Ela
era de pequena estatura, muito magrinha e ágil. Tinha um sobrenome alemão
pomposo e difícil de pronunciar. E passou a vida soletrando para explicar como
se escrevia: Maria Apparecida Wolghmuth.
Herdou
o sobrenome do pai, que nos anos 40, era dono de uma famosa loja de chapéus,
que ficava no coração da rua Governador. Sua mãe faleceu de tuberculose quando
Cidinha tinha apenas três anos, e foi criada e mimada pelas tias paternas, que
a vestiam como uma boneca, segundo contava.
O
pai se foi, as tias chegaram a idades longevas e ela retribuiu cuidando delas
até o final das vidas. Uma delas deixou-lhe uma modesta pensão, e ela vivia
dessa mesada.
Seguiu sozinha,
não se casou e nem teve filhos. Mas contrastando com sua estatura pequena,
tinha um coração gigante. Não podia ver um gatinho abandonado que o trazia para
casa. E tinha cães também. Em suas andanças pela cidade, batia pernas como
ninguém, ia trazendo sem medir consequências. Nem contava pra ninguém quantos
animais possuía, e quando perguntavam, dizia apenas: “perdi a conta”.
Frequentava a
igreja, pois era católica fervorosa, devota de Maria e tinha como santinho
predileto, São Francisco de Assis.
Muito querida por
todos, dedicou a longa vida a cuidar de animais abandonados. Poucas pessoas
tinham acesso à sua casa. Eu era uma delas porque fui voluntária da Sociedade
de Proteção aos Animais e a ajudava com ração, levava jornais, e via os gatos
reinando na casa, sobre a cama, nas cadeiras, na cozinha, no pequeno quintal, havia
gatinhos em todo lugar. Certa vez contei quarenta gatos e cinco cachorros que
ficavam na garagem.
Ela dizia que seu
pai era vizinho do meu avô e muito amigos. Ambos moravam na rua Governador e
compraram jazigos no cemitério da Saudade bem próximos, logo na entrada.
Brincavam que eram vizinhos em vida e seriam vizinhos no cemitério também. E me
falou que foi ao casamento da minha mãe. Curiosa, procurei no álbum de fotos e
vi uma Cidinha quase criança, com uns catorze anos, a mesma carinha, ao lado da
mesa de doces, com um punhado deles nas mãos. Levei uma cópia para ela que
ficou muito feliz, pois tinha poucas fotos da infância.
Além de gatos, Cidinha colecionava imagens de
santos. Tinha uma imagem de Nossa Senhora da Rosa Mística que veio da Europa, lindíssima,
tamanho gigante, não sei como a conseguiu, e muitas outras menores, e vários
santinhos, oratórios, terços. Essa era sua casa, abrigo de gatos e pequeno
museu. Eu mesma, na volta das minhas viagens, trazia imagens de santos e
gatinhos. Ficou tão feliz quando eu trouxe de Assis, Itália, uma imagem do seu
santinho preferido e protetor dos animais.
Ela sempre me
dizia que quando morresse, queria ir para o céu dos animais.
Suas forças foram
diminuindo, a idade e as dores chegando, e ela teve o bom senso de não adotar
mais animais. Os que tinha, ficaram idosos e se foram, um a um. E ela chorou e
sofreu por cada gatinho e cãozinho que partiu. Ultimamente, já não saía de
casa. Pedia comida pelo telefone fixo para entrega. A idade passando, já não
conseguia limpar a casa e teve uma vizinha/anjo que a ajudou muito, até que por
fim, levou-a para morar numa Casa de Repouso, onde ficou poucos anos, até
falecer na semana passada, aos 90.
E eu a imagino
feliz, cercada por seus amorzinhos, no céu que sempre sonhou...












































































































