas às escolas e colégios. Vou voltar e rever aquelas praças saudosas, onde os bancos dos jardins nos encaram de frente e causam a impressão que se lembram da gente! Que já fomos companheiros! Onde as flores parecem as mesmas de antigamente, plantadas nos mesmos lugares como se fossem imortais, eternas, sempre sorridentes a nos dizer bom dia quando passamos por elas. Voltar e rever a agitação da vida industrial, representada pelo barulho ensurdecedor das máquinas e pelas fumaças saindo das chaminés das fábricas, poluindo sim nossa natureza, − mal inevitável, infelizmente − mas provendo o sustento das famílias. Caminhar pelas ruas centrais e ver o comércio vivo aquecendo o sangue de toda a população, que busca cada vez mais um melhor conforto à sua vida. Voltar, enfim, e matar a saudade de tudo o que existe em minha cidade. Minha grande cidade! Matar a saudade de seu rio, maravilhoso na época das chuvas. De seu “Salto” volumoso e gigantesco visto do “Mirante”. Da Rua do Porto, com seus bares, lanchonetes e restaurantes, à margem esquerda do rio. E principalmente, da ESALQ: a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”. A minha escola. Aquela que me acolheu durante os melhores cinco anos de minha vida. E quero também rever a minha árvore. Sim. A nossa frondosa árvore. A árvore de minha turma: a “Laranjeira-da-mata”. A pomposa Zollernia ilicifolia, que com minhas próprias mãos ajudei a plantar. A última vez que a vi, devia estar medindo uns oito metros de altura. Vou mostrar a ela meu novo diploma, abraçá-la carinhosamente e desejar-lhe uma saudável longevidade. Pelo menos mais uns cinquenta anos! E vou acrescentar: “quero estar vivinho da silva para celebrarmos juntos esse aniversário”. Em seguida, ao me retirar do campus da Universidade, quero vagar a esmo pelas ruas e avenidas da cidade, cantarolando baixinho aqueles versos maravilhosos que eu e Marisa entoamos com frequência aqui nos Estados Unidos, quando a saudade pega pra valer: “...ninguém compreende a grande dor que sente, o filho ausente a suspirar por ti...”
Mairinque pode te ficado com meu umbigo, mas tudo o que ainda resta em mim, deixarei lá em minha cidade. Minha linda Piracicaba! Minha “cidade grande”! Tão grande quanto o amor que por ela sinto.

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Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz