Cadeira n° 22 - Patrono: Erotides de Campos
De Mozart e Erotides de Campos
Ao passar a vista na obra de Erotides de Campos, veio-me à lembrança num relance a história de Mozart. Por me parecerem bem próximas, sob determinada óptica – genialidade musical precoce –, resolvi juntá-las nestas apreciações, convencido de não estar cometendo nenhuma heresia histórica. Mozart morreu pobre, e da mesma forma Erotides de Campos. Em comum – repito –, ambos possuíam inspiração musical à flor da pele, além do que se costuma definir como ouvido musical absoluto. Mozart, com poucos anos de idade, já tocava piano e compunha músicas. Estas espelhavam o gosto do povo europeu de seu tempo de criança. Erotides, da mesma maneira, tocava piano, flauta e também compunha músicas, que espelhavam o gosto predominante da população brasileira. Tais colocações se fazem apenas para demonstrar que, embora fossem compositores de músicas diferentes – erudita, popular, formato, ritmo, andamento, duração e melodia –, não deixaram de compor obras-primas de modo precoce.
Quanto a Mozart, sempre fora acolhido por príncipes e apresentava-se diante da realeza. Desta recebia o maior apreço, carinho e, certamente, dinheiro. Mas não teve um final de vida feliz. Sem dinheiro e esquecido pelos antigos admiradores – segundo se conta –, apenas um cachorrinho acompanhara o seu enterro. Todavia há séculos suas obras são executadas e veneradas mundo afora.
Já quanto a Erotides, existiram algumas diferenças. Menino pobre, mulato, amargou, desde a infância, o malsinado preconceito pela cor de sua pele. Não teve potentados a acolhê-lo e a oferecer-lhe ajuda financeira. Além disso, faltaram-lhe as mínimas condições para que a sua obra fosse mais bem divulgada e gratificada. No final de vida, Erotides estava financeiramente pobre. Entretanto teve o reconhecimento do povo, que o levou à sua ultima morada cercado do maior respeito e carinho. Por sua genialidade, a exemplo de Mozart, encontra-se no patamar dos compositores imortais.
Falemos, pois, de Erotides Jonas Neves de Campos, nascido em 15 de outubro de 1896, na cidade de Cabreúva, e que viveu grande parte de sua vida em Piracicaba. Aos nove anos, já compunha música e tocava piano e flautim. Nesse tempo organizava uma bandinha infantil, da qual era o regente, e apresentava-se em público. Em 1907 – aos 11 – compôs o Dobrado Sinfônico Porto Artur, inspirado na tragédia que se abateu sobre aquela cidade, em razão de um bombardeio japonês, e que comoveu o mundo. Ainda nesse ano compôs o Dobrado Cabreuvano e a Ária Dr. Mamede, os quais foram executados por uma banda da cidade de Cabreúva, regida por seu pai.
Tempos depois, Erotides deixa sua cidade natal e, na companhia de seu tio, Luiz da Silveira Neves, vem residir em Piracicaba. Aqui logo se integra à Orquestra dos Cines Íris e Politeama. Conforme se comentava na época, muitos iam ao cinema mais para ouvir as impecáveis execuções do menino Erotides ao flautim. Além dessas apresentações, passou a fazer parte da Banda União Operária, de Piracicaba.
Muitos acontecimentos, ao serem relembrados na vida de Erotides, ainda provocam emoção. Há um fato, acontecido quando estudava na Escola Normal, que é por demais encantador. Nessa época era seu diretor Honorato Faustino de Oliveira – médico, poeta e músico –, que, numa oportunidade, teve a sua atenção voltada para os sons musicais vindos do recreio. Era Erotides, portando uma flauta rústica, de bambu, que tocava músicas para os seus colegas. De imediato um inspetor de alunos recebeu ordem do diretor para conduzi-lo ao seu gabinete.
Envolvido por forte receio de algum castigo, pois a disciplina naquela escola era muito rígida, Erotides se apresentou ao diretor, quando foi submetido a interrogatório, o qual seria para comprovar que era ele quem estava tocando flauta no recreio. Na verdade, o diretor ardia de desejo de ouvi-lo tocar à sua frente com aquele rústico instrumento de bambu, com alguns furos obtidos com ferro em brasa. E, ao final, o diretor acabou sendo envolvido por um doce encantamento diante daquela criança. Mas nada lhe disse, apenas o dispensou. Todavia, imaginou, diante da virtuosidade do menino, o que o garoto poderia conseguir com uma flauta de amplos recursos, como uma de cinco ou até de 15 chaves.
Tempos depois, segundo consta da primorosa obra do escritor José Carlos de Moura, o aluno Erotides veio a receber de pre¬sente do diretor Honorato Faustino uma flauta com chaves e todos os recursos que a de bambu não possuía. Fora o dia mais radiante na vida do menino vindo de Cabreúva, cuja genialidade começava a florescer em Piracicaba.
A biografia de Erotides de Campos é tão rica e extensa quanto as suas centenas de composições, que o tornam parte da história da música brasileira. Nessa direção vale a pena, para reduzido registro, um excerto do contido na obra do escritor Waldemar Campos: “As composições de Erotides foram executadas na Europa, nas décadas de 20 e 30, na Romênia, Itália, Espanha, França, Alemanha, Hungria e Portugal. Nelson Vainer escreveu que, em sua viagem da Europa ao Brasil, a bordo do navio alemão Monte Paschoal, em 1931, ouviu a “Ave-Maria” cantada por uma artista espanhola, acompanhada pela orquestra daquele transatlântico, quando foi aplaudidíssima”.
No Brasil, ainda de acordo com Waldemar Campos, cerca de 60 músicas de Erotides de Campos foram gravadas. Entre os tantos cantores e músicos, pode-se destacar Altamiro Carrilho, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas e Waldir Azevedo. Composições catalogadas de Erotides, e publicadas com letras de Jonas Neves – na verdade ele mesmo o autor dos belíssimos poemas – beiram a 300 ou mais.
Na área literária, Erotides de Campos, o imortal compositor de Ave-Maria, é patrono da Cadeira número 7 da Academia Piras¬sununguense de Letras, Artes, Ciências e Educação. Na Academia Piracicabana de Letras, é patrono da Cadeira número 22, que no momento ocupo, mesmo carente de mérito para tal honra. Honra, entretanto, caberia ao maestro Egildo Pereira Rizzi, que há anos vem fazendo admiráveis arranjos orquestrais das músicas de Erotides e executando-as pela Orquestra Sinfônica de Piracicaba. E esta, em sobrevida, graças ao escritor José Carlos de Moura, devotado divulgador da obra de Erotides de Campos.
Quanto a Mozart, sempre fora acolhido por príncipes e apresentava-se diante da realeza. Desta recebia o maior apreço, carinho e, certamente, dinheiro. Mas não teve um final de vida feliz. Sem dinheiro e esquecido pelos antigos admiradores – segundo se conta –, apenas um cachorrinho acompanhara o seu enterro. Todavia há séculos suas obras são executadas e veneradas mundo afora.
Já quanto a Erotides, existiram algumas diferenças. Menino pobre, mulato, amargou, desde a infância, o malsinado preconceito pela cor de sua pele. Não teve potentados a acolhê-lo e a oferecer-lhe ajuda financeira. Além disso, faltaram-lhe as mínimas condições para que a sua obra fosse mais bem divulgada e gratificada. No final de vida, Erotides estava financeiramente pobre. Entretanto teve o reconhecimento do povo, que o levou à sua ultima morada cercado do maior respeito e carinho. Por sua genialidade, a exemplo de Mozart, encontra-se no patamar dos compositores imortais.
Falemos, pois, de Erotides Jonas Neves de Campos, nascido em 15 de outubro de 1896, na cidade de Cabreúva, e que viveu grande parte de sua vida em Piracicaba. Aos nove anos, já compunha música e tocava piano e flautim. Nesse tempo organizava uma bandinha infantil, da qual era o regente, e apresentava-se em público. Em 1907 – aos 11 – compôs o Dobrado Sinfônico Porto Artur, inspirado na tragédia que se abateu sobre aquela cidade, em razão de um bombardeio japonês, e que comoveu o mundo. Ainda nesse ano compôs o Dobrado Cabreuvano e a Ária Dr. Mamede, os quais foram executados por uma banda da cidade de Cabreúva, regida por seu pai.
Tempos depois, Erotides deixa sua cidade natal e, na companhia de seu tio, Luiz da Silveira Neves, vem residir em Piracicaba. Aqui logo se integra à Orquestra dos Cines Íris e Politeama. Conforme se comentava na época, muitos iam ao cinema mais para ouvir as impecáveis execuções do menino Erotides ao flautim. Além dessas apresentações, passou a fazer parte da Banda União Operária, de Piracicaba.
Muitos acontecimentos, ao serem relembrados na vida de Erotides, ainda provocam emoção. Há um fato, acontecido quando estudava na Escola Normal, que é por demais encantador. Nessa época era seu diretor Honorato Faustino de Oliveira – médico, poeta e músico –, que, numa oportunidade, teve a sua atenção voltada para os sons musicais vindos do recreio. Era Erotides, portando uma flauta rústica, de bambu, que tocava músicas para os seus colegas. De imediato um inspetor de alunos recebeu ordem do diretor para conduzi-lo ao seu gabinete.
Envolvido por forte receio de algum castigo, pois a disciplina naquela escola era muito rígida, Erotides se apresentou ao diretor, quando foi submetido a interrogatório, o qual seria para comprovar que era ele quem estava tocando flauta no recreio. Na verdade, o diretor ardia de desejo de ouvi-lo tocar à sua frente com aquele rústico instrumento de bambu, com alguns furos obtidos com ferro em brasa. E, ao final, o diretor acabou sendo envolvido por um doce encantamento diante daquela criança. Mas nada lhe disse, apenas o dispensou. Todavia, imaginou, diante da virtuosidade do menino, o que o garoto poderia conseguir com uma flauta de amplos recursos, como uma de cinco ou até de 15 chaves.
Tempos depois, segundo consta da primorosa obra do escritor José Carlos de Moura, o aluno Erotides veio a receber de pre¬sente do diretor Honorato Faustino uma flauta com chaves e todos os recursos que a de bambu não possuía. Fora o dia mais radiante na vida do menino vindo de Cabreúva, cuja genialidade começava a florescer em Piracicaba.
A biografia de Erotides de Campos é tão rica e extensa quanto as suas centenas de composições, que o tornam parte da história da música brasileira. Nessa direção vale a pena, para reduzido registro, um excerto do contido na obra do escritor Waldemar Campos: “As composições de Erotides foram executadas na Europa, nas décadas de 20 e 30, na Romênia, Itália, Espanha, França, Alemanha, Hungria e Portugal. Nelson Vainer escreveu que, em sua viagem da Europa ao Brasil, a bordo do navio alemão Monte Paschoal, em 1931, ouviu a “Ave-Maria” cantada por uma artista espanhola, acompanhada pela orquestra daquele transatlântico, quando foi aplaudidíssima”.
No Brasil, ainda de acordo com Waldemar Campos, cerca de 60 músicas de Erotides de Campos foram gravadas. Entre os tantos cantores e músicos, pode-se destacar Altamiro Carrilho, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Sílvio Caldas e Waldir Azevedo. Composições catalogadas de Erotides, e publicadas com letras de Jonas Neves – na verdade ele mesmo o autor dos belíssimos poemas – beiram a 300 ou mais.
Na área literária, Erotides de Campos, o imortal compositor de Ave-Maria, é patrono da Cadeira número 7 da Academia Piras¬sununguense de Letras, Artes, Ciências e Educação. Na Academia Piracicabana de Letras, é patrono da Cadeira número 22, que no momento ocupo, mesmo carente de mérito para tal honra. Honra, entretanto, caberia ao maestro Egildo Pereira Rizzi, que há anos vem fazendo admiráveis arranjos orquestrais das músicas de Erotides e executando-as pela Orquestra Sinfônica de Piracicaba. E esta, em sobrevida, graças ao escritor José Carlos de Moura, devotado divulgador da obra de Erotides de Campos.
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