Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras 2018/2021

Presidente– Vitor Pires Vencovsky
Vice-Presidente– Cassio Camilo Almeida de Negri
Primeiro Secretário – Ivana Maria França de Negri
Segundo Secretário – Carmen Maria da Silva Fernandes Pilotto
Primeiro Tesoureiro – Edson Rontani Junior
Segundo Tesoureiro – Waldemar Romano
Bibliotecária – Aracy Duarte Ferrari

Conselho Fiscal
Gustavo Jacques Dias Alvim
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Editor e Jornalista Responsável
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terça-feira, 22 de maio de 2012

SAUDADE


Elda Nympha Cobra Silveira
Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ele era o mais famoso, o mais genial de todos os artistas plásticos que conheci. Não poderia ser somente meu amigo, porque estes encontros costumam ser marcados com antecedência, por quem já se conheceu há muitas gerações passadas. Essa gente religiosa diz que as cores, em certos dias de chuva, irisam como num passe de mágica e passeiam por longos minutos acima do seu túmulo. Pode ser que esse fenômeno seja uma reverberação das atividades que ele continua exercendo no além. Talvez, na sua sabedoria infinita, Deus o tenha contratado para melhorar o aspecto das nuvens, para colorir algumas regiões do espaço, ou até para realçar as cores do arco-íris!
Ele era o mais amigo, o mais sincero amigo de todos os que já tive. Tomávamos muita caipirinha juntos, nos botecos sem nome da vida. E batíamos longos papos, filosofando sobre a miséria, sobre o mundo e os rumos da arte, tão desprestigiada em nossos tempos. Se ele estivesse vivo, com certeza, seria um dos escolhidos para decorar o muro do cemitério, com sua arte colorida, ressaltada de sentimentos e de grande solidão. A solidão que juntos repartíamos. A solidão de sermos duas pessoas diferentes num só corpo. Uma pessoa fadada a ser genial e a ter o seu dom marcado para sempre nas telas do universo, e a outra fadada a sofrer os revezes da vida, a miséria e o preconceito, a indiferença e o desprezo dos artistas mais afamados.
Mas ele, na sua finitude pessoal, no seu desespero cotidiano, era na sua pobreza, na miséria que o rondava, maior que os de renome, majestoso frente à majestade dos poderosos. Grande, imenso na sua humildade negra.
E foi por isso que convivi com ele até a sua morte precoce, sentida, sofrida e inútil.
Pela sua cor escura sempre foi execrado do convívio social, da elite de que fazem parte muitas vezes os que pouco têm para dar, mas lutam para se sobressair pisando naqueles que verdadeiramente têm seus próprios méritos e talentos.
Certo dia, estando juntos num enterro e andando pelas ruas do cemitério, com passadas contidas pelo féretro, ele foi destilando sua amargura:
– Tempos atrás nem aqui eu poderia ser enterrado, se fosse no tempo da escravatura. Perceba como as pessoas se afastam de mim, mesmo sendo do mesmo nível intelectual e talento artístico. Não é só a cor, mas também a pobreza. Elas são divisoras de águas numa sociedade.
E lágrimas rolaram pelo seu rosto destacando-se na pele escura, era um misto de sofrimento pela perda de um amigo e pela sua desdita, pela sua incapacidade de ser aceito por uma sociedade elitista.
Todos podem dizer que a morte é oportuna, digna e necessária, mas eu digo que ela é uma passagem sofrida, absurda e amarga. E quando entro num cemitério e vejo tanta ostentação, tanta ânsia de engrandecer os mortos, num culto mórbido e doentio, fico pensando se vale mesmo a pena cultuar alguém depois que morre elevando-o com honrarias e homenagens, se ele foi tão vilipendiado, humilhado e ofendido quando vivo.
Mas esse amigo não sabe, ou melhor pode até estar vendo, que nesse cemitério mandei colocar sobre seu túmulo a escultura que ele havia esculpido, onde um anjo negro carrega uma criança branca.
Bem, mas como a vida é cheia de mistérios, aquela escultura beirando a guia da calçada, começou a atrair todos que passavam. O olhar daquele anjo negro direcionado para aquela criança em seus braços, diferia dos demais anjos da necrópole, traduzia um infinito amor, despojado de preconceitos onde o pleno amor altruísta se manifestava naquele velar constante pela criança desfalecida em seus braços.
Grandes mestres das artes sentiram toda a força do talento extravasar daquele mármore frio mas esculpido com tanto carinho, parecendo até que foi aquecido por mãos hábeis.
Seu nome agora reconhecido foi catalogado como um gênio do cinzel e das telas. Ficaram sabendo que durante dias e noites o escultor se esfalfou com grande sacrifício, numa ânsia sempre crescente, para vê-lo terminado. Parecia que tinha urgência, e tinha mesmo, pois logo após vê-lo pronto, esgotado pelo cansaço deu por terminados também seus dias.
Na ocasião de sua morte, não houve choro nem vela, somente eu e alguns vizinhos fizemos seu enterro. Sempre o achei um homem solitário, mas ali, sozinho no caixão com as mão calejadas cruzadas no peito, dentro de uma sala vazia, tive noção do que é a solidão, a indiferença, o ostracismo angustiante de se sentir desprezado, um pária na vida. O anjo negro de olhar pungente continua a atrair o povo do lugar, que nunca deixou de sentir a empatia daquele olhar e não se cansa de pedir graças para a saúde das crianças adoentadas. Deus em sua grande misericórdia deu-lhe notoriedade após a morte.

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Galeria Acadêmica

1-Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
2-André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
3-Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
4-Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
5-Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
6-Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
7-Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
8-Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
9-Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
10-Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
11-Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
12-Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
13-Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
14-Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
15-Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
16-Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
17-Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
18-Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
19-Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
20-Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
21-Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
22-João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
23-João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
24-Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
25-Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - cadeira no 26 Patrono Nelson Camponês do Brasil
26-Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
27-Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
28-Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
29-Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
30-Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
31-Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
32-Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
33-Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
34-Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
35-Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
36-Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
37-Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
38-Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
39-Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
40-Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz
Lino Vitti - Acadêmico Honorário (in memoriam)