Rio Piracicaba

Rio Piracicaba
Rio Piracicaba cheio (foto Ivana Negri)

Patrimônio da cidade, a Sapucaia florida (foto Ivana Negri)

Balão atravessando a ponte estaiada (foto Ivana Negri)

Diretoria

Diretoria da Academia Piracicabana de Letras

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domingo, 9 de dezembro de 2012

Hernâni Donato (1922-2012)

Armando Alexandre dos Santos
Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado

                   In memoriam


No meu último artigo, tive ocasião de comentar, com os leitores da Tribuna Piracicabana, o falecimento de Samuel Pfromm Netto, falecido no dia 17 de novembro. Cinco dias depois, outro grande intelectual paulista nos deixou: Hernâni Donato.
Laconicamente, assim rezava a notícia divulgada pela imprensa:
Morreu na manhã desta quinta-feira (22), no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, o escritor, historiador, jornalista, tradutor e roteirista Hernâni Donato. O autor será enterrado nesta sexta-feira, às 10h, no cemitério Gethsemani, no Morumbi. Ele tinha 90 anos e ocupava a cadeira nº 20 da Academia Paulista de Letras.”
Soube de mais pormenores por D. Nelly Donato – dama de cultura excepcional, esposa dedicada e cooperadora intelectual da obra de Hernâni. Três ou quatro dias antes do falecimento, Hernâni recebera, na UTI do Hospital, a visita de seu amigo D. Fernando Figueiredo, Bispo de Santo Amaro. D. Fernando estava saindo de viagem para Roma, mas quis visitar Hernâni, ao qual ministrou a Unção dos Enfermos.
Hernâni era desses homens que nos habituamos a supor que nunca morrem, não apenas no sentido metafórico e simbólico de ser um “imortal” membro da Academia Paulista de Letras, mas porque sua vitalidade extraordinária, sua vivacidade de espírito, seu incansável trabalho, sua energia e seu entusiasmo contagiantes, davam-nos a ilusão de que aquele jovem de 90 anos ainda teria um longo percurso pela frente.
Lutou durante 20 anos contra um câncer, mas isso não o impediu de prosseguir suas atividades. Trabalhou até o fim, nunca esmoreceu. No hospital, contou-me D. Nelly, ainda estava empenhado na redação de três livros e comentava com seu médico que não podia morrer sem tê-los concluído.
Iniciou a vida em Botucatu, a cidade dos bons ares, pela qual conservou sempre um carinho e um amor muito assinalados. Em Botucatu, aliás, é considerado a justo título uma glória da cidade, é respeitadíssimo, assim como seu antigo condiscípulo Francisco Marins, igualmente membro da Academia Paulista de Letras. Aos 11 anos de idade, escreveram os dois um romance infantil a quatro mãos. Cada um escrevia um capítulo, alternadamente, e a obra chegou a ser publicada em capítulos, no clássico sistema de folhetim, por um suplemento literário do grupo Diários Associados. Seu título: “O Tesouro”.
Essas foram as primícias do talento dos dois juveníssimos escritores, que tanto haveriam de brilhar nas letras paulistas. Mais tarde, aos 19 anos, Hernâni empreendeu uma tradução da Divina Comédia, considerada até hoje das melhores existentes para nosso idioma.
A partir daí, as produções literárias foram se sucedendo ininterruptamente, chegando à casa dos 80 volumes publicados, nos mais diversos gêneros: livros históricos, obras de referência, biografias, livros infantis, novelas, romances etc.
Historiador consciencioso e bem documentado, sabia escrever do mesmo modo atraente e cativante com que falava. Os leitores sorviam, literalmente, seus livros, todos escritos de modo a prender a atenção do começo ao fim. Quando vejo historiadores de formação criticarem jornalistas, como Hernâni, que escrevem sobre temas históricos e alcançam grandes tiragens, não posso deixar de me perguntar: por que tantos historiadores de formação não escrevem também de modo interessante e adequado ao grande público, mas fazem questão de produzir textos acadêmicos... que só outros acadêmicos conseguem ler e entender?
Hernâni escrevia livros históricos e biografias que, sem embargo do forte embasamento documental, pareciam novelas, roteiros de cinema. Mais de um livro seu foi, aliás, objeto de adaptações para o cinema. Profundamente brasileiro e paulista, Hernâni produziu obra de interesse universal, o que pode ser atestado pelas inúmeras traduções que vários de seus livros tiveram, até mesmo para idiomas pouco afins com o nosso.
Sua erudição era espantosa e de grande precisão. Recordo certa ocasião que lhe perguntei como eram iluminadas as casas paulistas no século XVII. “Depende – respondeu com segurança. Até certa altura desse período, mais usada era a cera de abelha, transformada em velas. Depois, generalizou-se o uso do óleo de baleia, também utilizado na argamassa para construção”. E explicou que pelo exame da documentação antiga conservada no Arquivo do Estado de São Paulo conseguira situar, de modo bastante aproximado, quando o óleo de baleia tinha começado a servir nos candeeiros paulistas.  
Outra vez, perguntei-lhe acerca da realização de touradas, na São Paulo antiga, já que minha avó – nascida em Portugal em 1880 e vinda para o Brasil em 1886 – se lembrava de corridas de touros no Largo dos Curros, que depois foi transformado em Praça da República. Sem qualquer consulta a apontamentos, Hernâni não somente falou das touradas na capital paulista, realizadas até cerca de 1910, mas citou nominalmente várias cidades do interior de São Paulo que mantiveram touradas até bem depois disso, nas quais se exibiam toureiros nacionais e estrangeiros, e até me falou de uma toureira muito famosa, que causou sensação em várias cidades paulistas pelo seu desempenho corajoso. Revelou ainda que tinha apontamentos completos sobre o assunto, mas nunca tivera tempo de redigir algo mais profundo a respeito.
Hernâni teve vida profissional muito intensa, chegando aos mais altos postos do Grupo Abril e da Companhia Melhoramentos. Trabalhou também na imprensa e em vários canais de televisão. Associativamente, atém de membro da Academia Paulista de Letras (cuja revista dirigiu por muitos anos, nela promovendo uma salutar atualização, com excelente projeto gráfico), foi também duas vezes Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Recebeu merecidamente, desta última instituição, o título de Presidente Perpétuo de honra.
Sua solicitude pelo Instituto era enorme. Praticamente todas as manhãs tinha longas conversações com sua Presidente, Dra. Nelly Martins Ferreira Candeias, pois gostava de se manter atualizado sobre os assuntos do Instituto. Nas horas difíceis, que não foram poucas, Hernâni sempre esteve ao lado da nossa valorosa e ativa Presidente, trocando ideias, dando sugestões, aconselhando. Era um interlocutor ideal que Dra. Nelly sempre apreciou e cuja colaboração soube utilizar a bem do Instituto.
Foi, ainda, um amigo muito dileto, ao qual devo, inclusive o prefácio de meu livro de crônicas  “A porto-riquenha dentuça e horrorosa”. Todos nós sentiremos imensamente a falta de Hernâni.

 (*) Armando Alexandre dos Santos é historiador,  jornalista e diretor da Revista da Academia Piracicabana de Letras.

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Galeria Acadêmica

Alexandre Sarkis Neder - Cadeira n° 13 - Patrono: Dario Brasil
André Bueno Oliveira - Cadeira n° 14 - Patrono: Branca Motta de Toledo Sachs
Antonio Carlos Fusatto - Cadeira n° 6 - Patrono: Nélio Ferraz de Arruda
Antonio Carlos Neder - Cadeira n° 15 - Patrono: Archimedes Dutra
Aracy Duarte Ferrari - Cadeira n° 16 - Patrono: José Mathias Bragion
Armando Alexandre dos Santos- Cadeira n° 10 - Patrono: Brasílio Machado
Barjas Negri - Cadeira no 5 - Patrono: Leandro Guerrini
Carla Ceres Oliveira Capeleti - Cadeira n° 17 - Patrono: Virgínia Prata Gregolin
Carmen Maria da Silva Fernandez Pilotto - Cadeira n° 19 - Patrono: Ubirajara Malagueta Lara
Cássio Camilo Almeida de Negri - Cadeira n° 20 - Patrono: Benedito Evangelista da Costa
Cezário de Campos Ferrari - Cadeira n° 12 - Patrono: Ricardo Ferraz do Amaral
Edson Rontani Júnior - Cadeira n° 18 - Patrono: Madalena Salatti de Almeida
Elda Nympha Cobra Silveira - Cadeira n° 21 - Patrono: José Ferraz de Almeida Junior
Ésio Antonio Pezzato - cadeira no 31 - Patrono Victorio Angelo Cobra
Evaldo Vicente - Cadeira n° 23 - Patrono: Leo Vaz
Felisbino de Almeida Leme - Cadeira n° 8 - Patrono: Fortunato Losso Netto
Geraldo Victorino de França - Cadeira n° 27 - Patrono: Salvador de Toledo Pisa Junior
Gregorio Marchiori Netto - Cadeira n° 28 - Patrono: Delfim Ferreira da Rocha Neto
Gustavo Jacques Dias Alvim - Cadeira n° 29 - Patrono: Laudelina Cotrim de Castro
Ivana Maria França de Negri - Cadeira n° 33 - Patrono: Fernando Ferraz de Arruda
Jamil Nassif Abib (Mons.) - Cadeira n° 1 - Patrono: João Chiarini
João Baptista de Souza Negreiros Athayde - Cadeira n° 34 - Patrono: Adriano Nogueira
João Umberto Nassif - Cadeira n° 35 - Patrono: Prudente José de Moraes Barros
Leda Coletti - Cadeira n° 36 - Patrono: Olívia Bianco
Maria Helena Vieira Aguiar Corazza - Cadeira n° 3 - Patrono: Luiz de Queiroz
Marisa Amábile Fillet Bueloni - cadeira no32 - Patrono Thales castanho de Andrade
Marly Therezinha Germano Perecin - Cadeira n° 2 - Patrona: Jaçanã Althair Pereira Guerrini
Maria de Lourdes Piedade Sodero Martins - Cadeira n° 26 - Patrono: Nelson Camponês do Brasil
Mônica Aguiar Corazza Stefani - Cadeira n° 9 - Patrono: José Maria de Carvalho Ferreira
Myria Machado Botelho - Cadeira n° 24 - Patrono: Maria Cecília Machado Bonachela
Newman Ribeiro Simões - cadeira no 38 - Patrono Elias de Mello Ayres
Olívio Alleoni – Cadeira n° 25 – Patrono: Francisco Lagreca
Paulo Celso Bassetti - Cadeira n° 39 - Patrono: José Luiz Guidotti
Raquel Delvaje - Cadeira no 40 - Patrono Barão de Rezende
Rosaly Aparecida Curiacos de Almeida Leme - Cadeira n° 7 - Patrono: Helly de Campos Melges
Sílvia Regina de OLiveira - Cadeira no 22 - Patrono Erotides de Campos
Valdiza Maria Caprânico - Cadeira no 4 - Patrono Haldumont Nobre Ferraz
Vitor Pires Vencovsky - Cadeira no 30 - Patrono Jorge Anéfalos
Waldemar Romano - Cadeira n° 11 - Patrono: Benedito de Andrade
Walter Naime - Cadeira no 37 - Patrono Sebastião Ferraz