Um
presente inesperado para a Academia de Letras
Armando
Alexandre dos Santos
Continua repercutindo a campanha para
que a Academia Piracicabana de Letras obtenha uma sede. Os três jornais diários
da cidade estão, conjuntamente, promovendo essa campanha, em boa hora lançada
pela poetisa Raquel Delvaje, atual presidente da APL
Não é a primeira vez que, no Brasil, uma
Academia de Letras procura ansiosamente por um lar. Isso aconteceu até com a
mais antiga e prestigiosa das Academias, a brasileira. Desde sua fundação, em 1897,
por 26 longos anos andou ela afanosamente à cata e à espera de uma sede
permanente, até que em 1923 um presente inesperado lhe caiu do céu... Vejamos
como.
Realizou-se em 1922 uma grandiosa Exposição
Internacional comemorativa do Centenário da Independência, projeto que ensejou
a modernização da Capital Federal, com a derrubada parcial do Morro do Castelo,
para dar lugar a uma ampla área na qual, bem no centro da cidade, puderam
comodamente se instalar não apenas a Exposição Nacional, mas também
representações estrangeiras.
As Exposições
Universais, periodicamente realizadas no Velho Mundo ou nos Estados Unidos
desde meados do século XIX, eram conhecidas como “vitrines do progresso”,
porque nelas os diversos povos timbravam em exibir seus produtos naturais ou
industriais, realizando dessa forma eficiente propaganda comercial e, ao mesmo
tempo, adquirindo ou consolidando prestígio internacional. Recorde-se que D.
Pedro II quis comparecer, em 1876, à Exposição Universal de Filadélfia, nos
Estados Unidos, e foi ali que tomou contato com o telefone, que acabava de ser
inventado por Graham Bell.
A Exposição
Internacional de 1922 - a primeira realizada após o final da Grande Guerra -
foi decidida no Brasil pelo Decreto nº 4.175, de 11/11/1920, e regulamentada
pelo Decreto nº 15.066, de 24/10/1921, o qual também estipulou que a
comemoração do Centenário comportaria, ademais da Exposição, eventos culturais
em todo o país, com conferências e solenidades públicas, e lançamento de livros
de cunho histórico, de dicionários e documentação cartográfica. Os Institutos
Históricos e Geográficos, que a esse tempo já eram numerosos, chamaram a si,
nos vários Estados, a responsabilidade de promover localmente eventos
comemorativos, usando as respectivas revistas como veículos de difusão. O mesmo
fez, em âmbito nacional, o tradicional Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, fundado em 1838.
A Exposição Nacional
constou de oito grandes pavilhões: do Comércio; de Higiene e Festas; de Pequenas
Indústrias; de Viação e Agricultura; de Caça e Pesca; da Administração; da
Estatística, além de setores representativos dos vários Estados e da Grande
Indústria. Segundo o “Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da
Exposição Internacional de 1922” (Rio
de Janeiro: Annuario do Brasil / Laemmert, 1923), mais de 6 mil
expositores, provenientes de todos os Estados brasileiros, apresentaram seus
produtos, e mais de 3 milhões de visitantes acorreram à exposição nos meses em
que esteve aberta. 13 nações estrangeiras se fizeram representar, arcando cada
qual com as despesas de instalação e exposição de suas delegações: Argentina,
Bélgica, Dinamarca, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Japão, México,
Noruega, Suécia, Tchecoslováquia e, em posição de destaque, Portugal. A
Exposição Nacional, aberta a 7 de setembro, encerrou-se dois meses depois; a Exposição
Internacional continuou aberta até julho de 1923.
Por que estou
contando tudo isso? É porque foi graças à Exposição de 1922 que a Academia
Brasileira de Letras obteve uma sede magnífica. O governo francês, que tinha
mandado construir no Rio de Janeiro uma réplica do Petit Trianon de Versalhes,
para abrigar a delegação francesa, resolveu generosamente doar, em 1923, o
belíssimo edifício à ABL, que permanece na posse do imóvel até hoje.
No orçamento de uma
grande empresa como a Hyundai, a Caterpillar, a Raízen ou a Dedini, o valor de
um imóvel urbano é quase como uma gota de água no oceano. Será que alguma delas
não poderia mostrar, com a cultura piracicabana, a mesma generosidade da França
com a Casa de Machado de Assis? Fica aqui a sugestão.
(*) Doutor na área de Filosofia e Letras, membro da Academia Piracicabana
de Letras e do IHGP.
