Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria 2025/2028

Presidente: Raquel Araujo Delvaje Vice-presidente: Vitor Pires Vencovsky Diretora de Acervo: Christina Aparecida Negro Silva 1a secretária: Elisabete Jurema Bortolin 2a secretária: Ivana Maria França de Negri 1o tesoureiro: Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto 2o tesoureiro: Edson Rontani Junior Conselho fiscal: Antonio Carlos Fusatto Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal Cássio Camilo Almeida de Negri Jornalista responsável: Evaldo Vicente Responsável pela edição da Revista: Ivana Maria França de Negri Conselho editorial: Aracy Duarte Ferrari Eliete de Fatima Guarnieri Leda Coletti Lídia Sendin Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins

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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

ESPANTALHO*



Carla Ceres

De palha ressecada é meu destino,
Pois somos o que dentro carregamos.
Que importa se, em meus sonhos, imagino
Brotar e florescer em verdes ramos?

As brisas deste azul tão cristalino
E os sóis impiedosos são meus amos.
Meus gestos junto ao vento repentino
São asas assustadas que espantamos.

Sozinho, sou espanto preso a estacas,
Andrajos que afugentam asas fracas,
Faminta revoada ano após ano.

Tremendos os temores que hoje espalho,
Que chego a ser o meu próprio espantalho,
Temendo meu destino em palha e pano.

* Poesia premiada em segundo lugar no XX Prêmio Cidadão de Poesia de Limeira

domingo, 13 de novembro de 2016

Poesia Premiada - Carla Ceres


A acadêmica Carla Ceres ganhou 2º lugar na categoria Comerciários no 3º Festival de Poesia da Fecomerciários com o poema “Parte do Jogo”.


PARTE DO JOGO

Perto do belo jazigo,
um pokémon se sentava.

Embora fosse um fantasma,
trazia muitos amigos:
uns de fogo, outros de água,
dois morcegos e umas fadas.



Tão difíceis de pegar
quanto memórias de sonhos,
alguns sumiram no ar,
deixando somente o pó
ao qual logo voltaremos.

A vida é jogo de amar.
Saudade também faz parte.
Armando o real com arte,
só resta jogar. Joguemos!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Esquinas improváveis

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin 

Todas as cidades têm seus cantos secretos: ruas que se cruzam em momentos estranhos, lugares que surgem dependendo do estado de consciência de quem os encontra. Em Piracicaba, um desses espaços mágicos fica no cruzamento da Rosário com a Tiradentes. É uma pequena loja sem nome, com uma placa anunciando “Manuais, guias e tutorias sobre qualquer assunto imaginável”. Meu amigo Luís esteve lá.
Tinha que ser o Luís para descobrir uma esquina onde duas ruas paralelas se encontram! Acontece que ele bebe um pouquinho demais, gosta de escrever poesia, sonha acordado com frequência e, além disso, tem um punhado de parafusos soltos mesmo. Sua maluquice contagiosa afeta a cidade, que é louca por ele. A seu pedido, Piracicaba entrelaça suas ruas a seu redor, criando esquinas improváveis, como rede de proteção.
Quando a loja de manuais apareceu, Luís vinha de uma desilusão amorosa, a terceira do mês. Bebia e uivava pela rua, amaldiçoando essa “droga de vida, que vem sem manual de instruções”, essas “mulheres inexplicáveis do meu coração”. O jeito era morrer porque “Eu me recuso a viver num mundo sem manual!”, ele gritava. “Quero as regras do jogo agora! Agora! Ou desisto de brincar e pulo do tabuleiro da vida. Pulo direto pra frente de um carro.”
No cruzamento das paralelas, acenderam-se as luzes da loja. Um vendedor chamou: “Por aqui, poeta! Temos guias, manuais, mapas, tutorias, impressos ou digitais, sobre o mundo e muito mais. Tudo isso a seu dispor. Entre e leia, por favor!” Luís entrou e desapareceu da cidade por um mês. Ninguém sabia dele.
Bombeiros procuravam seu corpo no rio, enquanto Luís, sempre na loja, fartava-se de ler e descobria que os manuais, por melhores que fossem, jamais dariam todas as respostas a tempo. Os guias simplificados eram fáceis de ler, mas desconsideravam as inúmeras variações possíveis na vida. Coisas simples podiam ter regras simples, como “As Normas da Corda Bamba – Primeiros Passos”, livreto que ele, desafiadoramente, pediu para ver, quando ainda duvidava que o vendedor pudesse apresentar-lhe manuais sobre qualquer matéria.
Assuntos complexos exigiam manuais igualmente complexos, que levariam a vida toda para ler e outra vida para entender. Luís era inteligente demais para dedicar-se a um tema só. Leu sobre a vida, o amor, o possível, o impossível. Misturou tudo na cabeça. Leu sobre organização de ideais. Lembrou-se de perguntar ao vendedor quanto pagaria pelo acesso a tantas informações. “Quase nada, poeta”, respondeu o vendedor, “você paga com seu tempo. O tempo que você passa aqui lendo sobre a vida é descontado do tempo que lhe resta a viver. É bem barato para quem pensava em saltar na frente de um carro, não acha?”
Cheio de dúvidas, Luís preferiu sair da loja. Mal pisou na calçada, mudou de ideia. Tentou voltar para dentro. Não conseguiu. O estabelecimento desaparecera. Em seu lugar, estava um posto de gasolina abandonado.
Luís só conta essa história quando bebe. Apresenta, como prova, anotações incompreensíveis sobre um suposto manual chamado “A Física e a Metafísica da Corda Bamba”.




domingo, 31 de agosto de 2014

LINHAGEM

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin 


Poema bastardo
Bateu porta em porta
Vendendo seus falsos
Brasões de família.
Diz vir de outras terras:
Espanhas ou Franças...
Talvez Alemanhas
De vagas lembranças.
Poema de rua
Viveu vira-latas
Catando outros cantos
Que perto passavam.

Cantigas perdidas
Uniram-se a ele
Gerando versinhos,
Histórias, pregões
Que vagam vendendo
Seus falsos brasões.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

VERDADES DE ARGILA

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin 

Seres humanos precisam de lembranças como ceramistas precisam de argila. Nosso reservatório de memórias é um quarto escuro onde guardamos experiências de diferentes matizes (aquele pôr do sol em bela companhia, o verde gritante de periquitos em revoada, o fantasma cor de medo que nos assombrou um dia), densidades (a delicadeza da seda, a fofura da lã ainda na ovelha, a espessura doce do mingau de aveia), cheiros (perfume de musgo em parede fria, terra molhada lá longe quando a chuva anda por perto, cheiro de sol nas roupas do quarador) e sabores (o gosto de saudade na batatinha frita que vovó fazia, o amargo do remédio que se toma por amor a quem nos ama, o doce do beijo roubado).
Coletamos lembranças pelas barrancas da vida e, com elas, moldamos nossas verdades como o ceramista conforma o barro à imagem e semelhança de seu criativo saber. Reunimos memórias diferentes, amassamos o passado até se tornar trabalhável, retirando impurezas inconvenientes a nosso projeto e, às vezes, umedecendo a mistura com lágrimas de alegria, tristeza ou poesia. Modelamos lembranças deixando impressões na verdade inventada que, então, vai ao forno de nossas paixões, onde queima e requeima até solidificar-se.
O ceramista, entretanto, percebe a diferença entre a argila e o objeto criado ao passo que nós chamamos de lembrança as úteis “verdades” que fabricamos para embelezar ou simplificar a vida. O passado é complexo demais. Tem muitos acontecimentos que jamais compreenderemos por inteiro. As pessoas, além de complexas, mudam com o tempo. Precisamos simplificar pessoas e fatos para calcular nossos próximos passos. Isso até funciona se soubermos a hora de jogar ao chão as “verdades” antigas que não servem mais, estilhaçando convicções incorretas.
Em um mundo mutável, verdades são provisórias e deveriam ser mantidas longe de paixões solidificadoras. Só assim continuarão maleáveis como deve ser o que se pretende eterno.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Vampiras e feiticeiras

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin 
Dizem que o século XIX foi a época áurea do vampiro literário. Para a tristeza das donzelas heterossexuais de mil oitocentos e água benta, essa informação não procede. Embora o romance Drácula, de Bram Stoker, tenha sido publicado em 1897, os personagens mais marcantes da época vitoriana foram as vampiras.
A partir de Drácula, a literatura e o cinema do século XX foram invadidos por vampiros cavalheiros, cada vez mais charmosos e emocionalmente complexos. As vampiras tornaram-se coadjuvantes, aparecendo como noivas vaporosas e/ou terríveis guarda-costas, no harém de um vampiro alfa.
Uns cem anos depois de Stoker, os vampiros rejuvenesceram. Enquanto alguns ganharam visual e conflitos semelhantes aos das atuais gangues de rua, outros chegaram ao século XXI, adolescentes e brilhando ao sol. Sejamos honestos, embora vampiros faiscantes ainda não sejam tradicionais, a presença de adolescentes faz sentido. Onde um vampiro encontraria uma donzela romântica se não fosse entre algumas garotas americanas, para as quais a virgindade voltou a ser uma virtude em si mesma? Como a sociedade politicamente correta reagiria à cena de um vampiro adulto seduzindo uma jovenzinha? Melhor fazer um vampiro também jovem, pelo menos na aparência.
Os vampiros mitológicos nasceram em várias culturas diferentes, espalhadas pelo mundo todo, muito séculos antes dos vampiros literários. Simplificando, o vampiro é um cadáver que suga o sangue dos vivos e pode transformá-los em novos vampiros. Por absurda que pareça hoje em dia, a existência de uma criatura assim fazia muito sentido quando foi imaginada. Os mortos apresentam uma palidez cuja causa, imaginava-se, era a falta de sangue no corpo. Se perder sangue é perder vida, obter sangue é continuar vivendo.
O instinto de sobrevivência nos diz que estar morto não é nada bom. Portanto os mortos, certamente, fariam o possível para continuar entre nós (visitando nossos sonhos e delírios febris) ou para levar-nos com eles. Prova disso era que, quando alguém morria e não se tomavam as medidas necessárias para manter esse alguém bem morto e quietinho, outras mortes ocorriam entre seus familiares, amigos e vizinhos. Em resumo, a crença em vampiros se relaciona com epidemias.
Dependendo da cultura à qual pertenciam, os vampiros e vampiras mitológicos eram vistos como entidades malignas ou divindades vingadoras, que puniam os homens por seus erros. Sob o domínio do cristianismo, passaram todos à categoria dos demônios pagãos, subordinados ao diabo judaico-cristão que podia ser combatido com cruzes, crucifixos, água benta, hóstia consagrada e preces.
Os vampiros literários do século XIX originam-se da fusão entre o vampiro da mitologia eslava e as crenças cristãs. O predomínio das vampiras está profundamente ligado aos quatro séculos de Inquisição, que terminaram apenas em meados do século XVIII, e tornaram as mulheres a personificação do mal.
Embora a Inquisição tenha torturado e condenado à morte milhares de homens, cerca de 85% de suas vítimas foram mulheres. As estimativas apontam desde cem mil até milhões de feiticeiras eliminadas. Um dos livros mais terríveis já escritos, “O Martelo das Feiticeiras”, ensinava como obter confissões e explicava que a mulher “é mais carnal que o homem, como fica claro pelas inúmeras abominações carnais que pratica.” E continuava: “Deve-se notar que houve um defeito na fabricação da primeira mulher, pois ela foi formada por uma costela de peito de homem, que é torta. Devido a esse defeito, ela é um animal imperfeito que engana sempre.”
Não é brincadeira. Esse livro foi o manual de instruções dos inquisidores. De acordo com ele, as feiticeiras adquiriam seus poderes após copularem com o demônio. Não adiantava os maridos permanecerem acordados, vigiando as esposas adormecidas. O demônio é invisível e a cópula ocorre sem ninguém ver. Se o marido não viu, é prova de que realmente aconteceu.
Feiticeiras e vampiros literários têm muito em comum: são sedutores, controlam animais noturnos, podem tornar-se invisíveis, temem objetos sagrados para o cristianismo. A Inquisição terminou e deixou mulheres submissas a maridos e espartilhos que mal lhes permitiam respirar. O feminino estava domesticado, porém até as donzelas mais pálidas e recatadas continuavam sendo mulheres, ou seja, malignas. Bastava que o mal se aproximasse e as seduzisse para voltarem a pecar. Saem de cena as feiticeiras do mundo real; surgem os vampiros e, principalmente, as vampiras na literatura.
A primeira vampira literária aparece em 1797, no poema “A Noiva de Corinto”, de Goethe. É uma jovem que morreu virgem, mas voltou como vampira para seduzir um rapaz. Em 1816, o poema inacabado “Christabel”, de Coleridge, é publicado e traz a primeira vampira implicitamente lésbica, Geraldine, que seduz a inocente donzela Christabel. A partir daí, lésbicas ou não, as vampiras reinam em contos e romances. Aos homens, cabe resistir a seu fascínio, transpassá-las com estacas e salvar donzelas.
Atualmente, duzentos e cinquenta anos depois de Inquisição, as donzelas literárias vão à forra e tratam de seduzir os vampiros.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DE OSTENSÍLIO A TECNOFÓSSIL VIVO *

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin 
A tecnologia envelhece mais rápido do que nós ganhamos dinheiro para substituir nossos ostensílios (utensílios de ostentação) eletrônicos por modelos último tipo. Produtos de ostentação pública, como celulares, ficam no topo da cadeia de renovações periódicas. Alguém ainda sai carregando um celular antigo, tipo tijolão? As TVs, como ostensílios domésticos, nos quais vemos o mundo e sonhamos ser vistos por ele, também são trocadas com frequência. Passam por achatamentos, esticamentos e fazem jus a uma infinidade de novos painéis e suportes decorativos para mostrar pras visitas.
No meio dessa gastança, alguns aparelhos permanecem essencialmente inalterados e sobrevivem desde períodos tecnológicos muito antigos. São tecnofósseis vivos. Claro que, em termos de tecnoconsumismo, a expressão “muito antigo” significa uns dez anos.
Antes visto como um ostensílio de primeira necessidade, o videocassete chegou à categoria de tecnofóssil vivo, ao sobreviver ao meteoro publicitário que anunciou a chegada do DVD. “Vídeo” ou “VCR”, para os íntimos, ele segue pacificamente ruminando suas fitas ao lado de novas tecnologias e deixou saudade nos que o trocaram por seu lerdo concorrente.
Nos primórdios da videolatria, a sofisticação e o preço do aparelho intimidavam os seres humanos adultos. As crianças, no entanto, aprendiam logo a abrir e fechar o compartimento da fita, que se erguia como um elevador, na parte superior do equipamento. Bastava os pais saírem, para os meninos colocarem seus carrinhos de brinquedo dentro do vídeo. O barulho das engrenagens emperrando precedia o grito e o chororô de “Pai, o videocassete engoliu meu carrinho!” E tocava levar o vídeo pro conserto!
Cães e gatos tampouco se intimidavam com a importância do VCR. Sem cerimônia, roíam o fio de seu controle remoto. Sim, o controle remoto era com fio. Acho até que só evoluiu para sem fio, por causa dos animais de estimação famintos. Por falar em fome... Quando a entrada da fita passou a ser feita por uma abertura frontal, o aparelho ganhou uma aparência mais amistosa para as crianças menores. Aos olhos delas, aquela grande boca retangular precisava ser alimentada com balas, chocolates e poderia (por que não?) aceitar chupetas.
Quando encontravam bolachinhas entre as engrenagens, as formigas se alegravam, mas seria injusto culpar as crianças pelo fato de alguns vídeos se tornarem verdadeiros formigueiros. O aparelho atrai formigas porque é quentinho e tem uma graxa doce, de cheiro apetitoso. Enquanto passeiam entre os componentes eletrônicos, as formigas são inofensivas, mas, quando morrem, liberam um ácido que danifica o aparelho. Pro conserto, outra vez!
Como um monstro mitológico, o VCR foi ganhando cabeças ao longo de sua evolução. Começou com uma de áudio e duas de vídeo. Terminou com sete, entre áudio, vídeo e apagamento. A cabeça, ou cabeçote, era o componente mais caro e frágil ao alcance do usuário metido a técnico. Quando a cabeça ficava suja, era comum haver quem se aventurasse a abrir o aparelho para limpá-la como se fazia com os cabeçotes dos velhos gravadores de fita K7, ou seja, usando álcool e um cotonete. Resultado? As fibras do algodão se enroscavam no cabeçote e o quebravam. Depois de desembolsar um bom dinheiro, os proprietários aprendiam como limpar direito ou deixavam a missão com os profissionais.
Por sorte, esses profissionais não se extinguiram. Foram apenas obrigados a evoluir, o que garante aos tecnofósseis atuais e futuros uma vida saudável enquanto existirem peças de reposição.

* Crônica classificada em primeiro lugar no Mapa Cultural Paulista - fase Regional

sábado, 26 de novembro de 2011

Acadêmica premiada

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin

A acadêmica da APL Carla Ceres foi a grande vitoriosa no Mapa Cultural Paulista Regional 2011-2012 acumulando as premiações nas categorias Conto (1o lugar) , Crônica (1o lugar) e Poesia ( menção honrosa).

sábado, 30 de julho de 2011

A sétima escultura

 Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Grigolin
Eu tinha apenas sete anos e estava ajudando meu pai na marmoraria quando aconteceu pela primeira vez. Foi rápido demais. Apaguei enquanto varria o chão. Correram parentes, correram clientes, correram vizinhos, correu a notícia:
− O Zizinho da marmoraria morreu!
Esse “Zizinho” era eu, mas só me chamavam assim depois de morto. Em vida, eu era “aquele moleque do Ziza”, “aprendiz de capeta”.
Foi tanta gente carinhosa vindo chorar no meu velório que desisti de morrer e voltei.
− Catalepsia − diagnosticaram os clientes mais cultos.
− Milagre − concluiu minha mãe.
− Parte com o diabo − sentenciaram os vizinhos.
A família precisou me desterrar para a casa de um tio, porque os clientes começaram a evitar nossa marmoraria. Achavam que eu não dava sorte.
Tio Olavo foi bom para mim. Generosamente aceitou minhas dez horas de trabalho diário, como aprendiz, na fundição. Assim eu não sentiria que estava “morando de favor”. Permitia-me, também, continuar esculpindo nos momentos de folga.
Ah, as esculturas, minha paixão, estiveram sempre comigo! Meu pai restaurava peças de mármore e me ensinou a esculpir usando retalhos de pedra. Na fundição, eu economizava cada centavo para imortalizar, em bronze, minhas pequenas criações.
Aos catorze anos, aconteceu de novo: morri e desmorri bem rápido. Tio Olavo se aborreceu. Era ”má publicidade”. Vendeu minhas estatuetas “pra pagar o prejuízo”. Um comprador, dono de galeria, gostou delas e me arranjou uma bolsa para estudar artes plásticas.
− Se ele vai perder tempo estudando desenho, − disse tio Olavo − é melhor arrumar um emprego de verdade pra se sustentar.
Fui trabalhar na galeria. Trabalho fácil, estudo interessante, muito tempo livre, material à vontade para esculpir, passeios a museus... era o paraíso! E o paraíso é o inferno quando aparece assim, de repente, para quem não está acostumado com a boa vida. Comecei a pensar na morte.
As esculturas vendiam bem... e eu pensando na morte. Eu ganhava prêmios... e pensava na morte. Minha exposição era um sucesso... e a morte me fazia delirar.
Delírio ou visão? Não sei.
Eu ia fazer vinte e um anos e cismei que morreria de novo e, dessa vez, poderiam me enterrar vivo. O terror foi tanto que passei mal. O mundo se transformou numa neblina brilhante. Um anjo de mármore apareceu e falou comigo. Disse que meu mal nunca mais me atacaria se, a cada sete anos, eu doasse uma escultura para um cemitério. Seriam sete esculturas, uma a cada sete anos, o anjo da visão me disse.
A primeira doação foi para meu próprio pai, que faleceu no mês seguinte. Fiz um anjo da saudade. Meu tio Olavo gostou tanto que se ofereceu para me aceitar de volta na fundição. Abri mão da oferta porque estava com exposição marcada fora do país.
O túmulo de minha mãe, morta sete anos depois, recebeu a escultura de uma pranteadora. Eu ainda estava rezando quando tio Olavo bateu no meu ombro.
− Voltou da Europa pra enterrar os parentes? Veio fazer bonito pros jornais mostrarem como o “grande artista” é generoso?
Olhei incrédulo para ele.
− Pare de me olhar com essa cara de abutre! E guarde suas esculturas pro seu enterro! Eu ainda vou viver muito.
E viveu mesmo. Doei outras esculturas para pessoas desconhecidas, a cada sete anos. Meu mal nunca mais me afligiu. Enriqueci, envelheci e esperei. Esperei, ansiosamente, a morte de tio Olavo. Preparei, com todo ódio, a escultura de seu túmulo: a escultura de um velho com olhos maus, deixando cair um livro de contabilidade.
No ano em que eu deveria entregar a sétima escultura, tio Olavo adoeceu. Obstinadamente, aguardei seu falecimento, porém meu aniversário chegou e tio Olavo melhorou.
Morri ao receber a notícia de sua saída do hospital. O velho miserável me enterrou mais que depressa e ainda mandou colocar sua escultura por cima do meu cadáver.
Agora estou enterrado, mas continuo bem vivo. Quem quiser uma prova é só visitar meu túmulo, pois, de sete em sete anos, quando faço aniversário, o livro da escultura se abre e, em vez de contabilidade, suas páginas metálicas ilustram a história da minha vida.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Arbóreo


Carla Ceres - Cadeira no 17


Da terra brotam meus versos
e várias vezes bifurcam
seus sentidos rumo ao céu

Palavra, primeiro árvore,
ramagem por onde o vento
ecoa cantos diversos
que sabe de outros lugares.


Floradas chamando pássaros
e os doces frutos das chamas
que o sol espalha no ar.


Sementes, vida latente,
e as águas que me concernem
fazem brotar novos versos,
crescendo conforme caem
nas boas graças do solo.


No cerne, sempre ser árvore,
poema de vastos ramos
ou pequenino bonsai,
haicai de poucas palavras.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cristaleira - Carla Ceres - Cadeira no 17

Patrona: Virgínia Pratta Gregolin


Divindade inexorável,
A cristaleira da sala
Guardava porta-retratos
Dos quais ancestrais me olhavam.
Gente que, fora da foto,
Vivia menos altiva
Parecia reprovar-me.

Arrogante cristaleira
Cheia de taças compridas
Que a ninguém interessavam
Guardava, ainda por cima,
Bem lá em cima, na verdade,
Um grande pote de doces
Que eu ganharia se fosse
Um doce por não roubá-los

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Virgínia Pratta Gregolin


Colaboração da Acadêmica Carla Ceres Oliveira Capeleti
Cadeira n° 17 - Patrona: Virgínia Prata Gregolin

À querida amiga, Virgínia Pratta Gregolin!

Mística Turvilínea
Das águas turbulentas do passado,
Ressurgem turvilíneos pensamentos,
Reflexos de outro ser agrilhoado
Ao renascer dos anjos violentos.

Um deles, apoiado em seu cajado,
Portando a ampulheta dos momentos,
Conduz o amanhecer que, amordaçado,
Retoma sua luz a passos lentos.

E o homem que do ser usurpa o manto
Não vê na noite o dia a cercá-la,
Julgando haver só dor na dor que canto.

Temer o lado escuro da mandala
É não poder contar com este encanto
De reviver da noite que nos cala.

Prece Pagã

Sei que a luz do céu não se dá em vão.
Sem seus dons de fé, sou qual sol sem cor.
Por um triz, se fez do meu sim um não.
Quis ser mais que mar, sou só sal e dor.

Voz da lei sem fim, hás de ser a flor
Do bem que há em nós, ser o ar e o chão.
Em teu caos, eu vou ver meu eu se pôr,
Ser a paz, ser um, ao te dar a mão.

Mas, se flui a luz e não se vai já,
Nem se vê o mal, só o mar que diz
Que bom é ter nau com a qual se vá

Sob o sol de sal, com a luz que quis
Ser bem mais que nós, ser o bem que há;
Ser bem mais que eu, ser o bem que fiz.


Reflorir
Quem vai criar as flores do futuro?
Quem delas cuidará depois de mim?
Quem pedras tirará do solo duro
E tardes passará junto ao jardim?

De tanto amor às plantas, eu procuro
Um outro alguém que as ame tanto assim
E queira colorir o mundo escuro
Com flores que eu deixar depois do fim.

Entrego meu lugar de jardineiro

A quem fizer a terra primitiva
Florir como roseiras de um canteiro

Parece paradoxo a tentativa:
Espero reflorir o tempo inteiro,
Em meu jardim, qual rosa ou sempre-viva.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Colaboração da Acadêmica Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira 17 - Patrona : Virgínia Pratta Gregolin

Soneto Decomposto




















Meu último soneto foragido
De quem lhe profetiza morte breve
Fazer-se de moderno só se atreve
Por loucas esperanças de ser lido.

Meu último soneto entristecido
Despede-se das rimas companheiras,
Despindo-se do canto mais preciso
Que embala seus desejos de poema.

Meu último soneto, não duvides:
São muitos os banidos,
os tristonhos.
Parece que não há lugar pra todos.

Banido é o velho,
o enfermo,
o descontente.
Banidos os rebeldes,
os boêmios
E tu, que és vão soneto posto a prêmio.


Classificados
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RE-VENDO, por motivo de mudança, poema semi-novo, em bom estado, com torres-de-marfim vindas de França e um lago em seus jardins ensimesmado. Em troca, aceito um canto mais moderno, repleto de grafis¬mo em tons escuros, com guardas patrulhando o lado externo e um medo a se esgueirar por entre os muros.
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Encomenda Bélica

Hoje encomendaram um poema bélico:
Versos que provassem
Que a verdade importa quando está comigo
E meu deus é grande porque mata mais.

Deve ser escrito em vermelho vivo.
Nada de vermelho cor de sangue, escuro.
Querem tons vibrantes de cereja ao sol
Inspirando gritos de guerra incontidos.

Querem ameaças contra céus e infernos:
Pobre do diabo que estiver ao lado
Dos meus inimigos!
Pobre do anjo inútil que pensar em paz!
Jazerá prostrado onde o deus dos sábios
Mutilado jaz.


Lago

Reflito um mundo azul ensolarado
E noites também mostro, pois sou lago.
De imagens ondulantes, sou formado.
Mutante é meu semblante sempre vago.


Em ter um rosto imóvel, não me agrado
E as brisas companheiras perto trago
Enquanto vou tramando, com cuidado,
O manto de reflexo em que sou mago.

Magia rebrilhante em tantos feixes,
Eu vivo mergulhado em teu conselho
E peço que, sem vida, não me deixes.

As nuvens do poente, um tom vermelho
Reúna-se aos dourados de meus peixes
Causando funda inveja ao raso espelho.


Clepsidras


Mania de precisão:
O homem que controlava
Os velhos relógios d’água
Sempre disse que faltava
“Uma gota pra hora exata”.

A menos ou a mais? Não importa!
O fato é que a hora certa,
Por certo, se esconderia
No pingo que lhe sobrasse
Ou no que lhe faltaria.

E que falta lhe faria
A conta da gota exata
Na exata conta da gota
Da qual faz parte este dia!


O Outro

A vítima, o faminto, o diferente,
O estranho, o triste, o herege, o escuro, o torto,
O belo, o feio, o pobre, o dissidente,
A fêmea, o sábio, o bruxo, o livre, o morto
Destroem nosso mundo tão perfeito,
Desprezam o viver em cativeiro,
Prosseguem sem pensar que, deste jeito,
Expõem nossos temores por inteiro.
A cada qual aguarda seu suplício:
Degredo, beijo-à-força, excomunhão,
Mordaça, ferro em brasa, cruz, hospício,
Fogueira, forca, roda, escravidão...
Seguimos demonstrando, desde cedo,
Ao outro a imensidão de nosso medo.

Galeria Acadêmica

1-Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
2- Maria Madalena t Tricanico de Carvalho Silveira- Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
3-Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
4-Marcelo Batuíra da Cunha Losso Pedroso - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
5-Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
6-Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
7-Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
8-Christina Aparecida Negro Silva - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
9-Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
10-Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
11- Antonio Filogênio de Paula Junior-Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz de Arruda Pinto
12-Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
13-Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
14-Bianca Teresa de Oliveira Rosenthal - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
15-Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
16-Lídia Varela Sendin - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
17-Shirley Brunelli Crestana- Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
18-Marcelo Pereira da Silva - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
19-Carmelina de Toledo Piza - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
20-Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
21-Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
22-João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
23-João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
24-Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
25-Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - cadeira no 26 Patrono Nelson Camponês do Brasil
26-Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
27-Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
28-Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
29-Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
30-Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
31-Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
32-Angela Maria Furlan – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
33-Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
34-Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
35- Elisabete Jurema Bortolin - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
36-Eliete de Fatima Guarnieri - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
37-Valdiza Maria Capranico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
38-Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
39-Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
40-Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz