Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

Diretoria

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Meu tio Nenezinho


 Gustavo Jacques Dias Alvim Cadeira n° 29 - Patrona: Laudelina Cotrim de Castro
 O tio Nenezinho foi uma figura ímpar e inesquecível. Chamava-se Docler, mas detestava o seu nome. De vez em quando, para externar seu desagrado, perguntava:
−“Você conheceu outro Docler? Creio que eu seja o primeiro e único!”
Realmente, nunca eu soube de outra pessoa assim chamada. Nem o Google, nos dias de hoje sabe. Já o consultei.
Minha aproximação, com esse querido tio, deu-se a partir dos meus doze anos, quando me mudei para Piracicaba − cidade em que ele morava no final da década dos anos 80. Nessa época as famílias se visitavam mais, independentemente de datas especiais, como as de aniversário ou casamento; se viam mais, e não somente em ocasiões obrigatórias de encontros por causa de doença ou morte de algum familiar. A gente fazia visitas para amigos e parentes, sem hora marcada. Podia-se chegar a qualquer momento, batendo palmas e gritando “oi de casa!”, para simplesmente bater papo, “filar bóia”, tomar cafezinho ou jogar cartas etc.
Esses encontros se davam ora na residência de um, ora na de outro, contudo a casa do tio Nenezinho tinha uma atração especialíssima: a piscina. Pelo que sei, foi a primeira a ser construída numa casa particular em Piracicaba. Era novidade e fazia enorme sucesso. Aliás, a sua residência também chamava a atenção pelo estilo normando, então, muito raro na arquitetura domiciliar. Essa casa, na esquina das ruas XV de Novembro e José Pinto de Almeida, em Piracicaba, ainda existe, mas, há muito tempo, é propriedade de terceiros. Atualmente, essa inusitada construção já não mais chama a atenção, pois está escondida atrás de muros levantados em função da crescente violência urbana.
Foi nessa piscina que aprendi a nadar, com instruções de minha tia, exímia nadadora, e que praticava esse esporte para manter a forma física. Por sua vez, não guardo lembrança do tio Nenezinho nadando nesse local. Para cuidar de sua performance fazia suas caminhadas, deixando o seu carro somente para momentos e trajetos especiais. Aliás, eu admirava o seu automóvel: um belo Oldsmobile-88, hidramático (como era então chamado o câmbio automático), quatro portas, lindo “bel-air”, de cores suaves, produzido nos anos cinqüenta. Meu sonho era, um dia, dirigi-lo. Como tudo dele, o carro era bem cuidado; estava sempre limpo, brilhante e impecável.
O tio Nenezinho tinha um belo físico, creio que resultado do remo que praticara. na juventude. no caudaloso rio Piracicaba. Seus cabelos, totalmente brancos desde os seus 25 ou 30 anos, com o que não se conformava, chamavam a atenção. Semblante alegre, bem apessoado, vestia-se com muito gosto. Seus ternos eram feitos na capital paulista, em alfaiate de renome ou de “grife”, como se diz hoje, e todo o restante, em matéria de indumentária, era do bom e do melhor, o que garantia a sua notória elegância. Parecia um verdadeiro lorde!
O Hotel Central, o melhor da cidade até a década dos anos 60 ou pouco mais, pertencia à família do tio Nenezinho. Ficava no chamado Largo da Matriz (depois Praça da Catedral), na esquina da Moraes Barros, onde hoje há um edifício-garage. Era um prédio imponente, demolido, pelo que se dizia, para evitar o provável tombamento (antes o hotel fora residência do senador Vergueiro, daí seu valor histórico), quando já não mais pertencia aos sucessores de Janjão de Castro, pai do meu tio. Não sei muito dessa história, nem de sua veracidade, porém “se non è vero, è bene trovato”.
Os “sinais exteriores” indicavam que sua família tinha recursos e rendas que lhe propiciaram uma vida tranquila. Presumo que, mais tarde, com a morte de seus pais, tenha herdado parte do hotel, que estava sob a direção de seu irmão. A exploração da atividade hoteleira, e, quiçá, algo mais aplicado em negócios, na condição de sócio capitalista, lhe permitiram continuar levando vida folgada e de bom nível. Ademais, sua esposa, minha tia por parte de mãe, foi professora em escolas estaduais (a Escola Normal, depois Instituto de Educação Sud Mennucci foi uma delas), quando os mestres ganhavam muito bem. Quando a gente perguntava ao tio Nenezinho o que ele fazia, respondia jocosamente:
− Sou jurista.
− Ah! o senhor é advogado?
− Não, eu vivo de juros! E dava aquela risada gostosa.
Sei que, durante algum tempo, ele foi sócio de outros tios meus, seus cunhados, inicialmente numa livraria e depois numa casa de material elétrico, locais onde ele passava parte de suas horas, porém sem se envolver no negócio. Era realmente o tal sócio capitalista, nada de trabalho. Para matar o tempo, sempre encontrava sempre alguém disponível, tal como ele, com quem entabulava uma boa conversa fiada. Outras vezes, estava entre os que formavam uma roda, na praça, para ouvir as piadas contadas por Bráulio de Azevedo, ou admirar as imitações que este fazia com perfeição.
Brincalhão, meu tio gostava de dizer: “Se tiver de me faltar algo na vida, que me falte o trabalho”. Muito espirituoso e bem humorado, tinha frases clássicas e peculiares, verdadeiras marcas registradas de sua alegria, bem como anedotas inocentes, mas muito gozadas, que facilmente provocavam o riso, quando não verdadeiras gargalhadas. Mesmo que repetisse o repertório, o que era costumeiro, a gente sempre as achava engraçadas, como se fosse a primeira vez que a gente estivesse ouvindo.
Até hoje, guardo muitas das suas famosas frases, que, emprego em momentos apropriados, lembrando-me dele, com grande saudade. Uma delas era: "Calma, cavalos, calma...”, imitando os locutores de corridas de cavalos no Jockey Clube de São Paulo, que ele proferia quando alguém se exaltava. Ou então, a rima que fazia, com o tempo de verbo terminado em “emos”, ao qual, por exemplo, acrescentava a expressão: “como dizia Honório de Lemos”. Por exemplo: “Cantemos como dizia Honório de Lemos”. Tola brincadeira, mas que saída da boca dele despertava o riso.
Uma ocasião, ele decidiu que iria fazer alguma coisa, pois estava se sentido inútil. Pediu ao meu tio Jacques, do qual era sócio numa casa comercial de material elétrico, que o ensinasse a consertar ferro de passar roupa. Prontamente foi atendido e um funcionário passou a dar-lhe aulas práticas até ele aprender a fazer o conserto. Depois de duas semanas, chegou o grande dia. Atendeu uma senhora que levou o ferro elétrico de passar roupa para a troca da resistência. Depois de um rápido exame, constatou que realmente estava queimada. Disse-lhe à mulher que iria fazer o serviço, pedindo-lhe que voltasse no final da tarde. Na hora aprazada, lá estava ele todo vitorioso e exultante, aguardando a chegada da freguesa. Ao vê-la, explicou o que fizera, embrulhou o ferro, cobrou o preço e entregou-o a ela. Quando esta pegou o ferro, estranhando o peso, reclamou:
− O ferro ficou muito leve. O que aconteceu?
Vermelho de vergonha, a “ficha” caíra. Havia se esquecido de colocar a peça de ferro, sobre a resistência, que dava ao ferro o peso necessário para alisar os tecidos. Nunca mais consertou coisa alguma. Foi a primeira e única vez. Desistiu do ofício.
Na verdade, eletricidade não era coisa de que gostasse. Choque então lhe metia medo. Basta dizer que para trocar uma lâmpada queimada em sua casa, ele desligava o “relógio de força”. Certa vez, ao terminar uma operação dessas foi ligar a força e, coincidentemente, no momento que empurrou a chave do relógio, estava uma pessoa com o dedo na campainha da porta rua, que ao emitir o forte sinal sonoro quase o derrubou, dado o susto que levou. E minha tia dizia, é realmente um nenezinho!
Ele gostava de bons relógios e os tinha; nada menos que o Patek Philippe e Vacheron Costantin, até hoje entre os considerados melhores e mais caros do mundo. Um paradoxo, pois não tinha compromissos com hora marcada. Aliás, não tinha horário para nada, a não ser para as refeições. Ele não se levantava muito cedo. Com a calma que Deus lhe deu, depois de fazer a barba e tomar seu banho matutino, ainda de pijama, porém com um vistoso chambre e de chinelos, se deliciava com seu demorado café. A seguir, ia para a sala de estar, onde num confortável sofá, fazia a leitura do Estadão, seu jornal preferido, cuja linha editorial combinava, política e ideologicamente, com suas idéias, bastante conservadoras. Depois, vestia-se como se fosse para uma cerimônia importante: terno, ou seja, paletó e gravata, sempre combinando os tons, para dar uma simples saída nos arredores. Seu pretexto era fazer compras no supermercado, levando a lista que a empregada preparava. Ia a pé, andando coisa de uns oito ou dez quarteirões, sem pressa. Nunca comprava tudo. Sabem por quê? Dizia ele:
− Se eu trouxer tudo, o que farei à tarde?
Pois bem, chegava, tirava a indumentária, colocando-se mais a vontade, para terminar a leitura do jornal. Ficava por ali, com o rádio ligado, pois tinha algo importante para conferir. Ele ouvia a Rádio Gazeta que, faltando segundos para o meio-dia, tocava uma sirene num determinado tom e volume, que eram aumentados ao marcar exatamente 12 horas. Então ele olhava o seu relógio para conferir e declarar-se vitorioso:
− O relógio da Rádio Gazeta está certo!
Interessante: ele era tímido e não gostava de ambientes estranhos. Quando era convidado para uma festa, que não fosse na família ou em casa de amigo mais íntimo, dificilmente ele ia. Costumava usar uma das suas frases lapidares: “Não gosto de festa que tem bugio de outro mato”. Preferia uma partida inocente de baralho, caixeta ou buraco, com apostas bem fraquinhas, com os familiares, aliás, o que era comum.
Nessa linha, certo dia, andando com ele pela Avenida São Luiz, em São Paulo, dei por falta dele. No meio do movimento de pedestres, ele desapareceu. Olhei para um lado, para outro e nada de encontrá-lo. Passados pouquíssimos minutos, eu já preocupado, o vejo sair de uma loja.
Indaguei-lhe:
− Vendo vitrines? Comprando algo?
− Não. Nada disso. Ocorre que eu vi vindo pela mesma calçada, em direção contrária, uma família conhecida lá de Piracicaba. Com certeza, o pessoal iria parar, pois há tempos não via aquela gente, e, mecanicamente ou protocolarmente, perguntar como estou indo. E eu a eles, teria de fazer educadamente a mesma indagação. Todos diríamos que estava tudo bem, mesmo que não estivesse, para então cada qual seguir seu caminho. Para mim, isso não acrescenta nada, é pura perda de tempo, razão pela qual, quando posso, evito esses encontros. Seguramente, para ele, aqueles eram “bugios de outro mato”.
Mais uma apenas, para terminar. Meu tio Nenezinho não gostava de viajar, ao contrário da minha tia, que não perdia oportunidade de fazê-lo. Ela combinava com alguém, uma amiga, uma cunhada e saía pelo Brasil e pelo mundo: de ônibus ou navio. Ela morria de medo de avião. Pois bem, meu tio renegava ter de ir levá-la ou buscá-la, por exemplo, em Santos, quando a viagem era por mar. Contudo, uma vez ele surpreendeu a todos. Minha tia planejava uma viagem à Europa, com minha avó e uma tia, e ele decidiu ir também. Foi, mas renegando tudo, não achando graça em nada, dizendo que o rio Piracicaba era mais bonito do que o Reno e coisas que tais. Houve um lugar em que ele se transformou. Estava alegre, quis sair para fazer compras, logo que chegou. Sabem onde? Na Suíça. Por quê? Era o lugar para comprar um daqueles famosos relógios, os melhores relógios do mundo daqueles dias. Também, depois de adquirir o que pretendia, disse:
− Agora, já posso ir embora. Era tudo o que eu queria dessa viagem.
O curioso é que quando o navio atracou de volta, o seu passaporte, que, conforme normas internacionais, ficara, durante a viagem, tal como o dos outros passageiros, com o comandante do navio, havia sumido. Enquanto não achassem, ele não poderia desembarcar. E ele, louco para desembarcar, falava para o encarregado do controle: durante a viagem
− Podem ficar com o meu passaporte. Façam dele o que quiserem, pois não pretendo viajar nunca mais!
Que saudade do tio Nenezinho! Ele gostava da vida. Amava-a tanto que costumava dizer:
− Quando eu morrer, quero que coloquem no meu túmulo o seguinte epitáfio: “Aqui jaz, muito contra sua vontade, Docler de Castro”. E com todo o seu apego à vida, morreu, quatro meses depois do falecimento da sua esposa, sem ter absolutamente nada, a não ser saudade dela.

O autor é membro da Academia Piracicabana de Letras e tem como patronesse a Profa. Laudelina Cotrim de Castro, esposa de Docler de Castro, o seu tio retratado nesta crônica.

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Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
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Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
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Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
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Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
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Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz