Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
João Umberto Nassif

Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
Ivana Maria França de Negri
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Myria Machado Botelho


Seguidores

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Convite - lançamento da Revista da Academia no 2


A Academia Piracicabana de Letras

convida V. Sa. e Exma. Família para o lançamento do 2º. número da
“Revista da Academia Piracicabana de Letras” e para a sessão de encerramento de suas atividades de 2010.
O ato será realizado na sede da Sociedade Beneficente Sírio-Libanesa, na Rua Governador Pedro de Toledo, 1045, Centro, na 5ª. feira, dia 2 de dezembro, às 20 horas.
Maria Helena Corazza
Presidente

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Colaboração do Acadêmico Waldemar Romano cadeira no 11 - Patrono Benedito de Andrade

Ruas de Piracicaba

Piracicaba, como todas as cidades, tem becos, travessas, ruas, alamedas, avenidas e vias públicas, umas mais importantes, outras menos conhecidas, seja pela localização, pelo fato de abrigar algum edifício público ou local turístico, como é o caso, por exemplo, da Rua do Porto. Da mesma forma, largos, pátios, praças, jardins, espaços abertos, desejavelmente arborizados, são usados para recreação, trânsito de pedestres além de estacionamento para veículos.
Nos séculos anteriores, as vias públicas tornavam-se conhecidas pela característica topográfica ou fato histórico nela ocorrido, quase sempre sem reconhecimento oficial, apenas denominações de cunho popular.
Na atualidade, com raríssimas exceções, as cidades brasileiras utilizam as vias e logradouros como instrumento de homenagem a cidadãos que se destacaram na prestação de serviços, nas artes, literatura, ciência ou na política. Homenagens ainda podem ocorrer para lembrar datas e fatos históricos, instituições beneficentes, filantrópicas ou de prestação de serviços diversos à comunidade.
Em meados do século passado, de forma oportuna e louvável, a legislação regulamentou que somente cidadãos já falecidos poderiam ser homenageados. Esporadicamente ocorria o fato de homens públicos trocarem gentilezas através dessas homenagens, além do mais, de forma lamentável, após terem sido homenageados, fatos desagradáveis ou desabonadores poderiam estar relacionados àquelas pessoas.
Imaginar as vias públicas, até fins do século XIX, sem energia elétrica nem rede de água e esgotos, sem pavimentação, placas de identificação e publicidade, é algo quase inimaginável para os que vivem no início do século XXI. Por outro lado, a poluição visual ou do meio ambiente ainda não havia atingido as cidades.
As residências construídas nos estilos de época, sem afastamento, permaneciam com as largas portas e janelas quase que constantemente abertas. As calçadas serviam para, à noitinha, os cidadãos sentarem-se relaxados, deixando a conversa correr solta, com anedotas, causos, notícias verdadeiras e boatos, mesclados às inevitáveis maledicências sobre a vida alheia.
Rádios, aparelhos de televisão, comunicações eletrônicas foram chegando, supostamente para tornar a nossa vida mais fácil, mas acompanhando a tecnologia, vieram a violência e vandalismo. E mudaram-se os costumes.
Em Piracicaba, verifica-se que são cometidas algumas injustiças. Diz-se Rua Governador, Alferes, Regente, Voluntários. Locutores de rádio, redatores de jornais assim se expressam e a população imita. O correto seria: Pedro de Toledo, José Caetano, Diogo Feijó, Voluntários de Piracicaba.
Ruas Pau Queimado, Boa Vista, do Comércio, Direita, do Conselho, Esperança da Glória, da Misericórdia, Municipal, Nova, da Palma, da Ponte, do Rocio, do Sabão, do Salto e outras, são deno-minações antigas de algumas das ruas da cidade.
Algumas ruas podem eventualmente homenagear parentes dos que promoveram os respectivos loteamentos. Ruas Padre João, Dom Manoel, Alfredo, Alberto e Arthur, da mesma forma, são indicações indefinidas. Com o passar dos anos, as poucas referências se perdem e os próprios moradores não conseguem fornecer nenhuma informação sobre aquele personagem.
Alguns cidadãos falecidos deixam uma excelente folha de serviço, como exemplares chefes de família ou líderes comunitários, porém, por falta de iniciativa de algum parente ou displicência dos amigos, tais nomes não são sugeridos aos poderes municipais e deixam de ser lembrados nas denominações das vias públicas.
Por outro lado, também acontece que algumas pessoas, muitas vezes nem merecedoras, são eternizadas nas denominações de ruas e praças. É o poder público que faz as denominações e embora se pretenda responsável e adote critério legal, existe um inegável caráter político.
Certas figuras populares somente são conhecidas por apelidos. Em Piracicaba, no século XX, Nhô Lica foi extremamente ad¬mirado pela ingenuidade, percorrendo as ruas para recolher pedras, que acreditava serem valiosas, vendendo-as aos gerentes de bancos ou estudantes; entretanto, Felix do Amaral Bonilha, seu nome verdadeiro, é que consta na denominação pública. A rua deveria chamar-se “Nhô Lica, o Sonhador”.
Praças e similares não são utilizadas para a rotina dos endereços comerciais e residenciais, fato que acarreta um relativo desconhecimento de suas denominações. Em Piracicaba, alguns casos: Praça da Bandeira, Dr. Alfredo Cardoso, Rotary Club, Lions Club, Roberto Nobre Ferraz, Michel Cury e muitas outras.
Uma mesma via pública, com o passar dos anos pode mudar de nome, o que não é interessante, devido às consequências negativas que esse fato poderia acarretar, como, por exemplo, confusão no registro de escrituras de propriedades.
Os emplacamentos das vias públicas também sofreram alterações durante o século XX. Inicialmente, com placas metálicas esmaltadas, afixadas às paredes dos edifícios situados nas esquinas, ainda encontradas na região mais antiga da cidade, passaram posteriormente a outras formas. Multiplicaram-se os métodos de emplacamentos, os quais, acrescidos de interesses comerciais trouxeram a poluição visual às regiões de grande concentração de pessoas.
Ao findar o século XIX, Piracicaba tinha quarenta e uma Ruas emplacadas, uma dezena de anônimas e diversas projetadas, quinze Largos e alguns Jardins. Tudo isto à margem esquerda do rio que tanto nos orgulha. Não existiam homenagens a personalidades femininas: ainda imperava o machismo da província.
No início do século XX, o Barão de Rezende promoveu loteamento particular à margem direita do rio, traçado entre os espaços da Avenida do Areião e a Chácara São Pedro, onde estava sua resi-dência e surgiram aproximadamente trinta novas vias públicas. De forma oportuna e com todos os méritos, as damas passaram a ser reconhecidas: Maria Elisa, Dona Francisca, Dona Lídia.
Lidia Sofia de Souza Rezende, Dedé (1869/1933), foi a mulher de maior prestígio na sociedade piracicabana da época, destacando-se pela inteligência, caridade, inúmeras iniciativas culturais, dinâmica de participação nas realizações cívicas e públicas. Obras ainda hoje existem, em benefício de toda a comunidade, criadas por esta notável cidadã cuja beleza física só era superada pela espiritual. Celibatária por opção, não deixou herdeiros.
A Academia Piracicabana de Letras tem quarenta cadeiras, preenchidas por cidadãos residentes na cidade, natos ou oriundos de outros municípios, cujas presenças nos engrandecem. Por estes
foram escolhidos quarenta patronos, também ligados à sociedade piracicabana e região.
Os patronos, cujos falecimentos ocorreram entre segunda metade do século XIX e início do XXI, todos com méritos indiscutíveis, são nomes que merecem respeito e reconhecimento. Em levantamento superficial, nota-se que elevada parcela já recebeu alguma denominação em via publica, escola, praça ou monumento. Os que faleceram recentemente e que ainda não tiveram o momento de lembrança do poder público, já receberam uma primeira homenagem ao serem escolhidos como patrono de uma cadeira na Academia Piracicabana de Letras.

Colaboração da Acadêmica Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - cadeira no 7 - Patrono: Helly de Campos Melges

O nome que o povo dá


Veja que interessante,
Nome de rua e de via,
Nome de gente importante,
Perde sua dinastia.
Governador Pedro de Toledo,
Nome próprio perdeu a cor,
Não é pra ninguém segredo
Só Rua Governador.
Alferes José Caetano,
É Rua Alferes somente.
Fica o cargo, não me engano
O nome, guarda na mente?
Nossa Senhora da Boa Morte
Nome belo, grande e forte.
Teve também igual sorte
Ficando só Boa Morte.
E a Regente Feijó,
Nem padre Antonio já é,
Pois ficou Regente só,
Do cargo e não da fé.
E a Marechal Deodoro,
Mesmo sendo da Fonseca,
Já ouvi: – onde moro?
– Na Marechal (fala seca).
O nome, quem dá é o povo,
Talvez porque o use mais.
Admira o velho e o novo,
Pronuncia o que lhe apraz.


Trovas / 2009

Quem carrega com carinho
A bagagem da verdade.
Percorre todo o caminho
Da vida-felicidade.

Para o problema existente,
Não basta o culpado achar.
Bom agir inteligente,
Vive no solucionar.

Só quem percorre o caminho
Pode dizer que o conhece.
Quem insiste em andar sozinho
A própria vida o aborrece.

A hora é já, bem agora,
Esperar mais para quê?
Quem pra decidir demora
Perde a vida e não a vê.

Por mentir o pescador
O tamanho do pescado.
Não é ele tão pecador,
Ele enxerga exagerado.

Pode ser que alguém no amar,
Cometa vulgaridade.
Mas o amor nunca é vulgar,
Se for amor de verdade.

Ler as palavras e as linhas
Leitor comum é capaz.
Ler aspas e entrelinhas,
É preciso muito mais.

E daí? Mudei de ideia.
Por que todo este espantar
É melhor mudar de ideia,
Que não tê-la pra mudar.

Prefiro
Prefiro a eloquência
Do silencio pesado,
Inundando corações palpitantes
À insinuação
Do leviano bailado
De palavras sussurrantes
Ao redor de ouvidos incrédulos.
Prefiro a dureza de um rosto sofrido
E amargo, expondo verdade,
Ao camuflado sorriso
Que aflora das invisíveis cicatrizes,
De perfeitas cirurgias plásticas.
Prefiro um “não”
Redondo, autêntico e cruel,
A um “talvez” de amorfa indecisão.
Mas gosto mesmo é da força
Das palavras verdadeiras e quentes
Que afloram dos corações apaixonados,
De sorrisos sinceros
Que fluem de felicidade verdadeira
Do “sim” altivo e dinâmico
Que emana de todas as células
De um ser vibrante.

Colaboração da Acadêmica Myria Machado Botelho - cadeira no 24 - Patrona: Maria Cecília Machado Bonachella

Diadorim
Observação: Conto inspirado no romance monumental “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, após uma releitura, talvez mais intimista e passional, em que, num impulso, desejei um outro desfecho para a tremenda saga de Riobaldo e Diadorim. Devo acrescentar, contudo, que uma obra-prima é o que é: impactante, dolorida, viva e sugestiva...
Diadorim, Diadorim: dia claro de ouro... dourado, esplendoroso como promessa. Manhã de Primavera... de flores e de pássaros... leves, muito leves, um sonho para realizar-se... “Remanso de rio largo...” Um segredo, prestes a ser revelado...
O poder de um nome, a força de um personagem que ganha vida nas claras alegrias e nas tristezas sombrias, no destemor e na coragem, na beleza que principia no olhar verde e misterioso como as veredas do sertão... algo precioso que se acalenta e se cuida e não se deseja, e não se aceita perdido... e choramos e gememos, também estrangulados e sufocados, quando assistimos e queremos “mil gritar”, ao vê-lo no que estava para ser: sua entrada no topo da rua, punhal em mão, avançando, correndo, no meio do tiroteio de fúria, contra o diabo, o Hermógenes: o dronho desumano – nos cabelões da barba... O assassino, cruel e covarde, de seu pai Joca Ramiro...
Então a refrega mortal: sanharam, baralharam, terçaram. De supetão... e só... O diabo no meio da rua. O sangue. A faca. O claro, claramente: Diadorim cravar e sangrar o Hermógenes...
...E o soluço estrangula-se na garganta... Não e não! Ele não pode morrer...
– Vai lá, Riobaldo Tatarana, Urutu Branco! atravessa os escuros buracos e caminha ileso, que teu corpo é fechado pelo que vem do céu e não deixa morrer. Toma em teus braços o corpo ferido do menino de fala mansa e subentendida, toma aquele corpo e cura suas feridas com beijos de teu infinito amor. Não se pode matar o que tem alma e tem vida. Não se pode morrer assim, num dia assim, quando tudo está para se realizar...como a flor que ainda não deu fruto...como o fruto verde, não sazonado ainda... “Mire e veja”. Tudo está repago e refeito... Ele é ela, a moça virgem, a donzela destemida e corajosa que tanto te ama... e te acompanhou sempre, desde o dia de um encontro menino e inocente, marcado pela beleza de um alvorecer de paixão!...
Amor que começou como canção antiga, de outros tempos, de outras eras... e não envelheceu... a verdade não envelhece, a verdade é como um poema... Tão brilhante como tua pedra de ametista...
– “Riobaldo, escuta: vamos na estreitez deste passo...” ele disse, e de medo não tremia, que era de amor – hoje sei.
– “Riobaldo, o cumprir de nossa vingança vem perto...Daí, quando estiver repago e refeito, um segredo, uma coisa, vou contar a você...”
Então o impossível pode ser... Porque viver é mesmo muito perigoso... Tua amada não morreu. A mulher de teus sonhos, do segredo desvendado. É com ela que vais casar e viver, e morar em boa beira do Urucuia... É com ela que vais tecer com fios de ouro um romance mágico de amor! Num cenário misterioso, impenetrável, insólito: o Urucuia, perto da barra, que também tem belas croas de areia, e ilhas que forma com verdes árvores debruçadas. Da cor dos olhos de tua amada, enigmáticos e profundos... da cor da esperança, dos silêncios que tanto dizem... e tanto sugerem... Para lá se vão os pássaros, os pássaros do Rio das Velhas e da saudade... O jaburu, o macuco, a garça branca, a garça rosada que repassa o ar por extenso como vestido de mulher... E o manuelzinho-da-croa – o preferido de tua amada, “que pisa e se desempenha tão catita, o manuelzinho... não é mesmo de todos o passarinho lindo de mais amor?...”
Mais amor... esbanjado nas auroras!.. Nonada... perdido nas travessias... reencontrado nos atalhos do segredo descoberto... Vidas!... Vidas preciosas que não morrem, sobre-humanas, tocadas de amor imortal... batizadas pelo sangue vermelho e quente da paixão... Mas... tão leves, tão diáfanas, tão belas, como os pássaros, as flores e as borboletas, mensageiros doces da eterna primavera!...





Meu Carrilhão



Aprendi a converter em pensamento uma grande parte de meus sentimentos. Destes, eu jamais excluí minhas experiências da infância. Até aqui, quando revejo minha história que contém uma grande variedade de ingredientes, penso que, ao lado de toda ousadia e dos extremos experimentados, logrei encontrar o equilíbrio. Os sacrifícios, as falhas, os sofrimentos e as grandes perdas, as vitórias relativas, grande parte delas às custas de muito trabalho, tudo o que constitui a trilha de cada um e faz parte de uma construção ao longo dos anos resume-se hoje numa única verdade e num aprendizado muito simples – o do amor.
Envelhecer é um processo natural e a velhice não é pior do que a mocidade. Ao mesmo tempo que abdicamos, também adquirimos e vamos repondo no jogo da vida aquelas peças que faltavam; muitas vezes, à medida que nos desfazemos de muitos conceitos, de muitos ímpetos nocivos e estouvados oriundos do egoísmo, da pretensão, dos juízos críticos implacáveis e das posições radicais, próprios da juventude, os substituímos pela tolerância, o bom senso, a serenidade, o amor. Sempre e de novo o amor, que tudo resume.
Podemos ter 55, 65, 75 anos e, se até aqui ainda não descobrimos a raridade da beleza, se até aqui não aprendemos a assumir a própria idade, interpondo o inconformismo e desejando aparentar exteriormente o que já perdemos, então é o desastre. Não existe nada pior do que essa batalha em que passamos a exigir de nós mesmos o que está além de nosso alcance. E o pior: nessa ânsia, nessa luta, perdemos a própria identidade e o próprio encanto, pois que todas as fases da vida, como as estações, contêm sua beleza própria e irretocável. Então acontece um maravilhoso processo de revitalização: a consciência, a percepção, a vivacidade da alma ao lado do amadurecimento cronológico e psicológico adquirem outros contornos de realização em que vamos deixando pelos caminhos o supérfluo para nos atermos ao essencial. Envelhecemos quando substituímos os sonhos pelos lamentos. E a aparência de jovialidade exterior tem muito a ver com o que constatamos de muitas pessoas, das quais dizemos que elas não têm idade, têm o tempo. Como o meu carrilhão que voltou... Ele tem muito tempo...
Porque meu, se a família era tão grande e o som, a sua música, era para todos, incessante e incansável? Não sei, mas sempre tive esta sensação de posse, sempre imaginei que ele tocava com exclusividade para mim, acompanhando-me e marcando o meu crescimento, o meu desabrochar para a vida, meus brinquedos, minhas divagações, minha pressa de crescer, minha inquietação, minha (in)disciplina, meus horários, meus compromissos. A hora de levantar e de dormir, de estudar, de ajudar na lida doméstica, de ir para a escola, de almoçar e de jantar no pequeno rigor de nosso pai, que não admitia atraso e ausência... ah! as ausências vieram depois, quando fomos nos despedindo para buscar outros estudos e os diplomas, para mudarmos nossas atividades e adquirirmos a relativa independência material no exercício da profissão, e trocarmos nossa condição civil... O casamento, os filhos, as gerações que se foram sucedendo e aumentando a família, os encontros durante as férias naquele ninho que parecia imutável e eterno quando então a casa retomava o ritmo de alegria, de bem-estar, de comunhão, de quase festa, no alarido e no derramamento das crianças.
E o carrilhão ali estava na parede, no mesmo lugar. Acompanhando a vida e a história de tantos, armazenando, tocando suavemente seus quartos de hora, mais insistente ao marcá-las, como a proclamar o tempo que não espera, acumulando mudo e tranquilo as experiências das gerações que se renovavam...
... Até que um dia ele parou. Depois de meio século, seu zeloso guardião, que sempre o incluiu no ritmo de toda aquela trepidante caminhada, partiu tão suave quanto ele, para ouvi-lo lá no céu, junto de outros mil carrilhões, entoando o hino de acolhida para os santos.
Então, a mudança para um novo dono, tão zeloso quanto o primeiro, de quem herdara os traços e a semelhança da alma...
E o carrilhão retomou sua jornada de fidelidade, assistindo a um novo florescimento, um novo despertar. Os personagens eram outros, a realidade em outra cidade, mais ousada e trepidante, o curso da história mais empenhativo, talvez menos fantasioso e mais prático, porém a sementinha do sonho permanecia viva e teimosa. Na parede da sala, um exemplo e uma lição de continuidade...
... Mas também ali ele parou. O tempo chegou, de maneira inesperada e breve, para seu novo proprietário, com certeza acolhido entre as harmonias das horas que ele amava, tanto quanto seu progenitor...
Era preciso acostumar-se com as ausências definitivas, inexoráveis. Um dia também ele, o carrilhão, devia parar para sempre?
Ainda não! Eu, a última dos irmãos, esperava por ele. No grau do afeto, da saudade e da lembrança, o carrilhão me pertencia e, por justiça, ele voltava.
Agora ele está comigo, bem perto, restaurado e soberano. Derramando sua música sobre meu coração contrito, embalando-me no sonho que me conduz no tempo para alcançar o início de minha jornada e divisá-la, entre lágrimas e soluços, entre alegrias e esperanças, que estas jamais se extinguirão. Com ele, meu carrilhão, último remanescente de uma longa história, eu aproximo as coisas mais distantes. Ele faz com que se irmanem o antigo e o novo. Vence o tempo, fazendo tudo convergir para um centro, onde o amor que a tudo dá sentido deve ser o estribilho da jornada!...





Lágrimas





Lágrimas...lágrimas... são tantas e frequentes
Vindas lá de dentro, recônditas profusas...
Marejando os olhos quais pérolas voláteis
Às vezes escondidas mascarando a dor...
Quem nos inventou tão grande manancial
Capaz de tanto, e insopitável sempre
Que brota lá do fundo e vem do coração
Que expressa o sentimento, a dor, a raiva, o riso
Revelando outras vezes incontido amor?...
Ah! o mundo já verteu soluços tristes
Lágrimas amargas, feridas, sem consolo...
Um mar remanso, borrasca malograda
A lamentar bem dentro imensurável dor!...
Foi Deus o Inventor, foi Ele o Construtor
Que nos deu a lágrima e nos deu o Amor!
Foi Ele quem chorou no túmulo de Lázaro
E lágrimas de sangue verteu na dor maior...
E chorando e sangrando também nos deixou
A esperança e o consolo emanados sempre
Do pranto rolado com resignação!...

Colaboração da Acadêmica Monica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira no 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira

No frio das noites



As noites são frias.
E as lembranças esquentam o coração.
Os caminhos sem volta,
Voltam, se a gente quiser,
Pois o tempo parece querer voltar
Para cobrar o que não teve.
E assim ficam sozinhos,
O tempo e os amores sem destino.
Para mim importa, porém, que no frio das noites
E dos amores perdidos
Eu possa mergulhar dentro do mar
Dos teus olhos verdes.
Anoiteceu

Ainda é dia, mas tudo parece anoitecer.
A flecha que entra no coração tem sangue,
e já não se sabe mais se arranhou apenas,
ou partiu ao meio o que já não tinha mais tempo...
Negar duas vezes numa mesma vida
é perder a própria vida sem saber mais para onde ir.
Vem a noite escurecendo o dia das almas perdidas,
e, frios, os mortais não sabem como agir...

Amar a mais tem que ser demais, e dar o perdão
é arriscar na contramão, mas, quem sabe,
talvez lhe diga um dia, que a noite descobriu
o rumo certo, no encontro de nossas mãos...

Colaboração da Acadêmica Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira no 2 Patrono: Jaçanã Althair Pereira Guerrini

A Piracicaba que Prudente conheceu (1860-1902)

Piracicaba (Vila da Constituição), que Prudente José de Moraes Barros escolheu para advogar, construir a carreira política e a vida familiar, no início da década dos anos sessenta, ainda ostentava vestígios coloniais e costumes arcaicos. Nas bicas ajuntavam-se os excluídos da sociedade de ordens: mulatas quituteiras, negras picando fumo, moleques de ganho, escravos aguadeiros, caboclas la¬vadeiras, homens a jornal.
As áreas públicas mais conhecidas ficavam no Pátio da Forca, transformado em Largo de Santa Cruz; no Pátio de Santo Antônio, centro da cidade; no Largo da Matriz, repleto de animais pastando; no Largo de São Benedito, ponto de concentração de escravos e onde eram montados os circos. A atividade econômica aparecia nas casinhas (o primeiro mercado, junto ao Teatro) e nas vendas de secos e molhados, armarinhos, botequins, situados na rua de Santo Antônio (Comércio, depois Governador), na rua Direita ou do Picadão de Mato Grosso ou do Sem Fim (Moraes Barros). O casa¬rio barroco aparecia nas ruas da Quitanda (XV de Novembro), dos Ourives (Rangel Pestana), da Glória (Benjamin Constant), de Santo Antônio, da Boa Vista (Alferes José Caetano) e das Flores (13 de Maio). Quebrando a monotonia da Vila, apenas o vaivém das tropas, dos carros de bois e dos cavaleiros.
Na década dos anos setenta, Piracicaba ampliava os seus es¬paços socioculturais, adequando-se aos tempos e ao adensamento demográfico. A economia baseava-se no café e na cana, nos engenhos e nos alambiques, nos gêneros alimentícios e na pecuária. As ruas da Praia (ou do Porto) e do Sabão (Cap. Antônio Corrêa Barbosa), permaneciam ligadas às atividades do rio e do sertão, dotadas 106 Revista da Academia Piracicabana de Letras
de rica comunidade folclórica. O progresso se materializava na te¬celagem Santa Francisca, de Luiz Vicente de Souza Queiroz (1874), no Gabinete de Leitura (1876), na Ferrovia Ytuana (1877), no Colégio Piracicabano (1881), na Gazeta de Piracicaba (1882), no Serviço D’Água (1887), na Praça do Mercado (1888), conquanto rondassem as febres, as bexigas e a lepra. Os espaços políticos partilhavam-se pelas grandes famílias do Oeste, os Souza Queiroz, os Moraes Bar¬ros, os Arruda Botelho e os Ferraz. Em 1885, a população do município era de 22.150 habitantes. Em 1887, contava na área urbana com 7.000 habitantes e 1.600 casas de morada, havendo 5.000 escra¬vos matriculados na Coletoria.
Nas duas últimas décadas da Monarquia, Piracicaba agitara-se pela competição das elites, monarquistas e republicanos - estes construindo um novo poder no Oeste Paulista - e pela tensão gera¬da em torno da organização do mercado livre de trabalho, havendo por chegar ao 13 de Maio com significativa reserva de mão-de-obra escrava. A República veio em complemento às transformações estruturais. Foi durante a primeira década republicana que Piracicaba adquiriu grande prestígio no Oeste Paulista, em virtude do seu progresso e da grande presença da Educação ministrada nas escolas públicas e confessionais. O café e a cana continuavam as suas principais riquezas, além da tecelagem Arethusina e dos dois Engenhos Centrais, das oficinas, das fábricas de produtos alimentícios e de bebidas, do comércio, da iluminação por energia elétrica (1893).
Em 1890, a cidade possuía 2.252 edifícios e 14.000 habitantes urbanos, assistindo à virada do século convulsionada pela construção da rede de esgotos de que dependia o saneamento. Em 1900, ti-nha a oferecer a primeira turma de professores formados pela Escola Normal e no ano seguinte (2° semestre de 1901), a primeira turma de alunos da Escola Agrícola Prática “Luiz de Queiroz”. Não obstante, ressentia-se do isolamento no Oeste Paulista, ao qual tinha acesso pela Ferrovia Ytuana.
A planta de 1901 apontava os rumos da urbanização futura. A Leste, seguia os contornos do Itapeva e da ferrovia, detendo-se nos bairros Alto e dos Alemães, junto às chácaras, entre a rua de Santa Cruz e a Fazenda São João da Montanha. A Oeste, chegava ao bairro da Boa Morte, sucedendo-se as chácaras Nazaré e Morato, as estradas que conduziam a Tietê, bairro do Enxofre e Ferrovia Ytuana, que liga a Itu, Jundiaí e São Paulo. A Sul, parava no Parque dos cemitérios (católico e protestante), no Hospital de Lázaros e no reservatório de água. A Norte e Nordeste, atingia o rio Piracicaba, no bairro do Porto, e o atravessava, junto às terras do Barão de Rezende, em seu loteamento; buscava a estrada do Areão, hoje avenida Rui Barbosa, nascente o bairro de Vila Rezende, de onde partiam três estradas, a de Rio Claro e Limeira, a do Meio e a de São Pedro. Oferecia um perímetro urbano contornável, a pé, compreendendo-se porque os habitantes conheciam-se pelos nomes próprios e apelidos.
Piracicaba adentrou o século XX como cidade paisagística e romântica, dadas as suas belezas naturais, culta e civilizada, em razão da sua escolaridade e saneamento, fazendo jus às observações dos viajantes mais ilustres. Conserva até hoje o pitoresco do seu visual ribeirinho, das praças arborizadas e a hospitalidade das antigas cidades paulistas.

Colaboração da Acadêmica Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira no 3 - Patrono: Luiz de Queiróz

Cuidar muito da “Mulher” que você é

Esta frase exige muita reflexão, porque antes de sermos filhas, mães, irmãs, esposas, profissionais, amigas, “somos mulheres”.
Refletir sobre o valor que temos já nos dá um suporte de autoridade e personalidade, que não podemos ignorar.
A mulher por si só já traz, como sua “marca registrada”, o poder de gerar e dar à luz toda a raça humana. Óbvio que há o seu parceiro para que esse milagre da concepção da vida se realize, contudo, a sua própria raça, seu sangue, seu leite, seu suor, suas dores e seu amor profundo e ilimitado no cuidado de suas crias que ela defende com unhas e dentes, sem medir obstáculos, já lhe confere estigmas de honra e valor ilimitados.
A mulher é um ser incrível!
Daí, nós, mulheres só precisarmos “descer do nosso pedestal”, para carregar nossos bebês no colo, abraçar os filhos por alegria ou para aquietá-los quando amedrontados, apertá-los ao nosso peito quando aflitos ou infelizes... Descer do nosso pedestal, para ficar às suas alturas, ao sorrir quando se sentem perdidos e lhes dar a nossa vida se preciso for, porque antes de tudo, a “Mãe” se vestiu de “Mulher” para tirar este mundo do feio e do mal, e levá-lo ao alto dos picos da dignidade, da bondade e da beleza!
Tudo bem, tudo certo, tudo mais que perfeito, porém, esta “Mulher” também precisa ser cuidada, tratada, respeitada, honrada e muito amada, senão, como me disse uma amiga, “será melhor ficar só, do que mal acompanhada...”
Mulher sem carinho e sem respeito, “murcha”, “apaga”, ficando apenas, como um “objeto de uso”, um ser inexpressivo e sem graça, cujo atrativo principal que seria a sua “sensualidade”, desbotou tanto, a ponto de destruir o seu “amor-próprio” e a sua natureza 102 Revista da Academia Piracicabana de Letras
de fêmea, desencorajada de seus dotes supremos de sedução, mas, sobremaneira, de amparo seguro e remanso inigualável!
Mulher digna e que se preza, exige direitos inerentes à sua postura de ser humano ativo e cooperativo, tudo envolto numa singeleza sem competição, apesar de sua extrema convicção do que representa na vida do mundo, ainda revestida de grande e específica afabilidade e feminilidade, é claro, acima de tudo.
Atualmente, a mulher conquistou espaços, que em nada precisa se humilhar, temer ou se rebaixar perante qualquer sistema social ou familiar, e isso não quer dizer ser “machona, mandona, antipática ou intratável”, convencimentos esses que desanimam e fazem desandar qualquer tipo de relacionamento.
“Mulher de verdade, compartilha!”
Existe a justiça dos direitos e dos deveres e as leis a amparar com instituições específicas de ajudas, como a “Delegacia da Mulher” e outros locais de atendimento, a se descobrir conforme as necessidades.
O importante é se tornar “importante” perante você mesma em primeiro lugar, jamais se esquecendo da justiça e do respeito perante o outro. Tudo o que não é decente e bem conduzido, não adianta teimar, porque não vai acabar bem. Vai, isso sim, acabar muito mal!
Você pode e deve ser muito honesta naquilo que defende. Não há desculpas para ser desonesta e injusta na sua relação, principalmente se houver filhos envolvidos. Que desgraça você estará minando na vida deles! Se for por mau gênio, “birra” ou pior, por “criancice”, ou “dengo”, pobre de você, que estará cavando um grande cansaço e um enorme “enjoo” no seu companheiro – e pense bem que isso geralmente não tem volta... Cansou, está “substituída”! E quer que eu diga mais? “Bem feito” pela sua ignorância teimosa ou pela sua intransigência infantil!
A mulher de verdade, que quer seu lugar e seu espaço na sociedade ou no seu ambiente de viver, precisa antes de tudo “se dar o valor”, e, sem esforço – normalmente – partir com o mínimo “stress” possível, em busca de seus objetivos e de sua “realização”.
E, lembrem-se sempre: meiguice, ternura, doçura, positivismo e gentileza, tudo misturado com alegria de viver e bom humor, são “armas femininas” que dificilmente encontrarão “rivais” que lhes façam frente.
Faz-se tarde...
Faz-se tarde
...e não há mais sol, mais cor.
Só céu...
Faz-se tarde,
e não faz frio nem calor.
As ruas pararam,
sem sombras,
sem gente,
vazias...
Faz-se tarde, amor,
tarde do dia bonito que se foi,
da tarde ensolarada de você,
do muito, muito
que eu tive pra falar
e não importa mais dizer.
Faz-se tarde...
tão tarde, meu amor,
que agora,
tudo se tornou
tarde demais.

Saudade em 4 tempos

TEMPO 1

Quando as nuvens da tarde
Apertam o coração
E o verde da paisagem
Leva à mansão da solidão...
É tempo de lembrar
Do crepúsculo
Dos que ainda
Caminham ofegantes
Pela saudade
Torturante
Sem nem ao menos
Poder dizer adeus...


TEMPO 2

E...
Esse aperto doloroso
Querendo dizer
Coisas das quais
Não sei o “porquê”
E... Me recuso
Sequer, tentar
Entender.


TEMPO 3

De onde vem
Essa saudade
Daqueles momentos
Que já nem lembro mais?
Fugi?
Disfarcei?
Destruí, ou...
Desisti?

TEMPO 4

Saudade não é
Só “vontade
De outra vez”
É muito pior
Saudade é
Vontade de ter
E de “reviver”
O que já não é.

Colaboração do Acadêmico Lino Vitti (Príncipe dos Poetas Piracicabanos) - Cadeira no 37 - Patrono: Sebastião Ferraz




A meu pai

Lado a lado, meu pai, nas andanças da vida,
mãos dadas com carinho e com grandioso amor,
umas vezes a estrada é uma senda florida,
muitas outras, porém, tem espinhos e dor.
Em você, caro pai, encontrei nesta lida
mil sonhos a cumprir, de luz um resplendor,
A todos conduziu, com nossa mãe querida,
a um porto bem seguro, a um porto salvador.
Que a idade não lhe seja um peso doloroso,
antes uma alegria, anseio realizado,
uma vitória em meio a este mar proceloso.
Eu lhe desejo, pai, tão extremoso e amado,
que o proteja o bom Deus, que é grande e poderoso,
que o conserve, feliz, por muito ao nosso lado.

Roça feliz

Fui ao campo. Fui ver o quanto é lindo
o imenso fulgurar de um sol de meio-dia.
Fui ver, em verde bando, as maritacas indo
em busca matinal do pão de cada dia.
Fui ver o lavrador, em suores, carpindo
enquanto o cafezal em alvuras fulgia.
Mas que ouço? São talvez os pássaros curtindo
o alvorecer da roça em árias, numa orgia?
Que vejo? O milharal embonecado e farto
em dourada promessa, em espigas risonho?
Além vejo o arrozal... Que passa? É um lagarto?
Meu Deus! Não é verdade isto que aqui componho,
é apenas a ilusão da qual, triste, me aparto...
A roça não é mais do que infindável sonho!
Indelével retrato
Quando menino, sensações de vulto
não tive, sensações próprias da idade
Sempre vivi desconhecido e oculto
longe do vão bulício da cidade
Fiz da vida campestre um quase culto
da natureza, quase divindade
E trago ainda (que felicidade!)
um coração silvestre em mim sepulto
Um dia precisei deixar meu ninho
trocar o seu calor e o seu carinho
por outras contingências do viver
Mas nem belas visões de outra paragem
puderam apagar a sua imagem
gravada tão profunda no meu ser.

Noites fantasmais

E disse Jeová: “façam-se as trevas com todos os seus astros”! E assim se fez. As estrelas, a lua, os cometas, as constelações, enfeitaram as noites cósmicas, porque veio a Noite, larápia do Sol. E dentro das noites do mundo formataram-se os fantasmas apavorantes, e os fantasmas povoaram a Terra, ora em forma de assombração, ora em forma de saci, ora em forma de mula-sem-cabeça, ordinariamente vagando pelas estradas desertas, aterrando povoados a dormitarem, assustando sitiocas e fazendas, assaltando taperas e santas cruzes das estradas.
O sertão ressuma fantasmas! Quanto mais a solidão se apodera das distâncias ignotas noturnais, mais presente se faz o enigmático personagem fantasmal. E cresce, cresce, avoluma-se, avoluma-se o medo agarrado ao homem do sertão. E o sertanejo que “é antes de tudo um forte”, como dizia o Euclides da Cunha, assassinado por amar sua consorte, diante das trevas de uma estrada encurralada dentro da noite, fica magrinho, fraquinho, reduzido, como um caniço de brejo. E a tese euclidiana perde toda a sua imponência afirmativa. Porque o caboclo treme, suja as calças, foge diante de um foco de luz que caminha pelas encostas, ou se move pelos vales rurais, ou se do seio misterioso da mata o urutau solta a sua gargalhada fantás¬tica! E não só o caboclo, mas qualquer viajante deste universo, more no sertão ou viva na urbe, sói tremer e emporcalhar os fundilhos ao topar na escuridão soberana da noite uma bola de fogo movediça a esvoaçar pelo campo embrulhado pela cegueira da treva noturna.
* * *
O pedreiro-lavrador Jair, apesar de suas mãos honestamente calejadas pela rusticidade profissional, tinha uma cabeça cheia de fraseado literário adquirido por seu próprio esforço, conquistado pela leitura contínua e estudada de livros, almanaques, revistas e tudo quanto escrito lhe fosse cair nas mãos. E desse contato com as letras, alimentado pelo ambiente rural da sua vida, saliente ob¬servador dos fatos e pessoas, vivente inarredável das noites da roça, Jair acabou pintalgando muitas laudas de papel em branco, com a criatividade de seu lápis. Admiravam-no os conterrâneos, pois não é raro surgir, como silvestre flor de maracujá, por entre gente dos cafundós do Judas, uma inteligência privilegiada como a de nosso personagem.
Por outro lado, o Jesuíno da Silva, metido a intelectual daqueles sertões, não cansava de mexer com a literatice do quase vizinho Jair, e não se envergonhava de, às vezes, quando o pseudo-escritor passava as noites longe da casa, pé-ante-pé, como um ladrão de terceira classe, ir bisbilhotar o “escritório” do amigo e contemporâneo, para desvendar que mistérios teria ele lançado nas rústicas folhas de papel sobre que vivia rabiscando, rabiscando, sabe-se lá o quê? E numa dessas aventureiras invasões ilegais, digamos assim, o Jesuíno descobriu uma breve mas gostosa história sobre um mistério que há muito tempo encucava a população do roceiro povoado. Lançou as mãos larápias sobre as laudas e, cautelosamente, sob a lamparina, foi depois colocar a sua curiosidade sobre o que poderia ter saído da cachola do companheiro e amigo.
E viu, ou melhor, leu. Leu o que era a solução de um velho mistério noturno que há muitos anos embatucava a população. Não fora essa revelação de Jair, cronista caipira do bairro, e ainda hoje perduraria ignoto o fato, talvez para sempre. A menos que aquelas páginas rabiscadas e quase ininteligíveis, não passassem de uma brincadeira do “genial escritor” pedreiro. E Jesuíno, assaltante de páginas cronísticas que jamais talvez viessem a lume, tornou-se um arauto delas e tornou possível que chegassem até nós. E o que teria descoberto o estranho ladrão de crônicas? Sigam o Jesuino, concen-trado, à luz da lamparina , na historiazinha encontrada nos papéis surripiados do pedreiro-escritor:
“UM CASO DE LOBISOMEM – O fato de acreditar depende de cada um de nós e todos temos o direito de crer ou não em alguma coisa. Muita gente afirma que lobisomem existe e até já viram com seus próprios olhos. Dizem que tem preferência pelas cocheiras e galinheiros, sempre à meia-noite, na sexta-feira, quan¬do ele se transforma em lobo, cumpre o seu tempo, depois volta ao normal. Palavra de quem acredita. Aquelas pessoas que ouvem passos, barulhos, enxergam vultos e até conversam com os mortos. O mesmo acontece com os que veem lobisomem.
Na pequena comunidade havia algumas parteiras para servir a população e eram estas que faziam o atendimento das mulheres. Certa noite, numa sexta-feira, uma mulher estava para dar à luz e logicamente o marido procurou a parteira do povoado cujo nome era Minca, num sítio vizinho. Partiu Minca a bordo de um carrinho puxado por um animal.
A família atendida acreditava na existência do lobisomem e comentavam que todas as sextas-feiras era ouvido um barulho no galinheiro e seria o tal de lobisomem que atormentava as aves galiformes e sempre levava consigo uma ou duas delas.
Enquanto Minca aguardava a hora do desfecho, eis que surge o costumeiro barulho pelas bandas do galinheiro. A família, como sempre assustada, pediu à parteira que ficasse em silêncio pois era a hora do lobisomem. Esta, porém, abriu a porta de vez, saiu apressada e foi até o galinheiro. Aí fechou a portinhola da casa das galinhas pela tramela do lado de fora. E gritou surpresa para o lado da casa, onde se acotovelavam os donos do galinheiro: “venham, o lobisomem está preso”. Apavorados, todos se recusavam, mas Minca insistia até que os convenceu a chegar até lá. E à luz de um lampião, abriram a portinhola e lá estava, com a maior cara-de-pau, o famoso lobisomem. E sabem quem era?
Nada mais, nada menos, do que o carreiro da fazenda que em todas as sextas-feiras ia fazer sua féria, furtando as galinhas para saboreá-las no fim da semana. E esse foi mais um caso desvendado por Minca, e fez com que a família nunca mais acreditasse em coisas do outro mundo”.
Jesuino embasbacou diante do que lera no manuscrito “roubado” do amigo. E, como era também ferrenho crente dos mistérios fantasmais das noites roceiras, converteu-se. E hoje, se lhe perguntam o porquê dessa mudança fantástica, responde simplesmente: “cá o quê... Lobisomem é gente mesmo”...

Deslumbramento

Batizaram-no de Manuel. Ficou para a vida, depois, o simpático apelido de Manequi. Interessante como se penduricam apelidos nas pessoas. E como todos, pais, familiares, mestres, amigos e outros se unem em torno da alcunha, a repetem, a conservam, a eternizam. Assim, era Manequi daqui, Manequi dali, Manequi de cá, Manequi de acolá. E o Manequi sorria, um sorriso gostoso de quem aprova o nome que de batismo não é. Talvez porque, o Manuel, trazia aquele
diabo de hiato de mau gosto “ue”, tornando-o de certo modo antipático ao uso e meio mole de se pronunciar.
O menino, entretanto, cresceu como todos os meninos da roça, pois na roça havia nascido. Quem baixa a este mundo, em noite escura, arrancado das entranhas maternas por mãos de parteira amadora, já chega berrando, colocando em polvorosa a casa e as vizinhanças, com a força de seu choro valente e promissor. Manuel assim prometia, e mantinha, ao caminhar da vida roceira, a valentia necessária para uma existência difícil, sempre a exigir algo, como eram e são ainda as vidas que brotam, florescem e frutificam na liberdade do campo.
Não quero me deter, por exigências aprisionadoras dos es¬paços muito preciosos dos jornais de todo o mundo, em desfiar em detalhes os dias de infância do Manequi, em muito semelhante a de todos os meninos roceiros; não poderia deixar de dizer entretanto que o nosso herói nascera com um espírito de observação incomum, porquanto se os demais de sua idade e de origens assemelhadas não davam trela observativa aos fenômenos da natureza campesina, a alma de Manequi como que se deixava imantar pelas maravilhas de um amanhecer ou de um entardecer, de um dia de sol, de uma árvore frondosa, de um lavrador lutando de enxada à mão ou arando, de um temporal a toldar os horizontes natais, de uma floresta cheia de todos os arcanos vegetais e animais, de um plenilúnio seresteiro, de um regato a conversar com as ervas e as flores da mata espessa, enfim, de tudo quanto constitui as belezas, os encantos, o amor e o sonho de uma vida campestre.
E sonhava também. Sonhava com um mundo imenso, gene¬roso, rico, feliz e fantástico que deveria existir e brilhar além dos limites de sua roça, como lhe faziam chegar aos ouvidos e ao seu mundo de fantasia, as conversas das visitas forasteiras, as aulas das professoras escolares, o noticiário radiofônico, e especialmente os livros sobre os quais muitas vezes e feito um poço de curiosidade se debruçava o garoto, sedento de conhecer e desejar um dia, quiçá (?), ver de perto, tocar com as mãos gulosas de esperanças e novidades.
Manequi sonhava muito, aliás. Além das fronteiras domésti¬cas que se estendiam até onde os olhos curiosos podiam deduzir, era possível existirem grandes cidades, fabulosas cidades, novas terras, novos horizontes, novas gentes, novos e muitos lares, novos e mui¬tos amigos! E como os desejava! Muitas vezes, na luminosidade do 99
dia, tocando as nuvens alvas e movediças, roncando como estranho animal voador, Manequi contemplava o voo metálico de um avião e vibrava com a ideia de que lá, nas alturas infinitas, dentro daquele pássaro de ferro, havia pessoas, pessoas que buscavam outras terras, outras gentes, outros horizontes. E invejava, e desejava, e batia pal¬mas ao espetáculo, ansioso de um dia também voar aprisionado no seio da ave de aço que comia as distâncias espaciais como se nada fossem.
* * *
O meio-dia sufocava. A roça diluía-se sob a glória do sol. E o calor, e a hora, e o silêncio e tudo convidava para a sesta. Pássaros e bichos silvestres ou domésticos calaram seu canto e seu mugido, buscando a sombra e a tranquilidade. E o ronco do avião destoava como um absurdo, na imensidade azul do dia.
Ao longe, de súbito, o horizonte se abriu e se distendeu fantasticamente. E na fímbria do infinito foram se delineando, como um milagre, inúmeros arranha-céus. Subiam, subiam, quase arra¬nhavam verdadeiramente o céu. Encostavam nas nuvens. E a festa das vidraças faiscava, tremeluzia, caleidoscopicamente, fantastica¬mente. E ele via. Manequi via. E a curiosidade do menino escorria por aquelas paredes intermináveis, rumo ao chão. E aqui fervilha¬vam veículos e mais veículos, de todas as cores, de todos os tipos, num festival fremente de vida e progresso. E homens, mulheres, crianças, velhos, jovens, brancos, negros, orientais, europeus, ame¬ricanos, fervilhavam num caminhar apressado, como quem vai em busca de uma existência feliz, trabalhosa e sonhada. Regurgitavam lojas, casas comerciais, casas de espetáculos, livrarias, estúdios de rádio e televisão, redações de jornais e revistas, escolas, estádios esportivos, trepidavam passos rumo às fábricas, aos supermercados, às praias, aos hotéis e motéis, às repartições públicas, estaduais, municipais, federais... E se fez noite. E a escuridão da noite se iluminou, como se o sol continuasse a sua missão diurna de brilhar. E os en¬tes humanos prosseguiam em sua faina de trabalho, de atividades, de lutas e labutas, sem interrupção entre o dia e a noite. A vida, o caminhar, o trabalhar, o agredir as dificuldades e o viver sonhando com riquezas e belezas, era uma constante, empurrava as multidões apocalípticas para diante, para um porvir fabuloso, na conquista do amor, da esperança, da expectativa, da felicidade enfim.
E Manequi via. Via e se sentia envolto naquela trepidação de vida extraordinária. Via que além de sua vidinha de roça, havia uma enormidade de existência, que ele ignorava, mas que agora contemplava, pressentia, desfrutava. Como era imenso o mundo! E quantos mundos o mundo abarcava!
O pintassilgo da gaiola abriu o biquinho. E cantou. E acordou Manequi de seu sonho, nada mais do que uma realidade que está presente na glória de São Paulo. O menino sonhara? Talvez, não. A televisão mostrava a ciclópica capital paulista, com todo o seu fausto, com todos os seus problemas, com todas as suas conquistas, com todas as suas vitórias e derrotas, em fantástica reportagem, enquanto Manequi, entre a penumbra do sono e da vigília, se deixara envolver pelo deslumbramento da quase ou maior cidade do mundo.
Sonhara de olhos abertos pois a visão que vislumbrara era, sim, a fabulosa São Paulo, festiva e sensacional comemorando seus 450 aniversários de fundação.

Colaboração da Acadêmica Leda Coletti - Cadeira no 36 - Patrona: Olivia Bianco


O Rio e o Mar

As ondas do mar irradiavam reflexos dourados da lua cheia. Tal clarão dava incentivo às águas do rio para o batismo no mar.
Em épocas passadas, esse momento era tenebroso para o rio; significava a ausência de aconchego das plantas nos barrancos dos riachos, o desapontamento de não usufruir com crianças, jovens e adultos as paradisíacas praias fluviais. Sua vontade era permanecer por mais tempo nesses locais, porém, isso nunca foi possível, desde que as águas do rio não podem parar e não retrocedem jamais.
Contudo, nos dias de hoje, ele não mais acalenta esses desejos; ao contrário, quer sua trajetória rápida, pois a paisagem ficou triste, desoladora. As matas ciliares foram devastadas, o leito onde se deleitava com os peixes moleques, fazendo-lhe cócegas, tornou-se viscoso, escuro e infunde medo e repugnância.
Está chegada a hora de ser arrebatado dessa paisagem lúgubre. Suas águas, agora aumentadas pela junção de outros rios, estão sendo arrebatadas pelo mar. A expectativa é de alegria, misto medo.
Mas, eis que, de repente, uma sensação de bem-estar o in¬vade, ao ser recebido pelo mar com mensagens de boas-vindas. É com muita emoção que o mar saúda o Rio da Prata, formado por muitos irmãos, destacando-se de modo especial o Paraná, Tietê e um de nome indígena, Piracicaba. De imediato, o mar se simpa¬tizou com o nome deste último, e quis conhecer um pouco de sua história. Soube que, em algumas dezenas de anos passados, quando ocorriam constantes piracemas, peixes variados de pequeno, médio e até grande porte, tentavam subir as suas quedas d’água.
Porém, o que mais o impressionou foi saber que no Rio Piracicaba, tanto no passado, como nos tempos atuais, sempre aparece sobre suas águas, uma jovem noiva com um véu de brumas esvoaçantes, conhecida e querida por todos que habitam a cidade.
É aNoiva da Colina, que com seu alvo véu, apenas roça levemente as águas, nunca se entregando totalmente a elas. Por essa razão, muitos a chamam eterna noiva, pois ainda não desposou em definitivo o seu parceiro, o Rio Piracicaba.
Ouvindo com atenção o relato, o mar silenciou por instantes, solidarizando-se com esse caso de amor.
Já escureceu. No céu pincelado de estrelas, a lua cheia espia e sorri para o mar, emitindo raios de luz tão intensos, que a noite parece dia!

Colaboração do Acadêmico João Umberto Nassif - Cadeira no 35 - Patrono : Prudente de Moraes


O colecionador de frases

Antonio Castro, mais conhecido como Castrinho, aos sete anos de idade passou a atuar como coroinha, ajudando na celebração da santa missa. Ficou fascinado com a missa em latim. O primeiro trecho que procurou traduzir, com a ajuda do Padre Bento foi Kyrie Eleison.
Do latim,
KYRIE ELEISON
Kyrie eléison. Kyrie eléison. Kyrie eléison.
Christe eléison. Christe eléison. Christe eléison.
Kyrie eléison. Kyrie eléison. Kyrie eléison
Traduziu para o português:
KYRIE (PERDÃO)
Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.
A satisfação de conhecer o significado das palavras que estava falando dava-lhe um enorme prazer, e também certa superioridade junto aos colegas coroinhas, que a princípio estranharam o fato de aquele menino da idade deles saber latim. Uma mistura de ciúmes e fascínio pelo conhecimento do coleguinha. Certo dia Castrinho viu a frase “Alea Jacta Est” (a sorte está lançada), encantou-se com ela e sua tradução. Passou a usá-la em voz alta após entregar cada prova escolar ao mestre. Embora não fosse propriamente um aluno aplicado, suas notas sempre foram razoáveis, e aquelas palavras estranhas aos outros alunos parecia uma fórmula mágica para atrair boas notas. A classe toda repetia a mesma frase ao entregar suas provas ao 88 Revista da Academia Piracicabana de Letras
professor. Castrinho tinha se tornado um líder. Logo foi eleito representante da classe junto à diretoria da escola. Era ele quem falava em nome dos alunos nos dias solenes. Castrinho cresceu, tornou-se um rapaz que deixava as garotas entusiasmadas por ele. Praticava esportes, futebol, natação, chegou a ganhar medalhas como jogador de basquete do time da escola. Prestou vestibular e foi cursar Direito durante o dia e Publicidade a noite. Castrinho, embora tivesse tudo para ser vaidoso e pedante, tratava a todos com a mesma deferência. Do porteiro ao diretor da escola. Isso o tornava popular e muito estimado. Gostava de namorar, de sair nas baladas, viajar quando entrava em férias. Através de intercâmbio internacional de estudan¬tes, morou no exterior. Viajou pelos albergues da Europa. Castrinho passou a ser um colecionador compulsivo de adágios. Anotava todos e transcrevia-os para seu computador. Era fascinado por frases fei¬tas, sem questionar a origem. Com o tempo, passou a usá-las, com o maior cuidado para não causar o efeito contrário: ser um chato. No momento em que ouviu a famosa frase “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”, atribuída a John F. Kennedy, Castrinho tomou a decisão da sua vida: seguiria a carreira política, queria salvar a humanidade da miséria e injustiças. Surgiu nesse instante um novo Dom Quixote. As frases de efeito seriam o seu Sancho Pança. Filiou-se a um par¬tido político, uma legenda que não exigia uma votação estrondosa. Quando estava só em sua casa, ficava diante do espelho do seu quar¬to e ensaiava gestos, palavras, expressões faciais. Auxiliado pelo seu partido político passou a visitar comunidades de bairro, conhecer lideranças. O público feminino delirava em ter aquele quase artis¬ta de novela ali, presente. O público masculino ficava hipnotizado com as falas sábias de um jovem, de origem abastada, dedicando-se à nobre causa de lutar pelos mais necessitados. Era um sucesso total. Seus discursos eram aguardados ansiosamente. Primeiro citava os nomes mais conhecidos ali presentes. Tomava o cuidado de antes estudar quais eram as aspirações daquela comunidade. Se alguma obra pública não tinha sido realizada no tempo prometido, Castrinho soltava: “Não adianta dizer: `Estamos fazendo o melhor que podemos´. Temos que conseguir o que quer que seja necessário”. A plateia vibrava. Ele, então completava: “o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificul¬dade”. “A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é 89
a qualidade que garante as demais”. Era o clímax! Castrinho sentia que os ouvintes entravam em transe. Eram votos garantidos. Ele en¬tão encerrava dizendo: “Não há mal nenhum em mudar de opinião. Contanto que seja para melhor”. A turba, como nos circos romanos, gritava com toda força dos seus pulmões: “Castrinho...Castrinho... Castrinho...!”
Eleito vereador, deputado, governador, Castrinho passou para a fase máxima da sua carreira: candidato a Presidente da República.
Antônio (Tuta) Siqueira foi seu colega no curso de publicidade. Eram amigos, companheiros, e foi dele que partiu a grande ideia: todo eleitor ganharia um celular, se Castrinho fosse eleito iria buscar o chip. O mote da campanha era: “Fale bem pertinho com Castrinho”. Milhares de aparelhos ortodônticos foram distribuídos, sempre para a arcada inferior; se fosse eleito, o portador iria buscar a parte da arcada superior do aparelho. O mote da campanha era “Castrinho eleito, sorriso perfeito”. Camisetas com frases de auto-ajuda foram distribuídas, sempre com o nome do guru Castrinho.
O poema Jabberwocky, de autoria de Lewis Carroll (1832- 1898), autor de “Alice No País Das Maravilhas” surpreendeu e encantou o mundo. Tinha palavras inventadas, alternadas com pala¬vras já existentes. O poeta Augusto Campos tentou traduzir o poema para a língua portuguesa:
“Era briluz. As lesmolisas touvas. / Roldavam e relviam nos gramilvos./ Estavam mimsicais as pintalouvas/ E os momirratos da¬vam grilvos”
“Retoando pela incerosa pradaria, lá vai o alazão, célico e al¬veloz.../ Volteje alazão! Volteje a anseria! (Nils Zen).
Para Castrinho foi o pote de ouro no fim do arco-íris! Castrinho passou a brincar com as palavras. Mastigarei! Se fosse sólido comê-lo-ia. Doa a quem doê-la. O primeiro pé nunca é esquecido. A Suíça é um mundo de faz-de-conta numerada. Esse Bamerindus...
Criou um vasto repertório usando a fórmula que o consagrou. Um de seus pronunciamentos:
“Trabalhadores do Brasil! Escravidarei relojoando, injetando adrenalina por força pancaditiva. Glândulas sudoríporas sideresforçais, forjabras em oleomintos, açonosso, petronosso de cada dia. Brasileiros e brasileiras! Big Brother da moedagem consumitiva,
João Umberto Nassif 90 Revista da Academia Piracicabana de Letras
fiscoespionai, tabelaço no acém como na abobrinha. Despejai fol¬gosas abelhudas e marimbondos espadachins. Minha gente! O igual será diferente, gelomoedas para todos! Poupançadores, enfartem com suas economisérias. Veja o meu reflexo na amplitude dos seus olhos. Se lindo sou, lindo estou, qual cisnedindo em noiteluz. Neto de avô Doutor Honório Causa, conheci Alfa e Beto, e nada mais foi igual nunca antes na história desse país”.
Sendo interrompido pelos aplausos da enorme massa popular ensandecida, Castrinho é estadista consagrado dentro e fora do país. Emocionam-se com as suas palavras, acham-nas bonitas, ditas com convicção, embora poucos o entendam na sua língua mãe, os que se arriscaram a entender chegaram a neologismos e a um amontoado de palavras desconexas. Enlouquece os tradutores oficiais dos países que visita. Porém, todos reconhecem o seu incomparável talento para a oratória, troféu olímpico dos verdadeiros líderes.

Colaboração do Acadêmico João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira no 34 -Patrono: Adriano Nogueira


Prefácio a um poema


Parece estranho pretender-se prefaciar um Poema, principalmente quando se sabe que a Poesia é completa em si mesma, a dispensar qualquer outra espécie de manifestação que se intente fazer, ainda que à guisa de explicação.
A Poesia é, na verdade, o suprassumo da Arte Literária, visto ter o poder de condensar, através da síntese e da metáfora, todo o pensamento que move a sua construção, culminando por materializar no Poema não só o pensamento de seu criador, mas também sua visão de mundo e, principalmente, a inquietação de seu espírito, que parece ser a marca registrada do artista.
A Poesia de verdade quer a palavra certa e insubstituível, colocada na exata dimensão do pensamento criador, capaz de plantar a força e o colorido da imagem na seara fértil do compasso dos Versos. Não descreve a imagem, nem o pensamento, nem a intenção: trá-los prontos e vigorosos, envolvidos na musicalidade imperceptível da Estrofe.
Por isso a Poesia fala ao espírito de forma tão marcante e duradoura, justamente por conter na síntese da imagem e no encanto cadenciado do Verso, todo o universo da alma do artista, sempre encharcada de Sentimento.
Por isso deixa sempre vestígios no espírito dos que apenas a leem, e mais ainda no daqueles que procuram entendê-la. Por isso pode moldar caracteres. Por isso pode transformar universos. Por isso a Poesia não pode ser, sempre e, apenas, diletante. Impõe-se-lhe o compromisso e o envolvimento.
Há de ser universal, como universal é aquela inquietação que assola, diuturnamente, a alma do Poeta, que tem escancaradas as ja¬84 Revista da Academia Piracicabana de Letras
nelas de sua alma, como que para absorver não só a beleza do amor, das cores, dos sons, das alegrias da vida, transformando-os em cantos sublimes, mas também, e principalmente, para sentir as dores imensas e tantas do mundo e das coisas, as angústias das injustiças e os pesares da morte, e transformá-los em sentidas elegias, em gritos de guerra ou hinos de esperança.
Tal é o destino do Poeta. Tal é o ideal da Poesia. Por isso impende que o Poema seja, também
POEMA

I

Mais que um canto de doçura
É preciso que a poesia
seja o látego implacável
vergastando a hipocrisia
Mais que murmúrio suave
lembrando amores doridos
Melhor que a poesia seja
o hino dos excluídos
Mais que frases leves, soltas
em metáforas douradas
seja a poesia o retrato
das misérias disfarçadas
É preciso que a poesia
Seja nas ruas forjada
Que venha da massa informe
Eternamente enganada

II

É muito mais! É preciso
Seja a poesia a fornalha
onde possam consumir-se
o vil, o infame, o canalha
Onde caibam de mãos dadas
os traidores da raça
esses borrões que nodoam
a tela nobre da massa
Onde calcinem ao fogo
os mercadores do vício
os que corrompem valores
militando em torpe ofício
O mentiroso, o hipócrita
sejam também atirados
na mesma lava em que ardem
políticos alugados
Corruptores, corruptos
que se vendem a granel
sejam vertidos às chamas
purificando o labéu
Os que fazem de seus cargos
balcão p’ra vender favores
transformando esta nação
num circo enorme de horrores
Os que fazem do poder
um lupanar de desgraças
fabricando miseráveis
abandonados nas praças
Os que toldam seus mandatos
com o véu da impunidade
e barganham sua honra
pelos brilhos da vaidade
Para esses celerados
Estadistas de brinquedo
seja a poesia a vergasta
nas mãos do povo sem medo

III

Cada verso seja o raio
e o estridor da tempestade
sobre as cabeças caindo
o crime e a infâmia punindo
na fornalha da verdade
Cada estrofe seja a lança
nas mãos do poeta enristada
trazendo na aguda ponta
a dura e feroz afronta
ao perverso destinada
Cada rima leve ao torpe
angústia, remorso e dor
curvando-lhe a fronte impura
ao peso atroz da censura
da turba irada ao furor
Cada poema semeie
o joio da maldição
sobre o trigal das vaidades
onde medram nulidades
enterrando uma nação

IV

Que a poesia seja a espada
e a lava, e o fogo e o cinzel
moldando num tempo novo
nova história para um povo
novo mundo e novo céu.

Colaboração da Acadêmica Ivana Maria França de Negri - Cadeira no 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda


Mulher Água

São tantas as águas,
suadas, choradas
mornas, salgadas,
frias, adocicadas
Todas sagradas.
Águas amnióticas
envolvendo a semente,
alimentando a vida
ainda dormente.
Águas-lágrimas,
de dor, de alegria,
de pura emoção!
Rios brotados
direto do coração.
Águas rubras,
espessas, grumosas,
pacto de sangue
a fluir todo mês.
Águas doces,
leitosas, branquinhas
brotando dos seios,
pingando macias
em ávidas boquinhas.
Águas porejadas,
destiladas, salgadas,
suores voláteis
da lida diária.
Mulher-cachoeira
Mulher-oceano
Vertendo rios, lagos, mares...
Águas de sedução,
jorrando amor
Mulher-água,
fonte da vida!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Colaboração do Acadêmico Hugo Pedro Carradore - Cadeira no 32 - Patrono: Thales Castanho de Andrade



Mensagem para o futuro - Admirável Mundo Novo


As lágrimas já secaram de tanto esperar.
Rindo e depois chorando,
no túmulo dos desenganos
as esperanças foram sepultadas,
depois de tanto esperar.
Mas em alguma parte, haverá um mundo sem espera.
Uma nova ordem:
ordem liberdade,
ordem de amar,
ordem de solidariedade,
ordem de sonhar,
ordem de igualdade...
Um mundo onde não se pregará revolução,
onde as crianças viverão infância sem bombas,
onde haverá perdão,
onde não se falará com ódio,
onde haverá paz n’alma e no coração.
Haverá um mundo cheio de praças,
emolduradas de namorados.
Praças
cheias de crianças,
sem homens desocupados.
Este será o mundo novo,
onde as vozes não serão murmúrios,
onde as praças serão do povo,
onde a liberdade não estará disfarçada,
e os poetas poderão fazer versos
sem falar em misérias e não serão vazios
porque nada poderá conter vazios,
sem olhos vazios,

vazios,
corações vazios,
mentes vazias,
vidas vazias...
Haverá um mundo,
onde os negros serão negros,
mas terão um futuro branco nesse mundo;
porque os brancos não serão diferentes dos negros.
Neste mundo poder-se-á cantar
sem ganhar;
rir,
por querer;
ter, sem pedir:
haver, sem condicionar:
amar,
sem temer;
não apenas existir,
mas, realmente, ser.
Este será o mundo novo.
Mundo em que todos serão povo.
Mundo em que se poderá encontrar o amor,
sem homens pervertidos pela perversão,
sem crianças com fome de pão
e de alfabetização.
Mundo sem dor;
sem mulheres da vida,
mortas em vida.
Mundo sem sangue e guerras,
sem arames farpados,
onde se cobrirão de verde as terras,
e os camponeses não serão esfarrapados,
onde não se poderá ver
tanta gente sofrer,
onde os dias
não serão como as noites,
e as noites
serão claras como os dias,
onde os seios serão coletivos, sem nome
para que não morram mais crianças de fome.
Neste mundo a verdade não terá pudor,
e aparecerá nua diante dos olhos de todos.
A juventude e os pássaros serão livres,
e no lugar de cada cadeia se erguerá uma escola.
Um mundo de homens livres,
porque a liberdade se agasalhou no coração do povo,
neste admirável MUNDO NOVO.

Colaboração do Acadêmico Homero Anéfalos - cadeira no 30 - Patrono: Jorge Anéfalos



O crime de roubar matando


O latrocínio – Esta é a expressão usada para se designar a forma mais grave de roubo. É o crime de “matar para roubar” ou “roubar matando”, no dizer do eminente mestre Bento de Faria. É o crime mais sério que um indivíduo pode praticar, podendo ser enquadrado no art. 157 § 3° do atual Código Penal, sujeito a pena de até 30 anos de reclusão, ou então, conforme o caso, ser incurso no art. 27 § único ou 28 § único da Lei de Segurança Nacional (Decreto-Lei n° 898 de 29/9/1969), com pena de prisão perpétua, em grau mínimo, e morte em grau máximo.
É interessante salientar que a expressão latrocínio não se acha expressa no atual Código Penal, porém, tal denominação já se encontrava no Código de 1890, no seu art. 317. Aliás, no Código Penal previsto para vigorar futuramente, o termo latrocínio volta a ser utilizado, achando-se previsto no § 3° do art. 168.
A caracterização do latrocínio – O crime em questão caracteriza-se quando o agente, para praticar o roubo ou assegurar a im¬punidade do crime ou a detenção da coisa furtada, produz dolosamente a morte de alguém. É conveniente ressaltar também que será irrelevante o fato de a lesão patrimonial deixar de consumar-se. O que interessa no caso é que o marginal emprega a violência com a intenção de roubar e, se não conseguir o produto do crime (dinheiro, jóias ou outros bens da vítima), o latrocínio se consuma da mesma forma.
Outro ponto interessante a ser destacado é o de que para caracterizar-se o latrocínio tanto faz o agente retirar os bens da vítima antes ou depois de sua morte.
Convém notar ainda que, o crime em tela igualmente se configurará se o ladrão-homicida subtrair os bens da vítima em benefício próprio ou de terceiro.
Para melhor entendimento sobre o assunto, cumpre não con¬fundir o art. 121 § 2° inciso V do atual Código Penal com o art. 157 § 3° desse mesmo Código Penal, ou então, não se equivocar o art. 121 § 2° inciso V do futuro Código Penal com o art. 168 § 3° também do futuro Código Penal, como aplicáveis também ao caso de latrocínio, pois que enquadra este crime (art. 157 § 3° C. P. atual e art. 168 § 3° futuro C. P.) é de caráter inegavelmente específico e determinado, pois fala sobre a morte e roubo, aquele (art. 121 § 2° inciso V do atu¬al e do futuro C. P.), diz respeito a crime manifestamente genérico e indeterminado, isto é, a outro crime.
Julgamento de autor de latrocínio – É conveniente esclarecer que o homicida e ladrão, em face do crime praticado, não será levado ao Tribunal do Júri para julgamento, mas sim ao Juízo Singular, ou seja, ao MM. Juiz da causa que, com base nas provas colhidas e constantes dos autos, após ampla defesa, julgará o marginal. Note-se que a pena privativa de liberdade será dosada pelo Magistrado Togado, levando em conta os antecedentes do réu e sua atitude de insensibilidade, indiferença ou arrependimento após o crime, sua personalidade, a intensidade do dolo, os meios empregados, o modo de execução, as circunstâncias de tempo e lugar e a gravidade do crime praticado, de conformidade com o art. 42 do atual Código Penal. O Magistrado levará em consideração, para a fixação da pena, as circunstâncias agravantes previstas no art. 44 do atual C. P. e art. 56 do futuro C. P. e as atenuantes pronunciadas no art. 48 do atual Código Penal.
As provas do crime – Em se tratando de crime tão grave, é evidente que todas as precauções devem ser tomadas para que o local se apresente preservado para a realização do exame pericial. Através deste exame é que todas as provas materiais são colhidas, servindo para a caracterização do corpo de delito e a base do processo crime contra o delinquente. Saliente-se, pois, que a perícia técnica no local do crime e no cadáver é “conditio sine qua non”, conforme determina o art. 158 do atual Código de Processo Penal. Sem dúvida alguma, o Perito deverá possuir bons conhecimentos de Criminalística, além de estar psicologicamente preparado para rea¬lizar perícia num local dessa natureza. Toda a atenção do perito deve ficar voltada para o local e não se deixando influir emocionalmente, a fim de não prejudicar as verificações necessárias.
A vítima e os vestígios no local – O perito deve ter como nor¬mas a mais detalhada e minuciosa observação do local e cuidadosa interpretação dos vestígios ali existentes. Dessa forma, tornar-se-á possível encontrar no local, por exemplo:
a) sinais de luta, tanto na vítima como no local;
b) pegadas de pés calçados ou descalços;
c) prováveis trajetos percorridos por vítima e réu;
d) sinais de estar o criminoso de tocaia;
e) manchas, pingos e respingos de sangue da vítima, do agressor ou de ambos;
f) região do corpo que sofreu o ferimento;
g) a altura aproximada que caíra o sangue ao piso;
h) marcas de pneumáticos, que podem indicar qual o tipo de veículo (caminhão, automóvel, camioneta etc.) utilizado ou relacio¬nado com o fato em apreço;
i) o tipo de instrumento empregado para a consumação do crime (se punhal, revólver, barra de ferro ou outro instrumento adequado para um objetivo criminoso);
j) e outros vestígios interessantes que serão sempre analisa¬dos.
A par de tantos vestígios importantes, poderá o Perito Criminal encontrar, no próprio local do acontecimento: o corpo da vítima, sem vida, apresentando-se com violência física, como por exemplo, um ferimento de contorno circular, de bordas deprimidas, tido como orifício de entrada, localizado na cabeça, produzida por projétil de arma de fogo, comumente conhecida como “bala”, com suas vestes indicando luta e com sinais evidentes de as mesmas ves¬tes terem sido revistadas, com presunção de ter havido subtração de valores. Nesta hipótese, é comum encontrar-se os forros dos bolsos da calça e do paletó para fora, indicando busca.
Quando se tratar de local fechado, como casa residencial, por exemplo, podem-se encontrar as gavetas dos móveis abertas, com os seus conteúdos revolvidos e parcialmente esparsos pelo piso, evi-denciando procura de valores.
É de se notar que, conforme o caso concreto e o tipo de meliante, poderá ocorrer a abertura de cofre-forte. Neste caso, verifica- se se houve emprego de violência ou não para a sua abertura, inclusive a violação no seu interior.
Por outro lado, é de bom alvitre mencionar a grande importância da pesquisa de impressões dígito-papilares em todas as peças e objetos, com a finalidade de se provar a presença de certas pessoas no local do crime, bem como do ladrão-assassino.
Opinião proposta – O latrocínio apresenta-se como crime patrimonial complexo, pois é constituído dos crimes de furto e homicídio, porém autônomo e independente para a devida apreciação. Frise-se, portanto, que se alguém mata e furta não comete dois crimes, mas apenas um, o de latrocínio.
Cumpre esclarecer também que tal crime não é da competência do Tribunal do Júri, como a princípio se pode entender, em vir¬tude da ocorrência de morte. O réu é julgado por Juiz Togado (Juiz de carreira) após analisar todas as provas dos autos, tanto as provas materiais ou objetivas, como as provas subjetivas ou informativas. Aliás, o Magistrado que sentencia o réu de crime dessa natureza é, em última análise, um técnico em leis, com conhecimentos profun¬dos de psicologia humana.
Para maiores esclarecimentos sobre o assunto, lembramos que o art. 74 § 1° do atual Código de Processo Penal, que enumera os crimes da competência do Tribunal do Júri, exclui o crime de latrocínio de sua apreciação. No que tange à Constituição Federal atual, observa-se que o seu art. 153 § 18 fala sobre julgamento de crime doloso contra a vida pelo Tribunal do Júri, porém, referindo-se aos crimes previstos no Título I do Código Penal. Sendo o latrocínio considerado crime patrimonial, fica excluído dessa apreciação.
É evidente que não poderíamos olvidar a figura do DD. Representante do Ministério Público, que representa a segurança e a certeza de que todos os trabalhos serão desenvolvidos convenientemente contra os infratores da lei, considerados elementos de alta pe¬riculosidade, inclusive pela tendência de continuarem a delinquir.
Na atualidade, o crime de roubar matando apresenta-se como um cancro em desenvolvimento, praticado por marginais comuns e até por quadrilhas bem estruturadas, com armamentos poderosos, até iguais ou superiores aos das forças armadas do país, quadrilhas estas principalmente ligadas à exploração e fornecimento de substâncias tóxicas, proibidas por lei, como a maconha, a cocaína e inúmeras outras.
As quadrilhas, face às estruturas e informações que possuem, costumam assaltar empresas as mais variadas, estabelecimentos bancários, carros-fortes e até estabelecimentos prisionais para libertação de presos e apoderamento de armas da polícia ou outras atividades mais diversas.
Sob todos os ângulos, espera-se as ações governamentais do país, dos estados e dos municípios, para enfrentamento e solução deste gravíssimo problema, que tanto aflige o país.

Colaboração do Acadêmico Gustavo Jacques Dias Alvim cadeira no 29 : Patrona: Laudelina Cotrim de Castro



Ainda há esperança
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança”
(Lamentações 3:21)


Lembrei-me das palavras ditas pelo profeta Jeremias, acima transcritas, quando estava buscando um tema para este artigo. Muito triste, ele escreveu esse livro bíblico, em forma de poemas, para lamentar a desolação de Jerusalém, os sofrimentos do povo depois de atacado e cercado pelo exército babilônico e registrar a iniquidade daquela gente. Mas o profeta, também consciente da misericórdia divina, da bondade e da fidelidade de Deus, quer ter lembranças que lhe deem esperança.
Hoje estou me sentindo como Jeremias. Não quero que minha mente seja ocupada com coisas ruins, sentimentos negativos. Não estou interessado em pensar no Brasil de nossos dias, conspurcado pela corrupção, pela mentira, pela trapaça, pelo engodo. Quero, sim, trazer à minha memória, a exemplo do desejo manifestado pelo profeta, o que me pode dar esperança.
E o que me pode dar esperanças? No dia sete de setembro, resolvi, depois de muitos anos ausente, assistir de corpo presente, em plena Rua Governador, o desfile realizado aqui em Piracicaba. Foi uma volta ao passado, pois me lembrei de tempos idos, quando participei de passeatas vestindo o uniforme do Colégio Piracicabano, do Instituto de Educação Sud Mennucci e do garboso Tiro de Guerra. Vibrei com as fanfarras, que me fizeram recordar da excelente banda da então Escola Industrial e tantas outras. E ali fiquei, cerca de mais de duas horas, em pé, sob o sol, apreciando a passagem de tropas militares, escolas de diversos níveis, ONGs, instituições 70 Revista da Academia Piracicabana de Letras
sociais, igrejas, sindicatos, grupo de escoteiros e lobinhos, com seus uniformes, suas cores, seus símbolos, suas evoluções e suas mensagens, ao som alegre de bandas e fanfarras. Eram crianças, jovens, mulheres e homens, mestres e instrutores, gente de todos os níveis sociais, que tinham algo em comum: garbo, alegria, esperança. Muitos eram voluntários. Algo emocionante.
Renovei minha esperança em nosso país. E ela foi crescendo à medida que eu lia as mensagens expostas pelas escolas. Apontavam problemas como a desigualdade, a injustiça, a fome, o analfabetis-mo, a miséria, as doenças, a corrupção, a agressão ao meio ambiente, mas também indicavam caminhos. Lembravam sentimentos nobres como a solidariedade, o amor, a justiça, a paz, a tolerância, a amiza¬de, o respeito ao direito de todos. Virtudes foram exaltadas. O não às drogas e vícios, o alerta para as consequências da devastação da natureza, com apelos para preservarmos as árvores e os mananciais, conservarmos limpos os rios, fazermos bom uso da água, reciclarmos o lixo, cultivarmos plantas e hortaliças, cuidarmos dos animais, sobretudo aqueles em extinção, sem esquecermos da correta admi¬nistração de bens públicos e da honesta aplicação da justiça.
Ainda há esperança. A educação pode fazer a diferença. E a escola já está buscando fazer a sua parte. As crianças estão sendo preparadas para serem construtoras de um novo mundo, um mundo melhor, em que os valores positivos tenham o seu lugar. É preciso que o governo também acredite nisso e canalize para a educação recursos que estão sendo malbaratados ou escandalosamente desviados dos cofres públicos para dutos que os levam para uso reprováveis e escusos. É preciso que o cidadão, a família e a sociedade creiam que a educação é capaz de fazer mudanças, mesmo que leve duas ou mais gerações.
Ainda há esperança. Creiam nisso.

Colaboração do Acadêmico Gregório Marchiori Netto - Cadeira no 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto



Saudação

Tarefa difícil e árdua, porém honrosa e prazerosa, é a incumbência a mim dada pelos meus pares, membros do Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba, de hoje representá-los
nesta solenidade.
Há pouco mais de 50 anos, três ilustres Piracicabanos – Piracicabanos
com “P” maiúsculo – idealizaram uma entidade para auscultar e verificar as necessidades principais do Município de Piracicaba e de sua laboriosa população.
Os três homens foram “Os idealizadores”: Fortunato Losso Netto, Alcides Di Paravicini Torres e Phillippe Westin Cabral de Vasconcellos.
Três homens notáveis que reuniram 33 entidades de atuações profissionais e sociais variadas, que em 24 de abril de 1956, no Clube Coronel Barbosa, fundaram o hoje cinquentenário Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba.
O objetivo estatutário era, e continua sendo, trabalhar em prol da melhoria de vida dos habitantes de Piracicaba e manter preservada a base territorial do município, impedindo a exploração deletéria e conservando seus recursos naturais e a tão exuberante biodiversidade, tão cantada, como encantada.
Os três idealizadores reuniram entidades que possuíssem em seu bojo homens valorosos, com reconhecimento técnico, científico e social, além de ter amor insofismável pela nossa terra e nossa população.
Homens representantes das mais diversificadas entidades que incorporam o Conselho Coordenador, homens de ontem e de hoje, eu os saúdo, a cada um, por sua dedicação e entusiasmo que voluntária e graciosamente empenharam-se e empenham-se para
o bem-estar da população piracicabana e da conservação da beleza desta terra em que vivemos.
Homens com espírito das mais nobres águias, que observam o nosso território incessantemente, ora para protegê-lo de ratos e serpentes, ora para com seus olhos penetrantes ver, além dos horizontes azulados, os valores que podem ser para cá trazidos, carreados e implantados para o desenvolvimento cada vez mais acelerado do nosso rincão, em prol da melhoria da nossa sociedade.
Visão dos três idealizadores do nosso profícuo Conselho Coordenador, homens de inteligência, cultura e sabedoria, que até hoje são reverenciados por benefícios feitos e por suas exemplares personalidades.
Homens como Raul Coury, que teve a coragem de alicerçar o Conselho Coordenador para poder agir em prol da terra onde vivia, e vive até hoje. Homens com denoto e persistência, como Ermor Zambello, que dedicaram mais da metade de suas vidas construindo através do Conselho Coordenador, contribuindo para uma Piracicaba melhor.
Homens intrépidos, audazes, que deram suas forças, suas inteligências, seus conhecimentos, seus suores e suas lágrimas, sem desejarem receber nada em troca de seu valioso empenho, senão a
alegria de dever do ideal realizado para a satisfação da nossa população.
No nosso Conselho os homens são maioria.
Mas há também mulheres notáveis! Mulheres valentes, aguerridas, que pelo seu desempenho e pujança se destacam e se tornaram até presidente. São os casos da marcante personalidade de
Adeli Bacchi e de Cecília Soares. Destacados exemplos para a nossa sociedade. Parabéns a ambas. Muitas das nossas proposições alcançaram êxito. Mais da metade das 400 proposições foram realizadas.
Nosso ideal foi satisfeito! Mais e melhores escolas, mais universidades, mais postos de
saúde, mais cultura, mais lazer, comunicação. Novas e melhores estradas – Luiz de Queiroz, São Pedro, Rio Claro, Limeira, Tietê, a Rodovia do Açúcar, hoje Mario Dedini,
outra proposição do decano dos conselheiros, o notável Ermor Zambello, no ano de 1972. A luta pela preservação e despoluição do maravilhoso rio Piracicaba. A luta contra o Projeto Cantareira e a Gregório Marchiori Netto


Usina Carioba II

Nossas pugnas para trazermos órgãos estaduais! Bombeiros, Polícia Militar e sua escola etc. Nossas últimas lutas para trazermos órgãos federais, como a Receita Federal, Justiça Federal, Polícia Federal etc.
Sem falar de nossa contribuição na vinda de grandes empresas estaduais, nacionais e internacionais, Caterpillar e outras tantas.
Nossa contribuição, das mais preciosas e honrosas, para a implantação e legalização do Projeto Piracicaba 2010, hoje modelo para outras cidades.
O Piracicaba 2010 conta hoje com dezenas de grupos de trabalho e com mais de mil ardorosos participantes que contribuem com seus conhecimentos e trabalho para o bem de Piracicaba.
Tudo para uma Piracicaba maior, mais forte, melhor.
O Conselho Coordenador nunca agiu só – sempre contou com a imprescindível ajuda da mídia – Jornal de Piracicaba, Tribuna Piracicabana, Gazeta Regional e recentemente da Gazeta de
Piracicaba.
Também as Rádios, que sempre estiveram à disposição dos piracicabanos; inclusive da TV Beira Rio.
Mas devemos carinhoso agradecimento em especial à ACIPI (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba), assim como à Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Piracicaba, ao Clube
Coronel Barbosa e Clube Cristóvão Colombo, e também à Academia Piracicabana de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba – por nos abrigarem, pois nos ofereceram sempre um local para nossas reuniões. Obrigado pela gentil acolhida.
O Conselho Coordenador, em sua existência, abrigou como conselheiros representantes das mais diversas entidades, como: dos Engenheiros, dos Médicos, dos Advogados, dos Dentistas, dos Favelados, diversos Lions, Rotarys, Lojas maçônicas, ACIPI, CDL,
vários Sindicatos e Associações de Empregados, Empregadores, Clubes sociais etc.
Praticamente todas as entidades mais expressivas. Teve também participantes de órgãos do Município, do Estado e do Governo Federal.
O Conselho Coordenador sempre agiu com formalidade
quando necessário, porém sem burocracia.
Sempre levou aos Governos Municipal, Estadual e Federal suas reivindicações, instando-os a atenderem, com presteza e qualidade, os anseios da população piracicabana, quer sociais, quer materiais, da terra, da água e do ar atmosférico.
Até na política o Conselho Coordenador colaborou com os munícipes, pois hoje temos dois deputados estaduais e dois federais, para atender o município na esfera legislativa.
Neste momento queremos agradecer o trabalho gratificante e honroso dos membros do Conselho Coordenador e também a cooperação dos governos para a concretização das propostas deste
Conselho, as quais serviram para engrandecer o povo e o território de Piracicaba.
Peço aos Céus que Piracicaba continue tendo homens cooperativos como os membros do Conselho Coordenador.
Ó, Deus Criador, protegei o Município de Piracicaba!
Ó Cristo, dai forças ao Conselho Coordenador para continuar
com seu ideal!
Ó, Nossa Senhora dos Prazeres, abençoai a nossa população!
Que a Cidadania, a Paz e o Progresso reinem em Piracicaba.
Obrigado!
Pro Piracicaba fiant maxima.
Cor unum pro Piracicaba.
Non ducetur, sed ducit Piracicaba.
(Discurso proferido na sessão solene de homenagem aos 50
anos de fundação do Conselho Coordenador das Entidades Civis de
Piracicaba, realizada no salão nobre da Câmara Municipal de Piracicaba,
no dia 25 de abril de 2006).

Colaboração do Acadêmico Geraldo Victorino de França - Cadeira no 27 - Patrono: Salvador de Toledo Piza Junior


Animais da fauna brasileira ameaçados de extinção

Enquanto a população humana aumenta para quase 5 bilhões de indivíduos, muitas espécies de animais estão se aproximando da extinção. A partir do ano 1.600, cerca de 120 espécies de mamíferos e 150 de aves foram extintas. Atualmente, pelo menos mais 120 espécies de mamíferos e 187 espécies de aves estão ameaçadas de terem o mesmo fim.
As causas podem ser diversas, tais como: a) incapacidade de adaptar-se às mudanças do ambiente; b) caça e pesca indiscrimi¬nadas; c) tráfico ilegal de animais: d) destruição ou perturbação do ambiente pelo homem, através do aumento das áreas urbanas e suburbanas e dos campos de culturas e pastagens; e) ação de predado¬res e de doenças; f) poluição.
O maior responsável pela extinção de espécies animais é o próprio homem, que modifica o ambiente natural. A Mata Atlântica, por exemplo, atualmente está reduzida a 7% da sua área original.
No mundo, animais como a baleia-azul, o tigre-de-Bengala, o urso-panda, o rinoceronte, estão ameaçados de extinção.
No Brasil, a lista organizada pelo IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, relaciona 202 espécies com risco de extinção. Como exemplos podem ser citados:
1. Arara-azul. Ave encontrada nos rasos da Bahia. Apreciada por sua plumagem.
2. Ariranha. Espécie de lontra que habita os rios da Amazônia. A caça para obtenção de sua valiosíssima pele causou a sua extinção na Venezuela e põe em perigo no Peru e no Brasil.
3. Codorna. Ave encontrada nos campos e cerrados. Caçada por sua carne.
4. Guará ou cachorro-do-mato.Vive nas matas.

5. Inhambu. Ave que habita as matas e capoeiras. Caçada por sua carne.
6. Jacaré-açu. Encontrado nos rios e lagos da Amazônia. Caçado por sua pele.
7. Jaguatirica. Habitante das matas e regiões pantanosas.Caçada por sua pele.
8. Mico-leão-dourado. Habitante da Mata Atlântica, alvo de tráfico ilegal.
9. Macuco. Ave que habita as matas e capoeiras. Caçado por sua carne.
10. Onça-pintada. Felino encontrado nas matas. Caçada por sua pele.
11. Peixe-boi. Mamífero aquático que vive nos rios da Amazônia. Caçado por sua carne.
12. Perdiz. Ave encontrada nos campos e cerrados. Caçada por sua carne.
13. Tamanduá-bandeira. Encontrado nos campos e cerrados.
14. Tartaruga-verde. Habitante da faixa litorânea. Caçada por sua carne.
15. Tatu-canastra. Animal fossador que habita as matas. Caçado por sua carne.
16. Veado-campeiro. Encontrado nos campos e cerrados. Caçado por sua carne.
A solução do problema requer, entre outras medidas, a criação de reservas naturais e legislação protetora dos animais ameaçados de extinção.

Colaboração do Acadêmico Francisco de Assis Ferraz de Mello - Cadeira no 26 - Patrono Nelson Camponês do Brasil


O rio Piracicaba de ontem

Podeis imaginar que há séculos atrás
Aqui, por onde passa um rio poluído,
– Fantasma do que foi – faminto, prostituído,
Descia um rio forte, atlético, tenaz?


Podeis imaginar que aqui um rio audaz
Corria flamejante, altivo, destemido,
Rompendo a verde mata, violento, aguerrido
– Motivo de epopeias de guerra e de paz?


No salto era feroz, rebentava em cascata.
Então, a índia virgem, a filha da mata,
Chegava até ali para beijar-lhe o pé.


Outras vezes rolava bufando, estridente,
Acordando na taba o paiaguá valente
Que, transido de medo, corria ao pajé.

Ah!... Se pudesse!


Quando eu era criança eu queria
Ser mocinho, usar calças compridas,
Passear, ir a festas, cinema.
Ah!... um mocinho... poder namorar.
Juventude! Passeei, fui ao cine,
Namorei e até me casei.
Realizei o que quis, e ainda mais.
Ansiei por adulto tornar-me,
Trabalhar igualzinho meu pai.

E a idade de adulto chegou.
Trabalhei, trabalhei, trabalhei.
Conquistei experiência de vida
E a cabeça entupi de estudar.
Tudo isso cansou-me demais
Quis ser velho, poder descansar.
E a velhice chegou num repente
Me dizendo matreira: – és um sábio.
Mas agora, o saber me aborrece.
Se voltar ao passado pudesse...
– Ser criança ou mocinho outra vez
E ficar por aí novamente -
Que delícia de sonho, meu Deus!


Os gatos tibetanos (*)

Naquela casa amarela
vivem dois seres humanos
– Um velhinho e a companheira –
Mais dois gatos tibetanos.
Os filhos que ali moravam
– Dois meninos do casal –
Há muito foram-se embora.
Levou-os vento do mal.
Os velhos ficaram sós
Naquela casa amarela.
A velha a chorar de dores
E o velho cuidando dela.
Ninguém mais vai ao local
Há muitos pares de anos.
Fugiram dela os amigos,
Menos os dois tibetanos.
(*) Para Noedy Perecin e Marly T. G. Perecin, meus prezados amigos

Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz