Rio Piracicaba

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Rio Piracicaba cheio (crédito da foto Ivana Negri)

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Akhenaton e a historicidade dos relatos bíblicos

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
O caso de Akhenaton, faraó egípcio que viveu no século XIV a.C. e tentou introduzir, em seu reino, o culto a um único Deus, costuma ser apresentado, por certos críticos modernos que preferem ignorar os relatos bíblicos, como a primeira manifestação monoteísta da história da humanidade. Por não aceitarem os relatos bíblicos e negarem total caráter histórico a eles, apontam Akhenaton como estando na raiz e na origem de todos os monoteísmos conhecidos, incluindo, em ordem cronológica de aparecimento, o judaísmo, o cristianismo e o maometismo, e ignorando crenças monoteístas difusas em numerosas partes do mundo, inclusive entre tribos indígenas da América do Sul. 
A Bíblia, entretanto, é reconhecida como fonte histórica por inúmeros cientistas de primeira linha, ainda nos nossos tempos. Desde obras clássicas como a célebre coletânea “La Bible, Livre d´Histoire”, do Prof. Daniel Rops, da Academia Francesa e do Instituto de França,  “The Bible is true”, do arqueólogo britânico Sir Charles Marston, “Histoire d´Israël”, de F. Ricciotti, da Universidade Lateranense, outro livro homônimo de Martin Noth, da Universidade de Bonn, até obras de divulgação respeitáveis, como “E a Bíblia tinha razão”, de Werner Keller, ou “La vie quotidienne des hommes de la Bible”, de André Chouraqui, sustentam o valor histórico dos livros bíblicos. Inúmeras descobertas arqueológicas igualmente confirmam afirmações históricas contidas na Bíblia.
Bem sei que uma objeção de peso pode ser feita a isto que estou afirmando: sendo muito difícil (para não dizer impossível) precisar, historicamente, a época em que foram escritos os numerosos livros sagrados que compõem a Bíblia, e até mesmo precisar a autoria individual de cada um deles, é também muito difícil negar que tenham eles sofrido influência cultural de outros povos anteriores, que também têm, em suas tradições orais ou mesmo escritas, referências a um pecado original, a um lost paradise, a um dilúvio, à promessa de um grande libertador futuro, a uma torre mítica que estaria na origem da divisão das línguas etc. Na ótica desses objetantes, o fato de se encontrarem documentos escritos anteriores, documentando que também em outros locais se cultivava análoga crença, basta para provar que a Bíblia não pode ter sido origem delas, sendo, pelo contrário, originada por elas. Nisso incorrem no famoso paralogismo do “post hoc ergo propter hoc” (em tradução livre: se veio depois de algo, é porque foi causado por esse algo). Esse raciocínio é errôneo, pois não basta algo ser anterior para ser causa de algo posterior.
A crítica literária moderna, dos livros bíblicos, tende a acreditar que o que se conhece da Bíblia, na sua composição atual (ignorando, para não complicar a exposição, a vexata quaestio das divergências entre católicos e protestantes acerca da canonicidade ou não de alguns livros, assim como polêmicas acerca de textos apócrifos que foram, por vezes, tomados como canônicos por alguns autores de peso e até utilizados na Liturgia), nem sempre corresponde a uma primeira versão escrita por um único autor, mas é muitas vezes o resultado de inúmeras gerações de copistas/redatores que fizeram acréscimos, interpolações, censuras etc. Essa suposição, mesmo que verdadeira, de si não desclassificaria a Bíblia como fonte histórica. Por análogo processo de múltipla autoria e gradual composição passaram, como é reconhecido por todos os estudiosos, obras como a Ilíada e a Odisseia, assim como o curiosíssimo Gilgamesh (a mais antiga referência escrita, conhecida até hoje, a um dilúvio universal), e nem por isso são sumariamente descartadas ou deixam de ser tratadas com respeito por historiadores de todas as tendências.
Também me parece apriorístico e preconceituoso querer excluir um autor, como anticientífico, apenas porque tem fé e é religioso. Lembro, de passagem, a figura do Abbé Théophile Moreux (1867-1954), sábio egiptólogo, astrônomo e meteorologista, diretor do observatório astronômico de Bourges, tão respeitado no meio científico que até foi dado, oficialmente, seu nome a uma cratera da Lua. Já vi esse autor – que tem muitas dezenas de obras científicas de incontestável valor, que escreveu, ademais, o clássico “La science mystérieuse des Pharaons”, que era membro destacado da Sociedade Astronômica de Paris e, no fim da vida, foi preso pela polícia nazista por ser opositor de Hitler – ser sumariamente descartado num debate, por um professor universitário brasileiro de cultura geral, aliás, bastante duvidosa, sob alegação de que um padre, ao escrever sobre tema científico, é sempre suspeito e não deve ser tomado em consideração... Se isso não é preconceito, não sei o que é preconceito! Então deveriam ser igualmente descartados os cientistas ateus que escrevem sobre temas religiosos? Também eles não são suspeitos? Aonde iríamos parar? Somente poderiam ser tomados em consideração como cientistas confiáveis, então, os relativistas “anti-metafísicos”, que professam não haver verdades definitivas de espécie alguma. Mas, ainda aí caberia a pergunta: essa profissão de fé na inexistência de verdades definitivas, ela própria não é uma “verdade definitiva” que deva, na lógica do sistema, ser banida?
Parece-me, data venia, muito mais equilibrada e razoável a posição de quem prefere supor, como consta da Bíblia e de mitologias presentes em culturas de todos os continentes, uma origem comum para toda a humanidade e vê, nas variações dessas mitologias, distorções explicáveis de um patrimônio cultural que foi comum a todos e a certa altura se perdeu. Voltarei ao tema no próximo artigo.

Artigo publicado na TRIBUNA PIRACICABANA

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