Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

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Ivana Maria França de Negri
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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Recordações de um velho mau revisor*

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Santo Agostinho registra, nas suas Confissões, que seu mestre Santo Ambrósio, Bispo de Milão, tinha o costume de ler sem mexer os lábios e sem mover a cabeça. Tão inusual era esse procedimento na época, que mereceu registro como particularidade curiosa, no livro de memórias do grande Bispo de Hipona.
De fato, antigamente entendia-se a leitura como algo inseparável da fala. A leitura costumava ser feita em voz alta. Mesmo quando o leitor lia sozinho, ia mexendo os lábios e, em voz baixa, pronunciava as palavras do texto. Isso era explicável. Antes de existirem sinais gráficos de pontuação, antes mesmo da diferenciação de letras maiúsculas e minúsculas e da distribuição do texto em parágrafos e tópicos, da utilização de títulos e subtítulos, os textos eram escritos uniforme e continuadamente. E em letra pequena, porque o suporte da escrita (rolo, papiro, pergaminho) era muito caro e precisava ser economizado.
Nessas condições, a leitura em voz alta, com a devida entonação, tornava-se recurso auxiliar quase indispensável para a própria intelecção do que estava sendo lido. O mexer a cabeça, acompanhando o texto, e a utilização de um instrumento pontudo qualquer que ia seguindo cada uma das palavras lidas, eram, também, habituais.
Na atualidade, recomenda-se que a leitura não seja feita acompanhada do movimento dos lábios e da cabeça. Recomenda-se também que o leitor não vá lendo cada palavra isoladamente, mas procure, com o olhar, abarcar algumas palavras, até mesmo a frase inteira. É assim que hoje, auxiliados pelos sinais gráficos, costumamos proceder, é assim que procuramos formar os novos leitores.
Essas considerações me fazem retornar aos bons tempos em que estava saindo da adolescência e entrando na mocidade, quando trabalhei em uma editora, ajudando no processo de elaboração e composição de livros.
Naquele tempo (refiro-me a 1971, 72, 73...) ainda não havia computadores. O recurso, hoje tão habitual, de processadores de texto que permitem correções, interpolações, deslocamentos de parágrafos ou frases dentro do texto, nada disso existia. Todo o trabalho editorial era feito em papel, no sistema de lápis, borracha e caneta. Todas as editoras possuíam equipes de datilógrafos (que estão para os modernos digitadores mais ou menos como os mamutes pré-históricos estão para os atuais elefantes africanos ou indianos...) que precisavam copiar inteirinhos os livros em processamento, tantas vezes quantas fosse necessário para se chegar até o texto final.
Cada vez que o rascunho de um livro em fase de elaboração ficava carregado demais de correções e apontamentos, tornava-se indispensável redatilografar todo o texto. Entravam então em cena profissionais muito respeitados, chamados de revisores. Esses revisores trabalhavam em dupla. Um ia lendo, em voz alta, o livro inteirinho, indicando pontos, vírgulas, parágrafos etc. etc. E o outro ia conferindo e anotando os erros. Quando chegavam ao fim, trocavam os papéis. O que tinha lido, passava a conferir o texto datilografado, o que tinha conferido agora passava a leitor.
Era um trabalho cansativo, desagradável, terrivelmente soporífero. Tive que consumir muitas e muitas horas da minha florida juventude nessa tarefa que nós, brasileiramente, chamávamos de “conferição”, e os mais puristas faziam questão de denominar “conferência”.
Sempre fui um péssimo “conferidor” (ou conferente). Eu me deixava entreter pelo texto, ia acompanhando o conteúdo e deixava passar muitos erros. Interrompia muitas vezes o trabalho, que me dava irresistível sono, para concordar ou discordar do que estava sendo lido. Fazia comentários, dava palpites onde não era chamado... Em suma, era um fracasso como revisor.
Por quê? Porque não seguia as praxes adequadas ao papel de um revisor.
Um engenheiro que trabalhava na editora e supervisionava os serviços (homem de grande cultura e que muito ajudou na minha formação), certa vez me explicou que o bom revisor não pode pensar no conteúdo do que está revendo, para não se distrair. Para evitar isso, ele deve adquirir o costume de ler palavra por palavra, sem se preocupar com a frase toda. O ideal, explicava, até seria ler sílaba por sílaba, sem mesmo pensar no sentido da palavra, se tal fosse possível...
O conselho que se dava na época, para atingir a perfeição em matéria de “conferições”, era exatamente o oposto do conselho que hoje se dá para a formação de bons leitores. Em última análise, fui mau revisor porque era um bom leitor em formação, ou pelo menos em potencial! Eu lia frases inteiras com uma única “olhada”, acompanhava o sentido do texto, manifestava senso crítico e não reparava nos pormenores. Deixava passar erros que qualquer revisor semialfabetizado corrigiria imediatamente. Na verdade, eu já tendia à leitura dinâmica e seletiva (que com o correr das décadas iria acentuar sua rapidez e aguçar seus critérios de seleção).
O que hoje consideramos maus hábitos de leitura, era recomendado aos revisores. Ouvir o colega ler e, ao mesmo tempo, ir seguindo com os olhos o texto a ser conferido e, com os lábios, baixinho, ir lendo também, era recomendado. Se houvesse algum erro, a própria sonoridade diferente o acusaria. Também era recomendado ir acompanhando a leitura com o dedo, ou com um lápis, ou com uma régua, que deslizava linha a linha. Tudo, enfim, que hoje faz um mau leitor fazia na época um bom revisor, um ser que trabalhava com grande eficiência, mas maquinalmente e sem senso crítico.
Esses revisores antigos parecem ter desaparecido em muitos jornais modernos, a julgar pela grandíssima quantidade de erros que neles são encontrados...

*Artigo publicado na  TRIBUNA PIRACICABANA

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Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz