Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

Presidente– Gustavo Jacques Alvim
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Segundo Secretário – Evaldo Vicente
Primeiro Tesoureiro – Antônio Carlos Fusatto
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal

Walter Naime
Cezário de Campos Ferrari

Editor e Jornalista Responsável
João Umberto Nassif

Conselho editorial

Antonio Carlos Neder
Ivana Maria França de Negri
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto
Myria Machado Botelho


Seguidores

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

RETRATOS DE VIDA

João Umberto Nassif
Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros   

O fato é verídico, ocorreu na década de 70. Os nomes dos envolvidos foram alterados por razões óbvias.
Os ponteiros do relógio ficaram mais lentos no final daquela tarde de muito calor. O tempo não passava para os funcionários daquela repartição pública. Olavo Casqueiro, arquivista público, movimentava-se de um lado para outro, num interminável passeio. Sorriso dependurado no rosto, andar gingado, sapato macio, camisa social com as mangas arregaçadas soltas por fora da calça. Os cabelos negros pareciam estar sempre empastados de brilhantina, formando um imenso topete. Até mesmo a sempre carrancuda chefe da repartição, Dona Deolinda, estava entregue ao sabor de mesmice reinante no ar. Como chefe, sugeriu a Olavo:
– Conte aos meninos aquela sua história. Conte, Olavo!
Meninos, era um grupo de estagiários que seguiam o ritmo daquele departamento.
Sentaram-se todos em volta de uma mesa e Olavo passou a narrar.
Ele era motorista, pilotava um Fusca de chapa branca, veículo oficial, a serviço dos funcionários que necessitavam se deslocar para atender as funções do departamento. Todo final de tarde, ele e o compadre Tião, também motorista como ele, paravam no boteco do Mané Português para tomar umas “brejas” (era assim que eles chamavam a cerveja estupidamente gelada). Uma sexta-feira, final de expediente, antes de recolher o veículo à garagem Olavo e Tião bebiam animados o precioso líquido. Após muita animação, catalisados pelo álcool, surgiu a brilhante ideia, e Olavo disse:
– Tião, com esse calor um banho de mar seria muito bom!
Tião respondeu:
– Ia ser uma delícia, mas em São Paulo não tem mar!
Olavo retrucou:
– Tião, “ocê” recolhe a sua viatura e nós vamos de Fusca até Santos, é logo ali, compadre! A vida é para ser vivida!
Dito e feito. Algum tempo depois os dois desciam pela rodovia Anchieta rumo a Santos. Felizes e gargalhando, sem medir as consequências.
Logo estavam na Baixada Santista, e decidiram parar em um quiosque à beira da praia para tomar mais uma “breja”, já embalados pelo clima de festa dos turistas, muita gente passeando pelas calçadas. O único problema era achar vaga para estacionar o veículo. Tião sugeriu:
–  Compadre, põe a viatura em cima da calçada, é chapa branca.
Assim foi feito. A noite estava agradável.
–  Isso é que é vida! – disse Olavo.
–  Vidão! – arrematou Tião.
As ondas do mar eram um convite para um banho. Noite escura, ninguém iria perceber que os dois tinham deixado suas roupas no carro e usavam apenas cueca. Nadaram até cansar. Voltaram à praia. Tião foi buscar mais duas garrafas de cerveja.
Contemplando o espetáculo que a natureza oferecia, cansados, relaxados pelo efeito do álcool, adormeceram na areia.
Sequer perceberam que um caminhão do Departamento de Trânsito da Cidade de Santos estava rebocando o carro oficial que tinham estacionado na calçada, levando em seu interior roupas e pertences de ambos.
O nascer do sol despertou Olavo, que, sem ainda lembrar-se completamente onde estava, acordou o compadre.
–  Tião, acorde! Vamo embora, home!
Tião abriu os olhos e percebeu que tinham se metido em uma grande encrenca.
O resto da história: Olavo não entrou em detalhes de como saíram apenas de cuecas e voltaram a São Paulo, e nem de como a viatura daquele departamento foi resgatada. Disse apenas que foi aberto um processo administrativo, examinado por um médico, e veio o diagnóstico: “Transtornos psiquiátricos”. Foi afastado do serviço e passou alguns meses em uma clínica psiquiátrica.
Olavo voltou a ser motorista, agora de ambulância de um hospital público. Mas isso é outra história.
O retorno de Olavo.
No período em que ficou internado na clínica psiquiátrica, Olavo observou as ambulâncias que transitavam e pensou: “Um dia ainda vou dirigir uma dessas!”.
Com a interferência de um político, Olavo conseguiu o almejado cargo. Agora era motorista de ambulância. Achava que assim estaria desempenhando melhor suas funções. Mas o que gostava mesmo era de acionar a sirene e passar entre os veículos que se afastavam para dar-lhe caminho, conforme manda a lei de trânsito. Consciente de que corria contra o relógio, levando algum paciente em estado grave, ele logo se habituou a essa nova atividade. Exercia-a com orgulho.
Algumas vezes permanecia com o veículo estacionado em frente ao hospital, de plantão.
Em uma dessas ocasiões, apareceu José Pimenta, proprietário de uma chácara em Suzano, município próximo a São Paulo. Ele tinha um problemão. A sua mulher andava com umas dores no ventre e sem saber a quem procurar, viu Olavo encostado na ambulância. Logo imaginou que ali estava o homem que iria ajudá-lo. E de fato isso ocorreu. O hospital era público, Olavo conhecia todos os médicos, “encaixou” a paciente em uma consulta. O diagnóstico foi uma intervenção cirúrgica, bem sucedida. Extremamente grato, Zé Pimenta, como era mais conhecido, disse a Olavo:
– Vou engordar dois porquinhos e, no Natal, o senhor vai buscar em Suzano!
No início de dezembro, Olavo foi avisado de que os porquinhos estavam à sua disposição.
Um grande problema: como ele iria buscar? Após matutar muito, tomou a decisão. Comunicou a Alcides, seu superior:
– Chefe, hoje vou até Suzano com a ambulância!
Alcides sabia que não tinha outra saída a não ser concordar.
Animado por ir até uma área rural, Olavo entrou no clima. Logo na ida, parou em um boteco e tomou uma talagada de cachaça. E, de boteco em boteco, chegou a Suzano. Numa animação só. Lá encontrou Zé Pimenta e Dona Vilma, totalmente restabelecida, com muita saúde. A alegria era a tônica desse reencontro. O Natal que se aproximava deixava tudo em clima de festas. Confraternizaram-se com algumas doses de caninha que Zé Pimenta tinha como reserva pessoal. Hora de voltar. O coração do chacareiro era generoso. Colocaram na ambulância três porcos e algumas galinhas. Abraços de despedida e pé na estrada. Olavo voltava radiante. Enquanto isso seus “pacientes” estavam em desespero com a movimentação da ambulância.
Ao chegar, ao final da tarde, na Avenida Celso Garcia, o trânsito estava pesado, não andava. Foi quando Olavo decidiu usar sua poderosa sirene. Como um Moisés do asfalto viu a passagem abrir-se a sua frente.
Imprimiu maior velocidade. Esse conjunto de ações levou seus “pacientes” ao limite de tensão.
Tudo ia muito bem, passava em sinais fechados, a prioridade era para aquele veículo de emergências. Pedro Augusto, dirigindo um automóvel Opala, não percebeu que a ambulância vinha pela Avenida Celso Garcia com grande velocidade. O choque foi inevitável. Os danos materiais foram enormes. Inexplicavelmente nada aconteceu aos motoristas. O soldado José Siqueira estava a serviço naquela esquina quando ocorreu o acidente. Treinado para atender emergências, imediatamente foi socorrer o paciente. Estupefato, ao abrir a porta traseira da ambulância, viu três suínos virem em sua direção e seguirem pela via pública em desabalada carreira. As galináceas em total desespero seguiam em um cortejo inusitado. Boquiaberta, uma multidão contemplava o espetáculo. Olavo sofria a frustração de ficar sem um Natal gordo. Afastado por mais um período, voltou a trabalhar na repartição, agora bem perto da temida Dona Deolinda, em seu calcanhar. Ali o máximo que poderia fazer era trocar as pastas de arquivo de lugar.
A narrativa de Olavo deixou seus ouvintes entretidos por pelo menos uma meia hora. O expediente tinha chegado ao fim. Alguns o consideravam um desequilibrado, outros o viam como um ser determinado a não seguir o sistema com suas regras duras e inflexíveis. Um semi-herói. 

Nenhum comentário:

Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz