Rio Piracicaba

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Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

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Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

História de um viralata (Hippie)

Colaboração da Acadêmica Myria Machado Botelho
Cadeira n° 24 - Patrona: Maria Cecília Machado Bonachela
Ele devia ter no sangue algumas manchinhas atávicas de ilustres ancestrais que lhe transmitiram gosto apurado e antipatias marcantes. Pequeno e sem nome, de pelos compridos e barbicha, esse viralata espaventado gostava de, aos domingos, depois dos passeios costumeiros, encaminhar-se para a Igrejinha da Cruz Torta, nos altos de Pinheiros, onde padre Norberto rezava a Missa do meio dia. Quantas crianças! Bem na frente, ao lado do padre, as meninas de roupas curtas e coloridas, meias compridas e cabelos cobrindo as costas ou levantados num rabinho petulante, recitavam as orações, mais comportadas do que os meninos. Estes se equilibravam num pé e no outro, cutucavam-se entre risinhos e provocações, transformados depressa em contrições, quando o olhar do padre dardejava sobre eles.
O viralata branco e preto embarafustava pela porta estreita, sob a desaprovação dos adultos sérios que se desviavam, comprimindo-se, para evitar-lhe o contacto. Lá ficava ele, bem à frente do altar, acompanhando os movimentos do celebrante com meneios graciosos da cabeça. Depois virava-se para as crianças, sua legítima preferência. Latia baixinho, achegando-se de quem lhe premiava a cortesia. Quando não alcançava seu intento cabriolava com o rabo. Isto era completo! Os pequenos se torciam de risos; alguns até o agradavam.
Lá, enfeitiçou-se: uma garotinha magra e serelepe, de expressão inteligente e covinhas no canto da boca, dispensou-lhe mais agrados. Acompanhou-a à saída. Ela olhava para trás, fazendo-lhe sinais¸ às escondidas da mãe. Quando chegaram à casa, foi uma festa! Ganhou carne, bolachas, até uma barra de chocolate! Brincaram de esconde-esconde pelos jardins da mansão, e que felicidade! Ninguém o acossou com berros e pontapés. Resolveu mudar de vida e fixar-se. Adeus à boemia! Seria o protetor de Cristina e seu companheiro nos folguedos. Precisava respeitar os adultos que não o admitiam dentro de casa. Civilizou-se em parte; limpo, bem tratado e vacinado, com pouso certo, não prescindia, contudo, das missas domingueiras e dos passeios habituais para as reinações e os encontros com os colegas. Era um corisco nas avenidas e que habilidade para desviar-se dos carros!
Com o nome de Hippie adquiriu respeitabilidade e protegia sua dona com dedicação exclusivista: ai de quem ousasse pôr o pé para dentro do portão! Era feliz. Cristina representava o sol, o alimento, o aconchego e a alegria, muito mais do que sua humilde condição podia aspirar! Carinhos, guloseimas, risadas e cambalhotas no gramado verdinho, sobressaltos e correrias para os calçudos implicantes.
Um dia, não conseguiu escapar do laço, atirado por homens brutais. Entretinha-se, distraído com o nascer do sol, quando tudo acorda devagarzinho, brando e bonito. Esperava Cristina... Ela aparecia lá em cima, na sacada, chamando-o e desejando-lhe um bom dia...
Jogaram-no dentro do caminhão, no meio de outros companheiros e rodaram dentro da cidade, parando de quando em quando para recolher mais um colega de infortúnio.
Ao chegar, apartaram-nos em celas estreitas, para morrer na câmara de gás ou sair, se um amigo viesse retirá-los no prazo de três dias.
Hippie esperava... Na confusão e no desespero restava a confiança em sua amiguinha. Alguém lhe diria que o vira partir para a morte. As horas escoavam lentas. Os uivos e ganidos ensurdeciam; alguns, desanimados, estendiam-se sem reação. A maioria pelejava e o barulho aumentava a cada pessoa vinda para o reconhecimento e a libertação de um felizardo.
Hippie, pertinho da grade para facilitar a identificação, estava alerta aos ruídos de fora. As horas se arrastavam impiedosas, e a esperança diminuía... Encompridava os olhos para fora, muito triste. Não enxergava nenhuma nesga do céu. Terceiro dia de suplício sem lamento. Sofria em silêncio, conformado com seu destino. À tarde, o motorista da casa parou alguns instantes diante da cela, conversando com o guarda. Não o reconheceu. Não era à toa sua aversão pelos calçudos!
No dia seguinte, na madrugada fria e cinzenta, igual, sempre igual a tantas outras, Hippie, molhadinho e gelado, foi posto num local escuro e baixo, ao lado de outros companheiros, tiritantes e angustiados. Acomodou-se, esticando as patas, entorpecendo-se com o gás... Era o fim...
... Não! Ouvira uma vozinha, melodiosa e pura como um sopro de ar puro! Cristina o chamava! Viu-se deslizando com ela pelos jardins, acompanhando-a nos passeios, de peito estufado! Sentiu o aconchego de seus bracinhos, quando se enrodilhava para um soninho que o menor ruído despertava num salto assustado, seguido de latidos agudos e furiosos. Ela cascateava um riso, puxando-lhe as orelhas...
− Hippie!.......Tentou levantar-se para atendê-la e fazer para ela uma última cabriola... Mas o mundo, ah! os homens!...

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Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
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Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
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Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
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Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
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Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz