Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
João Umberto Nassif

Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
Ivana Maria França de Negri
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Myria Machado Botelho


Seguidores

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

NO MEIO DO CAMINHO

Elda Nympha Cobra Silveira
Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
As vidas vão seguindo em frente sem nenhum traçado, mas com muitas expectativas.
Pais procuram encaminhar seus filhos pelos caminhos que eles conhecem e talvez até escolhidos por eles, que indubitavelmente no seu parecer seria o melhor.
Assim muitos seguem pela vida encontrando pedras para se desvencilharem, outros pensam que a vida é um mar de rosas, aqueles outros não conseguem enxergar o quanto seu caminho é asfaltado, com sinalização, arvoredos e bons ares perfumados para aspirarem e chegarem ao bom termo da vida. Mas, encontram sempre uma árvore no seu caminho para se chocarem ou se desviarem da sua rota. Isso me faz lembrar de uma história que ouvi contar pela minha mãe.
Um menino árabe passava por uma estrada e encontrou uma árvore no meio do caminho. Ele usou sua sombra para descansar e ao despertar percebeu que nela havia frutos saborosos nunca vistos por ele. Faminto, foi subindo nos galhos e apanhou muitos frutos até se saciar, guardando em um odre muitos deles para seus pais e irmãos provarem e que se conservaram naquele lugar úmido. Também guardou suas sementes pensando em plantá-las.
Ao chegar, todos da família se admiraram com aqueles frutos desconhecidos para eles e foram comendo e guardando as sementes e as plantando, conseguindo com o tempo e muita dedicação formar um pomar, com um tipo de fruto incomum naquela região.
Essa família por seus esforços se tornou próspera com técnicas de plantio, fazendo muitas plantações de damasco, e melhorando financeiramente com a venda desses frutos. Nas gerações seguintes começaram selecionando sementes, usando técnicas de apanho, estocagem, como desidratar, fazer compotas, e conseguindo comercialização dos produtos, até para o exterior, bem longe do seu país.
Sua família se uniu cada vez mais e deixou a pobreza pela visão e esforço de todos da família.
Portanto esse menino achou uma árvore no meio do seu caminho e tirou o maior proveito dela.
A vida é assim, se achar uma pedra também poderá usá-la para fazer o melhor uso dela, depende do seu interesse e otimismo. Ela poderá ser um calcário, um granito, um mármore numa pedreira ou uma pedra preciosa, depende do seu entusiasmo força de vontade e visão de futuro.
Nem sempre é um problema, mas sim uma solução.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O sonho do administrador e o administrador de sonhos

Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme
Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Como seria bom sentir que as instituições: públicas e particulares, escolares, religiosas, familiares, ONGs, enfim, todas as instituições pudessem contar com administradores de sonhos coletivos, com arquitetos do bem, semeadores da paz, construtores da cidadania, iluminados por Deus, que não apenas deduzissem mas também dialogassem antes de decidirem, mesmo que o poder de decisão estivesse em suas mãos.
O que você administra?
Para quem você o faz?
Em escolas públicas existe até uma exigência formal para que ocorra o envolvimento coletivo. Desde o planejamento até a avaliação com toda comunidade escolar representada está oficialmente envolvida.
Supervisão, direção, coordenação, professores, conselho de escola, com representação (de pais, funcionários, professores e alunos) Grêmio estudantil, em reuniões com horários e dias estipulados em calendário escolar elaborado por todos.
Há ainda reuniões de Conselho de Classe e Série.
Reuniões de Pais e Mestres.
Reunião de Professores e htpc.
Se tudo isto for bem feito, por certo haverá uma administração de sonhos coletivos.
Posso dizer que atualmente existem muitos bons administradores que têm sonhos e lutam para realizá-los.
Sonhos individuais próprios ou de outrem.
Sonho de progresso: econômico, social, educacional, religioso, artístico, cultural, científico, político, ecológico.
Sonhos, às vezes, lindos, altruístas, interessantes, cobertos de valores permanentes como: honestidade, caráter, respeito, amor e fidelidade. Mas, conheço poucos que são administradores de sonhos coletivos, de sonhos que muitos administram, ou pelo menos, conhecem e participam, de sonhos de comunidades pequenas, médias e grandes, sonhos onde todos planejam, todos executam, todos produzem para todos, ninguém fica alijado do processo.
O administrador de sonhos é bem diferente daquele que só trabalha os próprios sonhos ou sonhos individuais de outros.
O administrador de sonhos promove os sonhos coletivos, sabe que o processo é tão importante ou até mais importante que o produto.
Ele respeita todos os sonhadores, cuida dos sonhos, otimizando-os para todos.
Conheço pouquíssimos administradores de sonhos coletivos, eles compartilham tudo, até o poder, a vida e os próprios sonhos.
Eles são brisas suaves, constantes promotoras da vida e não vendavais devastadores.
Estes administradores envolvem toda a comunidade neste trabalho.
Ninguém recebe nada pronto todos participam direta ou indiretamente desde o planejamento, até a avaliação final e replanejamento.
Ninguém executa bem ordens de plano que desconhece, ou tarefa que nada tem a ver com ele ou com seus próprios sonhos.
Não há no mundo mais espaço para executor que sequer tenha ideia do que está produzindo.
Conheço até administradores públicos que são administradores de sonhos e por isso são muito mais amados do que temidos provocando uma profunda inveja aos que pensam administração ditatorial, sem diálogo, sem humanidade , sem vida e que jamais conhecem a vida e o sonho dos outros, nunca dialogaram, cobram de todos o que eles próprios consideram essencial, punem os que atrapalham mas nunca os convida para participar, só impõem regras.
É evidente que as funções são diferentes e que a hierarquia exista, mas isto não implica em falta de conhecimento do todo para todos.
Há necessidade de transparência, de conhecimento, de contextualização e de unidade de trabalho na diversidade de funções, harmonia nas diferenças, entusiasmo no e para o crescimento de todos, sucesso coletivo, coesão nas ações, reflexão sobre os resultados, tomadas de decisão adequadas, tudo deve fazer parte da construção de um ambiente melhor para realização dos sonhos.
Se você é um administrador de sonhos, receba meu afetuoso abraço, eu o cumprimento por esse envolvimento no maravilhoso jogo da vida e lhe peço que continue, pois só perde quem abandona, ou quem desanima.
Se você conhece alguém que realiza esta maravilhosa epopéia, incentive-o a continuar, dizendo que só: “Não vale desanimar” e desejamos que seu sonho de administrador seja, realmente, ser o administrador dos sonhos coletivos.

sábado, 26 de novembro de 2011

Acadêmica premiada

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin

A acadêmica da APL Carla Ceres foi a grande vitoriosa no Mapa Cultural Paulista Regional 2011-2012 acumulando as premiações nas categorias Conto (1o lugar) , Crônica (1o lugar) e Poesia ( menção honrosa).

A REALIDADE DAS CAVERNAS

Carlos Morais Júnior Cadeira n° 18 - Patrona: Madalena Salatti de Almeida

E no começo da história Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Ficamos uma beleza com forma humana, muito próximos do modelo da divindade. Pena que nos tornamos somente invólucro. Por dentro, não somos deuses, mas criaturas que sonham com coisas impossíveis. Na verdade, a impossibilidade já faz parte do nosso cotidiano. Nem nos causa mais aquela impressão desagradável! Virou coisa corriqueira, como a droga, a poluição, os tiroteios, os homens-bomba e a corrupção. É a impossibilidade de viver que nos faz todos loucos, alquimistas, seguidores de alguma religião esquisita, ou de alguma filosofia própria de folhetim; é a impossibilidade de ser, que nos torna pragmáticos, mais voltados para a sobrevivência do que para as luzes da razão, e nos empurra para o abismo escuro de uma nova Idade das Trevas. É a impossibilidade de amar que nos torna animais esquisitos, seres quase irracionais, a sorverem de uma avançada tecnologia, sem no entanto, ter a exata consciência de sua utilidade ou de seu limite! Manipular genes, fabricar vida, duplicar animais e plantas, sonhando com um mundo melhor é tudo o que se precisa, e é tudo o que não se tem. Um clone humano, até o momento, ainda é ficção, não menos ficção que a tão sonhada paz nossa de cada dia, não menos idealização do que visões de um mundo tecnológico.
A vida perfeita, sonhada pelos autores iconoclastas e românticos da década de 60 continua somente nos compêndios envelhecidos de modernidade. Passam as décadas e o mundo fica esperando aquela sociedade utópica e justa, onde todos desfrutam dos mesmos direitos e têm as mesmas chances. O que grassa e já acostumamos a ver, é justamente o contrário: o mundo se torna cada vez pior, e está mais perto da anomia e da catástrofe, do que da perfeição. Nesta sociedade tecnológica, e ao mesmo tempo, neolítica, a busca do sagrado ganha cada vez mais espaço na mídia, nas nossas vidas, no subconsciente dos humanos, a provar que não existe nada mais importante do que ganhar o céu, nestes dias conturbados, sem esperança e sem luz. Já que não se pode ser feliz aqui, hoje, quem sabe num Jardim do Éden, numa outra vida, num outro plano, ou numa outra dimensão, menos terrível, menos enlouquecedora!
As religiões proliferam, mas não conseguem resolver os problemas de sempre: miséria, violência, desumanização. Segunda década de um século novo, vida nova, idéias avançadas, porém calcadas nas mesmices que infernizam o espírito humano há milênios. Queremos alcançar a qualquer custo, a divinização, ou melhor, desejamos ardentemente voltar aos tempos corriqueiros do paraíso, e sorver novamente da sua paz, da sua prosperidade e da sua imortalidade. Tudo o que sonhamos é deixar de ser apenas o invólucro que esconde um monstro inusitado, para nos tornarmos a imagem e semelhança verdadeira da divindade. Porém, a cada dia que passa, mesmo com todas as religiões do mundo, com toda a boa-vontade, mais nos afastamos da luz e buscamos a escuridão.
A tecnologia é perfeita, mas não consegue sobrepujar a ignorância, a Ciência é ilimitada, mas não consegue domesticar a fera que em nós habita. Um milésimo do paraíso prometido, com alguns exageros, pode ser desfrutado por uma elite sobre-humana e privilegiada, que detém o poder, restando ao homem comum, apenas a realidade própria das feras e da mais escura das cavernas!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

AS "PEREIRÃO" DA VIDA

Maria Helena Vieira Aguiar Corazza
Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Cada dia mais, as mulheres colocam suas “mangas de fora” e se botam a enfrentar o dia a dia com suas próprias mãos. Dia desses, minha funcionária tomou uma decisão, cansada de esperar ou implorar alguém (um pedreiro no caso), para fazer um conserto no telhado de sua casa, necessitado há muito tempo e piorando agora ao chegar o tempo das chuvas, quando as goteiras fazem seu maior furor e sucesso molhando seus móveis, suas camas, sua sala, cozinha... Um horror no transtorno que fazem e no prejuízo que dão! Daí, surgindo a idéia de: “Se não se encontra mais gente (no caso, homens), para fazer esses serviços domésticos, eu mesma vou aprender a fazer, e não precisar de mais ninguém...”
Então, em mais este item acabam aparecendo “as Pereirão”, com o incentivo da novela das oito horas (que agora já é das nove...), onde a personagem Griselda mostra sua força e coragem para concretizar tarefas que, até outro dia mesmo eram específicas e feitas apenas pelo sexo masculino. Não sei não, mas eu acho que, se esses exemplos pegarem e forem seguidos, e pela perseverança e cuidados que uma mulher demonstra ter geralmente em seus mais diversos afazeres, muitos homens ficarão à mercê delas, e com mais dificuldades em arranjar serviços, infelizmente, pois, a necessidade cada vez mais premente exige rapidez e seriedade, ou pelo menos um bom senso, a fim de facilitar suas vidas já tão exacerbadamente ocupadas e muito cansativas. Tantas dificuldades em se arranjar especialistas em certas necessidades, convenham, não dá mais para só ficar angustiosamente à espera. É pegar, pois, as “devidas ferramentas de trabalho”, e ir à luta mesmo! Tomara que o “sexo forte” abra os olhos a tempo, não se fazendo de “rogados” ou difíceis levando a vontade e persistência feminina mais a sério, pois, cada qual com suas aptidões só facilitariam confortos e maneiras de viver mais brandas e menos aflitivas.
Então, com esses exemplos de mulheres trabalhadoras e batalhadoras que serão capazes de fazer muito mais do que já fazem e, sobretudo, se estiverem dispostas a serem corretas e justas, colocando com sua autoridade benéfica a família em primeiro lugar (tal o exemplo da “bigoduda faz tudo”), esse comportamento que defende “limites” atualmente tão vilipendiados, mas salvadores da dignidade do ser humano poderão influenciar outras delas, elevando sua postura e importância na sociedade de hoje, da qual carecem os brasileiros.
Isso sim enaltece as comunicações televisivas e justificam a participação dos autores em prol do bem comum! Essas atitudes, sim, elevam as virtudes fazendo o povo crescer, se fortalecer, e estar à altura dos valores verdadeiros que, apesar de “quase mortos” conseguirão se recuperar e se impor, a fim de comandar uma população que se sentirá mais orgulhosa e eficiente em angariar, acrescentar e aprimorar bases construtivas, ao invés de só ser obrigada a assistir bobagens e promiscuidades que apenas servem para denegrir o caráter e a imagem do cidadão, e rebaixá-lo à processos retrógrados, chulos e desmoralizadores.
Tomara surjam muitas outras “Pereirão”, e que elas se multipliquem mostrando que “a vida se leva para frente”, e que dificuldades podem ser derrubadas e destruídas, ao simples desejo de tomar iniciativas, superar barreiras e lutar para o bem compartilhado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

IDADE

 Marisa F. Bueloni
Cadeira no 32 - Patrono: Thales Castanho de Andrade

Você me lembra
os anos sessenta
a juventude saindo pelos poros
a vida e seu futuro

Você me reporta
ao sonho do passado
à calça boca de sino
e um colar de couro

Você me inspira
a lua mais bela
a noite sem medos
e a canção infinita

John Lennon existia
o mundo trepidava
- Do you wanna dance?

E num baile
cuba-libre
éramos livres
para praticar a esperança

Você me tomou
em seus braços
e éramos feitos
da mesma matéria dos sonhos

Matéria frágil
- este lado virado para cima
- cuidado!

Soltei sua mão
e me perdi pelo salão

Eu queria
plantar uma árvore
escrever um livro
ter um filho

A árvore não vingou
meu livro encalhou por aí
- só as filhas brilham

Envelheci na cidade
- feliz aniversário para mim
que já não tenho idade

terça-feira, 22 de novembro de 2011

PLANETA ÁGUA

Elda Nympha Cobra Silveira
Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior

Águas que caem do alto dos céus lavando o mundo das perdidas ilusões. Águas que buscam no porvir as bênçãos derramadas pelo amor divino, a me advertirem que posso ser feliz, posso ter as bênçãos dos estados da matéria:, nos três quartos de água que cobrem; como um manto azul, todo esse planeta. Quando o vapor se eleva nos ares e produz nuvens, que apenas vêm até a terra, como se marejassem dos olhos daqueles que sofrem, que choram por um amor escasso, na angustia de se sentirem infelizes, por culpa de um viver tão complicado. Lagrimas vertidas pela saudade de alguém que já partiu e não voltará jamais. Águas essenciais para o nosso viver, elemento substancial, imprescindível no cotidiano do planeta Terra. Águas que são como ouro, como jóias da natureza.
Águas que precisam de respeito, para que um dia não sejam garimpadas, devido à sua escassez, motivada pelo desperdício desenfreado. Águas legadas aos nossos filhos e netos. Águas tratadas com muito afeto e não pela incúria dos ancestrais, que priorizaram o vil metal e não cuidaram dos mananciais. Águas pródigas com quem as respeitam, águas são dádivas divinas. Águas nascentes, ribeirões, rios, cascatas, cachoeiras e costas marítimas. Águas a quem pedimos perdão, por nos comportarmos como herdeiros ingratos, sem capacidade para dar continuidade àquilo que ganhamos de mão-beijada..
Águas que na pia batismal fazem do recém-nascido um bom cristão, para saber discernir de onde veio e para onde vai. Água benta, que nessa hora tão divina, derruba todo mal que no gênese adquiriu.
Chuva que ensopa meus cabelos, envolva meu corpo e escorra pela minha face! Quero a companhia de um lago, um rio, um mar para sanar tudo que me entristece, para refrescar corpo e mente, pra ver tudo em volta com os olhos da alma! Chuva seja minha amiga! Limpe toda negatividade, a obscuridade e me ajude a construir a paz!
Águas que saciam não só a minha sede, quando deitada aqui na rede, aguardo o sol dormir. Quero acordar amanhã, para ver o arco-íris colorido despontando no horizonte, unindo toda a humanidade, de ponta à ponta da terra, até que o sol se despeça, e a lua novamente apareça, e vá tomando seu lugar, espreitando atrás das nuvens e tentando vê-lo partir. Águas despertam energia, porque temos por ela empatia, pois foi no início nossa primeira morada, quando estávamos guardados no ventre materno. Faz parte da nossa natureza estarmos ligados às águas, porque com ela sentimos o aconchego, o desvelo e o carinho.
Sentimos-nos atuantes e cheios de vida quando suamos, liberando as toxinas, limpando o interior dos nossos corpos. Chapinhar na água da enxurrada, como criança, aspergindo, para todo lado, borrifos de água e gritar de felicidade! Ser como quando Deus nos fez. Sermos cíclicos como as águas e curvados como o universo, só que numa dimensão bem maior. Águas e humanos, em seqüência cíclica, são como os únicos habitantes nesse planeta solar.

domingo, 20 de novembro de 2011

TROVAS de Leda Coletti

Leda Coletti- Cadeira no 36
Tema: Entendimento
Com o dom do entendimento
o bem do mal eu separo,
evito causar tormento
e do irmão me torno amparo.

Tema: Amizade
Como é doce a amizade,
relação sempre aquecida,
elo de sinceridade
preenche toda uma vida.

Tema: Pão
Fico em estado de graça
se estou bem com o irmão,
compartilho a mesma taça,
também como o mesmo pão.

Tema: Sonho(s)
Dentro de mim nos meus sonhos
vive um cavalo selvagem,
que vence dragões medonhos
só para que não se acabem.

Tema: Família
A família sendo unida
traz segurança, harmonia,
todos bendizem a vida
na luta do dia a dia.

Tema: Sabedoria
Homem com sabedoria
prioriza mais o ser,
vê em tudo harmonia
não releva só o ter.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

BANDEIRA

Alexandre Sarkis Neder
Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil

A bandeira levantou
aquele dia cedo.
Todos que estavam lá,
sentiam medo.

Eles estavam de esperança,
mas de esperança só na cor.
Na verdade lhes faltava ego,
na verdade lhes faltava amor.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Oratória e Retórica: você sabe a diferença?

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
O fato se passou há pouco mais de um ano, ocupou durante alguns dias páginas inteiras de jornais e marcou presença obrigatória em noticiários televisivos de todo o país, impressionando e apaixonando todo o público. Mas, na voragem vertiginosa da vida diária, esse fato tão espetacular parece já distante, sepultado nas brumas de um passado incerto e pouco definido. Refiro-me ao julgamento do pai e da madrasta da menina Isabella Nardoni, cruelmente assassinada em circunstâncias bem conhecidas.
Esse julgamento trouxe novamente à atenção o que constituía, no passado, uma das atrações da vida cultural brasileira: o enfrentamento, num tribunal, de dois grandes advogados, defendendo posições contrárias e esgrimindo argumentos jurídicos em eloquentes discursos bem planejados e ainda melhor proferidos.
Isso trouxe também à memória a velha distinção, que se fazia, entre Oratória e Retórica. Perguntei certa vez a uma grande professora de História Antiga, que usava muito as duas expressões, qual a diferença entre ambas.
Ela − Profa. Semíramis Corsi Silva − me respondeu que Oratória era a arte de falar bonito em público, enquanto Retórica era a técnica de convencer o público de determinada convicção. Oratória é, pois, sobretudo arte, enquanto na Retórica é a técnica que assume papel decisivo.
O orador deve, antes de tudo, agradar ao seu ouvinte. Deve também ser claro e ser capaz de comunicar-lhe sua íntima convicção.
Aplicam-se ao orador os três requisitos que Santo Agostinho apontava para o bom escritor: agradar, esclarecer e mover os seus leitores. Para agradar, o escritor deve escrever – e, acrescento, o orador deve falar – com beleza; ambos devem ser claros e não confusos nem obscuros, se querem esclarecer seu público, seja ele leitor, seja ouvinte; e, para mover eficazmente esse público, o escritor ou orador deve manifestar-se com calor, com entusiasmo, intimamente convencido daquilo que transmite.
Os gostos estéticos, no que diz respeito à Oratória, variaram muito no decorrer dos séculos. Enquanto os antigos apreciavam a linguagem elevada e solene, em tom claramente declamatório, e se entusiasmavam com belas figuras de linguagem, com antíteses bem ajustadas, com objurgatórias, com increpações e apóstrofes, nas últimas décadas se vem preferindo um estilo mais simples, mais coloquial, mais próximo da conversação corrente.
O bom orador, de acordo com os costumes de hoje, é aquele que fala para um auditório inteiro no tom de quem está conversando com cada um dos presentes em particular. Ele não pode tomar ar professoral (a menos que seja, de fato, professor e esteja se dirigindo a seus alunos), para não parecer pretensioso e antipático. Também não pode usar palavras difíceis demais, que escapem ao nível de conhecimento médio, ou até básico, dos presentes, para não parecer pedante. E sobretudo não pode – o que seria o maior dos erros ─ traduzir ou explicar demais algum termo mais difícil, porque seria passar, para todos os presentes, atestado de franca ignorância.
Quanto à Retórica, no passado muito se estudou e se teorizou sobre ela. Em Lógica Formal se estudavam as regras do silogismo, do raciocínio dedutivo e indutivo, reduzidas, se não me falha a memória, a oito possíveis estruturações de raciocínio correto. E se estudavam as inúmeras formas de paralogismos, ou falsos silogismos, decorrentes de não se respeitarem as estritas normas da Lógica Formal.
Os silogismos, havia que fazê-los sempre a partir de duas premissas, sendo uma maior e outra menor. Havia que tomar muito cuidado para evitar falsas premissas maiores, ou seja, proposições aparentemente (e até formalmente) gerais que, no entanto, embutiam uma restrição que as tornava menores; e havia que estar. igualmente atento para que, em ambas as premissas, termos idênticos fossem entendidos com idêntica extensão. Havia que evitar silogismos baseados em duas formulações negativas, a menos que uma delas fosse duplamente negativa, ou seja, tivesse sentido afirmativo.
Enfim, muitas eram as regras. Era uma teorização, ou pelo menos uma tentativa de teorização, do bom senso mais elementar em matéria de raciocínios humanos.
A Retórica se preocupava, também, em prever as reações do público. Um de seus recursos habituais eram as prolepses, ou seja, a previsão antecipada das objeções que pudessem estar surgindo no espírito dos ouvintes. Procurava, também, prevenir as distrações e esquecimentos dos ouvintes, fazendo, de tempos em tempos, oportunas recapitulações da matéria.
Quando se trata de um discurso feito em oposição a outro (como no caso dos tribunais de júri), é importante o orador saber predispor o público em favor da idéia que defende, assim como desqualificar (às vezes de modo sutil, outras vezes abertamente) a pessoa e os argumentos do opositor. Nessas horas, até a ironia ou o humor tem seu papel.
A mesma professora de História Antiga a que me referi no início deste artigo desenvolveu, em sua dissertação de mestrado, uma longa análise, do ponto de vista retórico, de um discurso judicial proferido em Roma, no século II d.C., por um famoso orador, Apuleio de Madaura. Ela demonstrou como Apuleio conhecia bem, e aplicou ponto por ponto, no seu discurso, todas as regras da retórica então aceitas e divulgadas nos tratados de Retórica.
Interessante é notar que, em linhas gerais, muito pouco mudaram as coisas desde os tempos de Apuleio até hoje... Fundamentalmente, as mesmas técnicas e artifícios usados por ele foram aquelas usadas pelo promotor que acusava, e pelo advogado que defendia, o casal acusado do bárbaro assassínio de Isabella.

Escrevo estas linhas em homenagem à memória do Acadêmico Antonio Henrique Carvalho Cocenza, grande advogado e grande amigo, que no início deste ano nos deixou. Ele foi, também, um mestre da Oratória e da Retórica.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Boa Árvore


Francisco de Assis Ferraz de Mello - cadeira no 26

− Veja esta árvore, filho, como é bela.
Como se veste sem qualquer vaidade.
Com toda a colossal simplicidade
Como é sublime essa beleza dela.

− E como nos conforta o peito vê-la
Dando frutos e sombra com bondade
Ao caminheiro de qualquer idade
E à passarada alegre e tagarela.

− Quem foi, meu pai, essa alma generosa
Que cuidou desta planta, a mais formosa,
Entre todas aquelas que já vi?

− Meu filho, foram mãos desconhecidas,
Anônimas, por certo, redimidas.
Talvez de um santo que parou aqui.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como compreender a beleza literária da Bíblia

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
A Bíblia Sagrada, além de exprimir a Palavra de Deus e, enquanto tal, constituir uma obra de caráter eminentemente religioso, também é, sem dúvida, uma obra literária de grande beleza, com perfeições maravilhosas que o espírito humano pode indefinidamente ir aprofundando e sempre encontrará coisas novas.
No conjunto dos seus 73 Livros inspirados, a Bíblia se revela de beleza, profundidade e lógica impecáveis. Tem uma unidade extraordinária e, ao mesmo tempo oferece uma riquíssima variedade de temas e de estilos. Nela se encontram livros épicos, líricos, místicos, históricos, jurídicos, de provérbios e ditos curtos etc. Temos, nela, textos populares ao alcance de qualquer pessoa e temos tratados profundíssimos. E, tanto uns quanto outros, todos têm uma densidade que desafia os cérebros mais poderosos de todos os tempos, que sempre descobrem coisas novas e nunca conseguem chegar ao fundo de tanta riqueza escondida.
Para usar uma metáfora extraída da própria Bíblia, eu diria que sua leitura oferece nutrição e prazer sensorial similares ao do maná, o alimento milagroso que sustentou os hebreus durante sua longa caminhada pelo deserto, em demanda da Terra Prometida. O maná continha em si não somente todos os elementos nutritivos, mas também todos os sabores desejáveis ao pálato humano. Era, portanto, um alimento completo de todos os pontos de vista. Daí a liturgia católica aplicar analogicamente à Eucaristia, o Alimento da Vida, as passagens bíblicas que falam do maná, por ser este verdadeiramente uma prefigura simbólica da Eucaristia: o maná era o alimento que acompanhava os hebreus na sua jornada rumo à Terra Prometida, alimentando-os e sustentando-os; da mesma forma, a Eucaristia é o Pão Celestial que acompanha os fiéis durante a peregrinação neste mundo, nutrindo-os e dando-lhes forças, na peregrinação rumo à Vida Eterna – da qual a Terra Prometida dos judeus foi, também, uma prefigura.
Mesmo abstraindo de seus elementos religiosos, a Bíblia fornece abundantíssima (ou melhor, inesgotável) matéria para considerações de ordem literária. Uma coisa muito importante, entretanto, para bem entendermos isso, e para não nos perdermos em falsos dilemas que mais desnorteiam do que orientam, é ter presente que a Bíblia não deve ser lida com espírito matemático... Se houver algum matemático entre meus leitores, não me leve a mal, mas o próprio do espírito matemático é a lógica fechada do 2 e 2 são 4. Isso é verdade numa certa dimensão, não porém em outras, que admitem e requerem uma liberdade muito maior.
É preciso considerar, inicialmente, a diferença enorme que existe entre o espírito ocidental (que é o nosso, aquele em que formamos nosso espírito e ao qual estamos habituados) e o espírito oriental. Por exemplo, é preciso compreender bem uma coisa muito presente nas Escrituras: o midraxe.
O gênero midráshico é difícil de entender para nós, ocidentais, mas para um oriental ele é muito normal, muito natural. Uma vez perguntei ao cultíssimo beneditino D. Estevão Bettencourt qual seria a melhor tradução para o termo hebraico midrash. Ele respondeu que seria glosa. Quando se glosa alguma coisa, não se repete a coisa glosada pura e simplesmente, mas se desenvolve com liberdade, por analogias, por extensão, coisas que têm alguma ligação com ela. Essa abundância de sentidos analógicos desnorteia, por vezes, uma cabeça ocidental como a nossa...
Daí o extremo perigo de se analisar os textos bíblicos com nossas cabeças que, queiramos ou não, foram influenciadas pelo cartesianismo e, mais recentemente pelo positivismo.
Um exemplo, entre inúmeros outros: quando se lê, no início do evangelho de São Mateus, a genealogia de Jesus Cristo, desde Abraão, em 42 gerações, dividida em 3 séries de 14, temos, claramente, um recurso midráxico. Um ocidental, quando lê essa nominata de ancestrais do Messias, imediatamente se põe a fazer contas, a calcular o tempo, a verificar cartesianamente se aquela genealogia pode estar realmente correta. Se for um espírito crítico e racionalista, quererá apontar, possivelmente, erros na Bíblia, contradições com outros fatos da própria Bíblia etc. etc. Para um oriental, entretanto, a reação é completamente diferente. Ele contempla a beleza simbólica da tríplice série de ancestrais, ele se encanta com essa beleza, ele usa a divisão das três séries como recurso mnemônico, e nem sequer se incomoda fazendo contas...
É curiosa, sem dúvida, essa diferença profunda entre ocidentais e orientais, mas é inegável que ela existe... Ora, a Bíblia, inspirada por Deus, se destina, mediatamente, ao gênero humano em todos os tempos e lugares, mas direta e imediatamente foi escrita por orientais para orientais. Se não se tem isso em vista, é inevitável que nos percamos pelo caminho, interpretando quadradamente trechos que exigem compreensão muito mais matizada.
Esse é um cuidado elementar, que devemos ter para podermos apreciar a imensa beleza literária da Bíblia.

texto publicado no jornal A TRIBUNA PIRACICABANA

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Retalhos da Vida

Leda Coletti
Cadeira n° 36 - Patrona: Olívia Bianco

Na maioria quadrados: de todos os tamanhos e cores. Certinhos sem senões. São muito fáceis de construir.
Sei que a vida é uma bola que gira e quanto mais rápida mais atordoa; por isso no lugar dos círculos, ainda prefiro os retalhos quadrados. Até que os retangulares servem pra pensar na possibilidade de sair da bolha. Só ilusão, porque quando o caminho parece continuar, já vira pra outro curtinho e faz o medo aparecer. Daí pra disfarçar, a gente remexe igual a balão subindo, subindo pro céu, dançando um sambão lascado, esnobando qual losango pintado de vermelho, branco, preto, dourado. Essa euforia no firmamento dura até o seu lume apagar.
Chega a noite. Extasio-me com a colcha estendida, exibindo no seu centro, retalhos luminosos estrelando a constelação Cruzeiro do Sul !
Relaxo então meu corpo sobre esse azul repousante, onde brincam quadrados,
retângulos, losangos, círculos multicores e sinto nos sonhos, uma nova estrela nascer dentro de mim.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

NATUREZA

Antonio Carlos Fusatto
Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Escureceu o firmamento; nuvens negras voluteavam, açoitadas pelo vento;
Relâmpagos rasgavam o céu, trovões faziam a terra tremer!
Depois tudo silenciou... e veio a chuva..., gotículas miraculosas banharam a terra ressequida.
Assim como a chuva, lágrimas banharam uma face enrugada, amargurada pela ingratidão e abandono.


sábado, 5 de novembro de 2011

Premiação do I Escriba de Crônicas, lançamento do livro "Pequenos Caminhos de Maria Cecília Machado Bonachella" e da coletânea dos selecionados

(fotos de Ivana e Cassio Negri)

Coletânea dos selecionados
(clique e leia)

I Escriba de Crônicas
Felisbino de Almeida Leme da comissão organizadora abrindo o evento
Lucila Silvestre, diretora da Biblioteca Municipal de Piracicaba
Joaquim Maria de Guimarães Botelho, da UBE falando em nome dos jurados

Maria Helena Corazza, presidente da Academia Piracicabana de Letras
Rosângela Camolese, Secretária de Ação Cultural
Ivana Maria França de Negri recebendo o troféu pela melhor Crônica de Piracicaba

Jurado Joaquim Maria e Ivana Negri
Ricardo Fagundes Sangiovanni, primeiro colocado, e a contadora de Histórias, Camila Gordilho

Integrante da Ceta ( Companhia Estável de Teatro Amador) lê  a crônica premiada

Ivana Negri, Ricardo Fagundes Sangiovanni, primeiro colocado do I Escriba de Crônicas,  Paulo Virgílio D´Áuria, segundo colocado, e o ganhador de uma das menções honrosas

Júnior da comissão organizadora, Joaquim M.Guimarães Botelho e Sandra Regina Sanchez Baldessin do corpo de jurados
Representação da crônica premiada pela CETA
Coral
Luzia Stocco, Angela Reyes, Carmen Pilotto, Irineu Volpato e Silvia Oliveira
Camilo Quartarollo, Luzia Stocco, Angela Reyes, Carmen Pilotto e Dulce Ana da Silva Fernandez
Cassio e Ivana Negri, Carmen Pilotto e Aracy Duarte Ferrari
Maria Cecília Graner Fessel autora do livro "Pequenos Caminhos de Maria Cecília Machado Bonachella"
Maria Cecília e netinhos
Rosaly de Almeida Leme, Rosangela Camolese e Bino
Letícia, Maria Helena Brunelli de Camargo e Ciça Bonachella
Letícia e a foto da avó ao fundo, Maria
Cecília Machado Bonachella
Ivana Negri e Andre Bueno Oliveira, da comissão organizadora do Escriba
Terceiro colocado, Ivana Negri, ator integrante da CETA e o primeiro colocado Ricardo Fagundes Sangiovanni
Raquel Delvaje, Lurdinha e Idamis
Luiz Antonio Abraão e João Baptista de Souza Athayde
Leda Coletti e Angela Reyes
Carmen, Ruth, André, Lurdinha, Leda, Ivana, Athayde e Vera

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Homero, Sócrates, Platão, Aristóteles... e nós!

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado

Numa das últimas vezes que estive em Salvador, conversei longamente com um grande amigo que é, também, um grande educador, o Prof. Edivaldo Boaventura (fundador e ex-reitor da Universidade do Estado da Bahia, diretor do jornal “A Tarde”, criador do Parque Estadual de Canudos e ex-secretário da Educação do seu Estado) e lhe perguntei como ele traduziria, para o português, a palavra Paideia. Como bom ex-aluno da Companhia de Jesus, ele, de acordo com o velho costume dos jesuítas, respondeu à minha pergunta com outra pergunta: “− Traduzir, para quê?”
De fato, como ele discorreu em seguida, esse é um conceito quase intraduzível. Podemos conseguir, em outras línguas, palavras que nos permitam nos aproximarmos do conceito de paideia, mas não encontraremos nenhuma palavra que nos traduza, singelamente, todo o rico e abrangente significado da paideia grega.
A idéia fundamental da paideia era a educação, mas uma educação entendida num sentido muito amplo e, paradoxalmente, muito específico. Paideia vem de uma palavra (PAIDOS, ou PEDOS) que significa menino, criança. Paideia era, pois, uma educação de ou para meninos.
A noção de paideia era profundamente ligada à de aretés, que significa virtude. A paideia era, pois, um auto-aperfeiçoamento, pela via do autoconhecimento. O autoconhecimento era o caminho adequado para a aquisição das virtudes. Daí o velho conselho do “Conhece-te a ti mesmo”, que nos chegou pelos romanos, em latim, como NOSCE TEIPSUM ou SCITO TEIPSUM.
Era, porém, um “conhece-te a ti mesmo” enquanto grego, enquanto membro do grupo humano muito amplo dos partícipes (exprimamo-nos em termos modernos) do "greek way of life".
Pois bem, o que era esse conjunto de modos de ser, de pensar e de sentir que caracterizava os gregos, que fazia com que os habitantes da Hélade, provenientes de pelo menos quatro origens diversas, se considerassem um todo psico-sociológico?
Aqui entra o elemento de Homero − o primeiro dos quatro grandes personagens invocados no título deste artigo.
As duas epopéias homéricas condensaram todos os valores e todos os modelos humanos que inspiraram a cultura grega antiga e − como pretendo expor mais adiante − mais do que isso, mais tarde haveriam de fixar, conjugadamente com a tradição do pensamento judaico-cristão, as bases do pensamento de todos os tempos, senão da Humanidade inteira, pelo menos do mundo ocidental.
Nos primeiros tempos, os gregos antigos não tinham escrita, de modo que as duas epopéias homéricas eram transmitidas de geração em geração por via oral, de memória, de cor. Com o surgimento e o desenvolvimento da escrita, a educação grega se fazia sobre os livros homéricos. A paideia tinha como objetivo preparar os jovens para ler e escrever os textos homéricos, e, por esse meio, ler e entender a origem e a especificidade do povo grego. Em outras palavras, não só para se autoconhecerem, mas para se autoconhecerem enquanto gregos.
Essa é uma idéia muito importante para se compreender a especificidade da paideia. Era em ordem à inserção dos indivíduos no universo cultural e psicológico da sociedade grega que se desenvolviam os indivíduos. O aperfeiçoamento individual se ordenava, pois, ao interesse coletivo, para o bem comum, para o interesse e o serviço daquilo que, muito imperfeitamente, se poderia designar como Estado. E, dadas as variações das várias póleis gregas, o modo de entender esse serviço também variava. No caso de Esparta, por exemplo, a vocação militar era muito assinalada e envolvia ambos os sexos. Em Atenas, já era bem diferente, e assim por diante.
Outra idéia muito presente no universo mental grego é que, se o conhecimento é o caminho para o aperfeiçoamento e a vida, o esquecimento é o caminho para a morte.
Verdade, em grego, era a-leteia, ou seja, não esquecer. Na mitologia grega, o rio Lethe, ou Estiges, era atravessado pelos mortos para chegar ao Hades, ou Tártaro, o reino da morte, do esquecimento, imperfeitamente traduzido por inferno. Os mortos, ao atravessarem o rio Lethe na famosa barca de Caronte, bebiam das águas do rio Lethes e esqueciam de seu passado, de sua vida, e tinham, assim, uma segunda morte. Se a primeira morte libertava seu espírito, ou sua alma, dos laços da carne, a segunda, mais radical e irremediável, o libertava de sua memória, de seu passado. Daí serem os mortos chamados, por Homero, de cabeças vazias.
Um ponto muito importante a destacar: na concepção grega clássica, os jovens deviam ser aperfeiçoados, sim, mas não eram todos os jovens, apenas alguns que deviam sê-lo.
Mesmo na concepção formalmente igualitária da República de Platão, a idéia da desigualdade de condições dos homens estava profundamente enraizada. Assim, quando se falava em paideia para educar, aperfeiçoar etc., entendia-se que isso era para os aristocratas. E a palavra aristocrata tem sua raiz exatamente em aretés. Aristocratas eram os melhores, os mais virtuosos, aqueles que eram gregos a um título muito especial. Eram, por assim dizer, os mais gregos de entre os gregos.
Essa idéia, de que a função primordial da educação era destacar e preparar os melhores dentre os melhores, em linhas gerais informou (no sentido filosófico, isto é, de dar forma a uma matéria informe preexistente) toda a educação em todos os tempos. Somente muito recentemente o critério da educação passou a ser estritamente igualitário.
No Brasil, concretamente, foi só com os governos do regime militar, que aplicaram a malfadada Lei de Diretrizes e Bases já esboçada no regime João Goulart, que se alterou profundamente o sistema consagrado. A partir daí, no altar da Igualdade, sacrificou-se a Qualidade. Multiplicaram-se as escolas, as faculdades, os doutores, os títulos, os “depromados” e chegamos ao momento atual. Até os anos 60, em linhas gerais, as escolas públicas eram poucas, mas ministravam um ensino de bom nível. Desde a LDB, as escolas se multiplicaram, as faculdades, idem, mas o ensino, para combater o “elitismo”, foi cada vez mais sendo massificado e, como decorrência, cada vez mais se foi abrindo um fosso intransponível entre o ensino privado (sucedâneo imperfeito do velho ensino aristocrático de outrora) e o ensino público − sucateado, humilhado, descaracterizado. Para implantar a igualdade, acentuou-se a mais cruel e intransponível das barreiras, a das castas culturais...
Platão, Sócrates e Aristóteles, cada qual a seu modo, foram os três filósofos máximos da Grécia Antiga e, também, de toda a Humanidade, em todos os tempos. Eles se abeberaram dos elementos da paideia, desenvolveram-nos, sistematizaram-nos, teorizaram-nos, fixaram suas formas definitivas aplicáveis a todos os tempos. E ainda hoje, milênios decorridos, é sempre nos três grandes mestres gregos que vamos encontrar luzes para resolver a maior parte dos problemas profundos que afligem a Humanidade.
Sócrates, como é bem sabido, foi mestre de Platão, que o foi de Aristóteles. Sócrates nada deixou escrito, mas Platão, seu genial discípulo, divulgou suas idéias, seu modo de pensar, especialmente sua dialética, seu sistema de interrogar, sempre permeado de ironia, de ir fazendo com que o interlocutor descubra, por si mesmo, o que pensa, como pensa, em que medida pensa etc. Ou, pelo contrário, ir fazendo com que entre em contradição e acabe reconhecendo seus erros. É o famoso parto das idéias, a maiêutica, característica do pensamento socrático.
Lembro bem qual foi meu primeiro contato com o “pensamento socrático”...
Tive, no velho Ginásio dos tempos antigos, um colega que era terrível na sua dialética. Ele era loirinho e miudinho, lembrava um pouco o Calvin das histórias em quadrinhos. Ele tinha o costume de “inocentemente” ir fazendo perguntas “ingênuas” aos professores, ia perguntando, perguntando, sempre com jeitinho de quem estava querendo aprender. E o professor ia respondendo, respondendo, habilmente conduzido por aquele maquiavelzinho quase de calças curtas... E quando o venerando e pomposo professor catedrático (naqueles tempos, em escolas públicas, os professores de ginásio defendiam tese e se tornavam catedráticos!) estava empolgado e bem entalado, o meu coleguinha “puxava o tapete” e, para grande alegria da classe inteira, o professor caía feio no chão. O menino o havia levado para uma contradição sem saída...
Os professores tinham pavor dele e comentavam sempre que possuía “um espírito socrático”. Nós todos éramos muito crianças e ainda não sabíamos bem quem era esse tal de Sócrates, mas ficávamos encantados com ele, filósofo que tinha a grande genialidade de ensinar os alunos a dar banhos em professores vazios e convencidos...
Esse foi meu primeiro contato com o velho Sócrates...
Não se sabe até que ponto Platão foi estritamente fiel, ao divulgar o pensamento de Sócrates, até que ponto o reinterpretou e lhe incutiu sua marca pessoal.
Quanto a Platão − mais generalista, idealista, utópico − e seu discípulo Aristóteles − mais específico, sistemático, empírico e cientificista − ambos marcaram as duas vertentes do pensamento humano.
Um fato para mostrar bem as diferenças entre os dois: Platão escreveu a República, tratado teórico sobre como deveria ser uma sociedade ideal. É utópico, mas é utilíssimo e teve importância fundamental para o desenvolvimento da Ciência política.
O mesmo problema, colocado diante de Aristóteles, teve solução radicalmente diversa. Aristóteles era prático, era empírico... e dispunha de verbas mais ou menos inesgotáveis do seu rico protetor Filipe da Macedônia.
Enviou, então, emissários a todas as partes do mundo conhecido, com a missão de elaborarem relatórios exaustivos sobre como todos os povos se organizavam e governavam. Ao cabo de anos de pesquisas, reuniu mais de 200 relatórios. Estudou, então, todos eles e, a partir desses estudos de caso, elaborou sua Política, sobre as formas de governo.
Platão foi direto à teoria e sistematizou um regime ideal, embora sabendo-o irrealizável. Aristóteles partiu do real e chegou à teoria da melhor forma de governo em tese, e da melhor forma de governo possível. Esses dois caminhos seguidos indicam duas vertentes, duas variantes do espírito humano. Correspondem, também, aos dois métodos clássicos do raciocínio filosófico, o indutivo (do específico para o genérico, do prático para o teórico) e o dedutivo (do geral para o particular, do teórico para o concreto).
Não se pode dizer, no plano axiológico, que uma dessas variantes seja superior à outra. Ambas são complementares, ambas se alternam ao longo dos tempos, às vezes nas mesmas pessoas. E ambas se abeberam em Sócrates e, mais remotamente, na paideia homérica.
Sem Homero, não teria havido Sócrates. Sem Sócrates, não teria havido nem Platão nem Aristóteles. Mas sem Platão e Aristóteles, talvez Sócrates fosse lembrado apenas como mais um dos obscuros sofistas de seu tempo. A tríade é inseparável. São, sem a menor dúvida, os três maiores cérebros da Antiguidade. Sem essa tríade, talvez Homero fosse mais um dos incontáveis autores mitológicos esquecidos de todos. Foi a tríade que fez com que o gênio de Homero fosse reconhecido e admirado em todos os tempos.
Séculos depois dos três grandes gregos, já na Era Cristã, foi remotamente discípulo de Platão o neo-platônico Santo Agostinho, dando origem a uma ampla escola de pensamento católico que teve inúmeros seguidores. Talvez o mais célebre e importante deles tenha sido São Boaventura (século XIII).
Aristóteles teve suas idéias relançadas e aperfeiçoadas por São Tomás de Aquino, contemporâneo e amigo de São Boaventura. A filosofia aristotélico-tomista ainda hoje tem numerosos seguidores e marcou profundamente todo o pensamento humano.
Resumindo e condensando estas longas divagações, digo, pois, pontualmente: Homero in-formou a paideia grega, que produziu os três grandes filósofos, que, por sua vez sistematizaram e teorizaram a paideia na sua forma suprema e definitiva. E ela chegou até nós, permanecendo, queiramos ou não, bem viva e atuante.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

LUTO


Cezário de Campos Ferrari
Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral

                                          Luto

Convidado pelo ilustre acadêmico Prof. Armando Alexandre dos Santos a redigir um artigo para a revista já vitoriosa da Academia Piracicabana de Letras, pensei em vários temas que passavam por mim, porém, decidi-me ao ler um dos artigos da minha colega Taísa Berlingieri, filha de meu amigo Mario Berlingieri, de Jaboticabal – SP, exímia psicóloga e pesquisadora do problema luto, inspirada nos versos de Carlos Drummond de Andrade em seu poema PARA SEMPRE e também em artigos da jornalista e escritora Eliane Brum.
Por ser o mês comemorativo do dia das Mães, ela compartilhou com o leitor o texto, pude refletir introspectivamente a suas escritas:
PARA SEMPRE
Por que Deus permite que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite, é tempo sem hora,
Luz que não se apaga quando sopra o vento
E chuva desaba, veludo escondido,
Na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento.
Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio.
Mãe na sua graça, é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
De tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre,
Junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino
Feito grão de milho.

A autora afirma que as mães não deveriam morrer. Senti tanto o desamparo de uma amiga que perdeu a sua mãe porque sei que as mães não deveriam morrer.
Quando perdemos alguém que amamos, a dor é tão extravagante que nos come vivos, como se fosse uma daquelas formigas africanas que vemos nos documentários da National Geographic. A dor está lá quando acordamos, continua lá quando respiramos. Espreita-nos do espelho diante do qual escovamos os dentes de manhã com um braço que pesa uma tonelada. E, quando por um instante nos distraímos, crava seus dentes bem no coração. Neste longo momento depois da perda, sabemos mais dos buracos negros do que os astrônomos, porque carregamos um dentro de nós. E arrancamos cada dia nosso do interior de sua boa ávida, com uma força que não temos, para que não nos sugue de dentro para dentro.
O artigo escrito pela psicóloga Taísa Berlingieri colocou em mim uma reflexão positiva a respeito da morte, que já havia adquirido quando tive a oportunidade de escrever meu livro há alguns anos, como o tempo sendo um período só dele e que não pode ser determinado em parte alguma e nem por ninguém. Vamos começar a perceber que a mãe é uma ausência presente, poderemos reencontrar a mãe dentro de nós mesmos.
Profundamente agradecido à Srta. Taísa por ter-nos dado esses ensinamentos.




Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz